“Não filmes a morta. Dá azar!”: quando nos distanciamos de quem amamos, distanciamo-nos também de nossos lugares de pertença…

Vencedor de dois importantes prêmios – Melhor Longa-Metragem, segundo o Júri Jovem e o Júri Oficial – na terceira edição do Festival Internacional de Cinema de Maceió (Revoada), “Uma Casa Sem Cerimônia” (2025, de Bichun Yang) rememora algumas situações imediatamente posteriores à quarentena preventiva para a COVID-19, na Região Administrativa Especial de Hong Kong, agora reintegrada à China. No filme, Ricky é mostrado como um violonista em crise com a própria arte, que volta para a casa dos pais, e tenta convencê-los a se mudarem do lugar onde viveram por mais de quatro décadas, por conta das más condições do edifício. Eles relutam, o que instaura um primeiro desentendimento familiar.

“Quando o corpo morre, o câncer também morre”: livremo-nos do luto que adoece, via ressignificação artística (e política)!

A fim de converter nalgo intelectualmente produtivo a aflitiva sensação de perda deixada pela notícia supracitada (o falecimento do crítico Jean-Claude Bernardet), convém assistir ao ótimo longa-metragem “O Senhor dos Mortos” (2024 – “As Mortalhas”, tradução do título original, em Portugal), mais recente produção do mestre do horror corporal David Cronenberg. Neste roteiro, evidentemente autobiográfico, o cineasta parte de uma reflexão sobre o vazio deixado após a morte de sua esposa Carolyn Zeifman [1950-2017], com quem vivia desde 1979, e que era operadora de câmera e produtora cinematográfica. Para validar a experiência de imersão, o protagonista Vincent Cassel está fisicamente muito parecido com o diretor. Porém, a narrativa parte para os rumos intricados que caracterizam os seus enredos…

“O povo não vai embora!”: o testamento combativo de um gênio terceiro-mundista

No dia 06 de novembro de 2020, aos 84 anos de idade, Pino Solanas falece, em decorrência de complicações do CoronaVírus, na capital francesa, Paris. Em seu país, a quantidade de casos e mortos aumenta de forma acachapante, por causa da segunda onda da doença. O mundo atual confirma a impressão de “genocídio neoliberal” que o cineasta diagnosticou em vários de seus filmes, incluindo o recente documentário “Memórias do Saque” (2004). É acerca deste filme que deteremo-nos daqui por diante…

A ausência sentida, quando advinda de uma morte anunciada

Deparamo-nos, neste filme, com uma demonstração prática de questionar o próprio cotidiano do realizador, enquanto ele imerge na feitura de uma obra cinematográfica: onde começa a vida e onde termina o filme (ou vice-versa)? O próprio diretor responde, numa entrevista: “eu não consegui terminar o filme. Ele era maior que eu. Eu apenas o interrompi!”.