Guerra de informação x Guerra ao Covid-19

Guerra de informação x Guerra ao Covid-19

Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força. As palavras de George Orwell extraídas de 1984, livro publicado originalmente em 1949, parecem definir o tempo em que vivemos.  A todo instante somos bombardeados com informações sobre o atual conflito da humanidade, a Guerra contra o invisível e ainda indecifrado Covid-19. Na Guerra dos dias de hoje as mídias sociais são um novo front.

Nessas trincheiras os algoritmos ditam o ritmo. As mídias sociais transformaram o acesso à informação, mas entre seus efeitos deletérios a produção das eco-chambers como descritas por Cass Sunstein[1] é um dos mais visíveis. Se por um lado temos acesso a informação por um simples toque em nossos smartphones essa informação não nos é de toda fornecida da mesma maneira Há muito se descreve as possíveis falhas nos algoritmos. Há pouco se estuda uma maneira de regulá-los.

No nosso tempo a informação nos é ditada por nossas próprias opiniões e o espaço a uma posição mais crítica quanto aos algoritmos e seu design necessários. Preconceitos e outros vieses humanos são reproduzidos e ditam, em certa medida, um mau comportamento dos algoritmos. O Covid-19 é, sem dúvidas, a primeira pandemia em uma sociedade digitalizada. Por esse motivo seria possível esperar que a informação pudesse ser ponto de tranquilidade, no entanto, o que se vê nas mídias sociais é um contexto de espetáculo.

A informação é privatizada, não há apenas a participação passiva na comunicação, não há hierarquia, cada um de nós é emissor e destinatário das mensagens que a todo instante surgem em nossas telas.  Novas fronteiras para o poder traçadas nos caracteres do Twitter ou em lives pelo Facebook ou Instagram modificam os paradigmas até então concebidos. As mídias sociais fizeram parte das últimas eleições presidenciais em países como Estados Unidos e Brasil, e fazem parte da estratégia de comunicação de ambos os presidentes desses países em perfis pessoais.

Como semelhanças entre esses dois países a polarização política que acaba por tornar ações coletivas difíceis de serem adotadas. Uma análise dos tópicos de pesquisa no Google, entre 15 de fevereiro e 15 de março de 2020, demonstrou que, nos Estados Unidos, pessoas que vivem em estados de maior afluência republicana buscaram menos informações sobre o Covid-19. Essa tendência foi revertida em análise posterior, no entanto, as causas podem residir na polarização do Covid-19 a partir de mensagens em mídias sociais por parte de líderes republicanos e figuras da mídia[2].

A própria comunicação do presidente Trump é confusa. Se inicialmente adotou a postura de nomear o Covid-19 como um “hoax”, na semana seguinte afirmou que o vírus era real, e que sempre soube que se tratava de uma pandemia. Mesmo as análises nas buscas no Google podem camuflar o tipo de informação buscada.

O ponto a ser debatido é: os caracteres do Twitter, ou mesmo as fotos, vídeos e lives no Instagram e no Facebook tem o potencial de atingir um número de eleitores sem precedentes. A informação é difusa, e como dito privatizada, sociedades com visões acríticas e menor literacia tem maior possibilidade de sofrerem com o paradoxo do excesso de informação e a ausência de reflexão. A guerra ao inimigo comum transformou-se em guerra ideológica potencializada pelos modos como as mídias sociais foram desenhadas.

As mídias sociais criaram um mundo em que as fronteiras entre as verdades e as mentiras erodiram e a desinformação se espalha como um vírus. Ainda assim exemplos de boa comunicação em outros países demonstram que com responsabilidade e serenidade é possível contornar as eco-chambers das mídias sociais, ou ao menos mitigar seus efeitos, e informar os cidadãos com fatos sem vieses ideológicos.

Não sou contrária a tecnologia, como afirmei em artigo anterior entendo que a inteligência artificial, por exemplo, será e é capaz de grandes benefícios para o desenvolvimento da humanidade em diversas áreas, mas não sou, e não podemos ser, defensores acríticos de algoritmos que cada vez mais ditam nosso modo de vida, a forma como a informação nos é transmitida e o modo com que enxergamos o mundo em que vivemos.

 

[1] SUNSTEIN, Cass R. #republic. Divided democracy in the age of social media. New Jersey: Princeton University Press, 2017.

 

[2] In a pandemic, political polarization could kill people. Por Jay J. Van Bavel para o The Washington Post em matéria publicada em 22 de março de 2020.

 

Imagem (TheDigitalArtist) gratuita em Pixabay

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