… e se te disserem que desgostas dos filmes de Oscar Micheaux porque foste condicionado para tal?

Após trabalhar como carregador de trens, onde interagia com passageiros ricos e brancos, Oscar Micheaux foi exitoso na aquisição de alguns bilhetes que loteria que garantiram-lhe alguns lotes de terra no Estado norte-americano de Dakota do Sul. Logo estava publicando seus próprios romances e iniciando a realização de filmes mudos, entre eles “Dentro de Nossos Portões” (1920). Os embates raciais eram evidentes em seus enredos, mas ele também ousava tematizar as traições cometidas por determinados membros das comunidades negras, como ocorre com o protagonista de “Corpo e Alma” (1925), um presidiário em fuga que finge ser um reverendo, a fim de usurpar o dinheiro dos fiéis. Trata-se de um de seus melhores filmes, inclusive.

Brasil que tortura e mata nosso irmão Moïse

Moïse Mugenyi Kabagambe, refugiado congolês de 24 anos, foi torturado e morto, no dia 24 de janeiro de 2022, na orla da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Não podemos tratar o caso de Moïse como mais um caso isolado ou como um problema somente do atual governo.

Na impossibilidade de uma feijoada militante, um bom cozido cinematográfico antirracista…

Em exibição nalgumas salas de cinema e disponível através do serviço de ‘streaming’ GloboPlay, o longa-metragem “Doutor Gama” permite que o diretor Jeferson De restabeleça a urgência de seus mandamentos reivindicativos. Na trama, o personagem-título encara os espectadores de frente e pergunta-nos como conseguimos ser coniventes com a morte de tantas pessoas, por causa do racismo – que possui um acentuado viés estrutural, no país. Até que acompanhamos, em ‘flashback’, os fatos que possibilitaram que, antes de a escravidão ser abolida no Brasil, ele tenha conseguido formar-se em Direito.

De como a Literatura ajuda-nos a lutar e resistir, depois que a nossa língua é decepada… [diretamente ao ponto: abaixo o racismo!]

A difusão de um romance contemporâneo tão primoroso quanto “Torto Arado”, escrito pelo baiano Itamar Vieira Júnior, merece exaltação: lançado em 2019, inicialmente em Portugal, este livro recebeu diversas láureas importantes, entre elas o tradicional Prêmio Jabuti, em 2020. E é uma obra que faz jus à sua fama. Narrado de maneira épica, conta as desventuras enfrentadas pelas irmãs Bibiana e Belonísia – que são filhas de escravos libertos – ao longo de algumas décadas, numa fazenda no sertão da Bahia.

Diálogo com o público: “Para que o povo lute, ele precisa saber que houve quem lutasse antes”!

Apesar de ser o protagonista do filme que leva seu título, Carlos Marighella não vive isolado. Pelo contrário: é cercado de jovens motivados – e atravessados por inevitáveis contradições sociais –, que o ajudam a pôr em prática os seus ataques contra a violência ditatorial. Porém, o filme parece duvidar da melhor abordagem ativista: por vezes, adere às táticas de guerrilha baseadas na lógica do “olho por olho, dente por dente”; na grande maioria das cenas, opta por digressões familiares que não funcionam a contento.

“É complicado”, eles repetem: “a heroína alivia um pouco a dor, mas tudo volta depois, pior que antes”!

Conforme o próprio título deixa evidente, conheceremos um pouco dos percalços envolvendo a trajetória artística da cantora Billie Holiday [1915-1959], que faleceu aos 44 anos de idade, em decorrência de complicações da cirrose, após uma vida trágica e uso contínuo de opiáceos. Entretanto, conforme percebemos no mesmo título, a abordagem jornalístico-judicial sobrepuja-se aos demais aspectos biográficos, de modo que, mais uma vez, escolhe-se uma imponente personalidade negra como coadjuvante de sua própria história…

Em qual situação “um distintivo é mais assustador que uma arma”? Pensaram no racismo?

A biografia do líder dos Panteras Negras no Estado de Illinois é contada numa narrativa que mescla o gênero policial com os rompantes de drama familiar. O protagonista é personificado com uma intensidade mui aplaudível, de maneira que todo e qualquer prêmio que Daniel Kaluuya receber por este papel é deveras merecido. Mas a contrapartida actancial de Lakeith Stanfield é ainda mais drástica: afinal, ele interpreta alguém que está interpretando um papel, de modo que o agente do FBI Roy Mitchell (Jesse Plemons) chega a comentar, após observar o seu comportamento gregário: “tua interpretação merece um Oscar”.

Em que tempos vivemos? Entre a negação e a assimilação, (anti)racismo vende!

Atrevemo-nos a recomendar o filme infantil “Uma Invenção de Natal” (2020, de David E. Talbert), disponibilizado via Netflix no dia 13 de novembro de 2020. Trata-se de uma típica estória natalina, quase clicherosa em suas boas intenções familiares. Mas possui um diferencial digno de nota: o elenco é quase integralmente negro, sem que haja a necessidade interna de chamar a atenção para este aspecto.

“Somos a região que mais paga impostos. E não recebemos quase nada por isso!”: um filme-síntese.

Tendo como assunto intermediário um projeto de emancipação nacional dos Estados sulistas do Brasil, este filme parte da dilaceração psicológica de um personagem para diagnosticar um fenômeno antitético que disseminou-se no país sob a expressão “pobre de direita”. O protagonista é Antônio Pitanga, que, no auge de seus oitenta anos de idade, entrega-nos uma interpretação bastante distinta de sua euforia habitual: está contido, oprimido, silencioso… Até que as condições externas obrigam-no a gritar, cantar um aboio de protesto!

Sobre um dos filmes brasileiros mais aguardados de 2020: tudo começa em Setembro!

Quiçá o mais tradicional certame cinematográfico brasileiro, o Festival de Cinema de Gramado ocorre anualmente desde o ano de 1973, na cidade homônima do Estado do Rio Grande do Sul. Após a extinção da Embrafilme e o desmantelamento distributivo do cinema nacional no Brasil – durante o mandato interrompido do presidente Fernando Collor de Mello, […]

A colonialidade fascistoide

Esse texto é continuidade do último: Brasil, a espiral reatualizada da colonialidade. Nele, em resumo, dissemos que a elite brasileira conseguiu levar grande parte da sociedade a naturalizar, inclusive como virtude, práticas autoritárias, violentas, racistas. O ódio, por exemplo, transformou-se em expressão de “liberdade”. Esse é um processo pedagógico violento, histórico e continuado, produzindo uma […]

A interpretação patrimonial: entre a descolonização e (re) sacralização do espaço público e a fenomenologia antirracista

Na continuação de artigo anterior, intitulado “O iconoclasmo na contemporaneidade” publicado n’A Pátria, notamos que o espaço público – por oposição a outro “lugar” ideológico, o espaço privado – é um lugar necessariamente político e por isso, pela sua própria definição, conflituoso. A arte toma parte nesse conflito. Correia (2013) citando Martins (1996) considera que […]

Publicações humorísticas ajudaram a propagar e perpetuar o racismo

Uma pesquisa realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo analisou a história cultural do humor da belle époque (desde meados de 1870) aos anos 1920, na cidade do Rio de Janeiro. O estudo permite analisar como o racismo, a ideologia do branqueamento e a democracia racial se perpetuaram […]

“O ouro muda as pessoas. Até os amigos. Tome cuidado!”: ou de quando é importante errar para prolongar os abraços…

Não obstante a perfeita consonância com o momento histórico-reivindicativo atual, Spike Lee refuta o “discurso de manada” (por melhor intencionado que seja) e opta por uma proposta discursiva muito mais complexa, provocadora e autocrítica. Demonstra que as contradições idealistas e comportamentais são inevitáveis em quaisquer contextos – principalmente, nos mais explicitamente sobrevivenciais…

I have a dream

Hoje vou ser rápido… Vem a propósito desta de onda de protestos antirracistas que se espalhou pelo mundo depois do malogrado George Floyd… É verdade que há racismo? É… É igual em todo o lado? Não… Deve-se protestar em todo o lado? Sim, porque quantos mais formos, maior visibilidade existirá e maior consciencialização haverá… Deve-se […]

“O Brasil é um sonho!” [ou o pesadelo de muitos!]

Na tarde do dia 30 de maio de 2020, começaram a abundar ciberneticamente os elogios intensificados ao curta-metragem “República” (2020), dirigido, escrito e protagonizado pela extraordinária atriz, com a colaboração técnica de Wilssa Esser, responsável pela fotografia, som e montagem do filme em pauta. Em pouco mais de quinze minutos, configura-se um dos melhores e mais impactantes filmes do ano!

A guerra Trump x Twitter

Esses últimos dias foram de agitação no Twitter. Pela primeira vez um tweet de Donald Trump foi classificado com um label de possível informação falsa. Essa atitude por parte do Twitter foi seguida da reação de Donald Trump com a afirmação de que não iria tolerar quaisquer interferências na liberdade de expressão. E, que as […]

Racismo e xenofobia também são assassinos contagiosos, diz Bachelet

O surto de coronavírus pode ter forçado milhões ao redor do mundo a se “distanciar socialmente”, mantendo um metro de distância para impedir a propagação, mas isso não impedirá as pessoas de se unirem contra o racismo, declarou Michelle Bachelet, alta-comissária da ONU para os direitos humanos. A fala de Bachelet ocorreu ao Conselho de […]