Em termos audiovisuais, 2026 começou muito bem: surgiram os primeiros filmes brasileiros do ano!

Entre os dias 23 e 31 de janeiro de 2026, aconteceu a vigésima nona edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais. Trata-se do evento que inaugura as premiações cinematográficas no Brasil e é quando somos apresentados a títulos que, mesmo que não consigam ser distribuídos comercialmente, tendem a ser mencionados nas listas de melhores do ano dos mais renomados críticos do país, por conta da vinculação/requisição persistente à autoralidade.

“Cuidado, nem todo mundo que te faz um afago gosta de ti”, ou de quantos Brasis existem dentro do cinema brasileiro…

Recebedor do prêmio Novos Olhares, no Festival Internacional de Curitiba Olhar de Cinema, “Idade da Pedra” (2024) dá continuidade aos experimentos narrativos e discursivos que o diretor Renan Rovida empreendera em “Pão e Gente” (2021), a saber, a musicalidade brechtiana, a exortação de esforços coletivos no enfrentamento ao Capitalismo e o aproveitamento actancial de um elenco, que ele próprio encabeça como ator, que possui vasta experiência teatral. Se, na produção anterior, a influência do dramaturgo alemão era mais explícita, nesta mais recente produção, há um flerte com as temáticas e intenções do chamado Cinema Marginal. Porém, há algo de excessivamente “limpo” no tratamento das imagens e situações, não obstante os personagens comumente revolverem o lixo.

Recomendação musical de um aniversariante perpetuamente apaixonado pela violência dos paradoxos da vida: “o telefone nunca mais tocou/ Cadê você?”

Depois de assistir a um clássico hollywoodiano [“A Fonte dos Desejos” (1954, de Jean Negulesco)] que serviu como metonímia para a mudança de ciclo em questão, no que tange à percepção de que dificuldades românticas são enfrentadas com diálogo e apoio mútuo, o articulista refletiu acerca do que escrever em sua coluna semanal. E lembrou de um álbum brasileiro que mexeu bastante com seus sentimentos, de modo que faz questão de recomendá-lo publicamente. Trata-se de “Viver e Morrer de Amor na América Latina”, do pernambucano Johnny Hooker, lançado em 5 de dezembro de 2025.

Sempre haverá os fantasmas

Era 2020. O ano sequer principiara nestas terras mestiças e já se ouvia o burburinho sobre um tal vírus chinês. Coisa séria, de matar rapidamente. “Autoridades preocupadas!” anunciava a TV. Autoridades estrangeiras, talvez. Por aqui, seriedades e preocupações que tenham modos e sigam o calendário. Primeiro o carnaval, depois o ano e o que vier. […]

“Eu gostaria que minha mãe tivesse feito um filme sobre o meu nascimento”: ou de como crianças que foram machucadas lutam para que outra(s) não sofra(m)…

Por ser um filme narrado como se fosse uma carta audiovisual para o nomeado Apolo, este longa-metragem consegue justificar os seus problemas formais, de cariz publicitário, atrelando-os aos pontos de vista de Ísis e Lourenzo, que decidem sair de Sergipe, por acharem que o Estado nordestino oferece poucas oportunidades para as suas respectivas carreiras artísticas e por sofrerem atos demarcados de transfobia. Em São Paulo, a gravidez atípica de Lourenzo pôde ser acompanhada por médico que trabalha num Centro de Referência Transexual, o que, lamentavelmente, não impede o casal de ser alvo do ódio gratuito de um taxista, que interrompe uma conversa íntima para destilar os seus preconceitos, durante uma corrida. Mesmo não sendo um filme que inove em termos lingüísticos – nem parece ter esta intenção –, “Apolo” é gracioso na maneira como direciona amor pelos seres humanos mencionados, sendo particularmente merecedor de atenção quando Ísis comenta que o que eles estão vivendo lembra aquilo que é exortado pela dupla Os The Dárma Lovers, na excelente canção “Peixes”…

“Eu gostava de ouvir a voz do Armando, em meu ‘headphone’…”: a propósito, quem lembra?

Sobre o que é este filme: como o diretor é sobremaneira ativo nas redes sociais (principalmente, o Twitter) e manifesta-se de maneira ranzinza quanto a opiniões divergentes acerca de sua opulenta produção, arriscamo-nos a tornamo-nos ‘personae non grata’ por manifestarmos nossas insatisfações quanto a alguns aspectos da obra. Arriscaremos ficar sob este ônus: a despeito da excelência técnica da obra e da magistral seleção de atores e músicas, algo na intenção teleológica – recorrente na ótima filmografia do realizador – não funciona tão bem ao amarrar as inúmeras pontas (intencionalmente) soltas do ambicioso roteiro. Nas bordas, referentes à exposição de dramas pontuais, o filme é genial; na totalidade enredística, problemático em suas simplificações e decepções – inclusive, quanto ao seu desfecho, que reitera a mesma conclusão pessimista (mas crente em alguma transformação mediante apelo à nostalgia) que aparece em “Retratos Fantasmas” (2023)…

É válida uma cobertura de festival baseada em apenas metade da programação vista? Por que torcemos por obras específicas em premiações?

Neste texto, comentamos algumas experiências vivenciadas na quinquagésima oitava edição do Festival de Cinema Brasileiro de Brasília, que ocorreu entre 12 e 20 de setembro de 2025. Esta última data corresponde à noite de premiação, em que serão conhecidos os filmes eleitos pelos jurados e público presente nas diversas seções competitivas do evento. Porém, a lista de laureados não esgota o interesse no que foi visto, pois quase uma centena de produções, entre curtas e longas-metragens, foi exibida na edição atual deste festival, vários deles em mostras paralelas e não competitivas.

“Alguém tem que ficar e varrer isso daqui”: ainda sobre curtas-metragens e festivais!

Retomando a musicalidade que já adotara no extraordinário “Fantasma Neon” (2021, Premiado no Festival Internacional de Cinema de Locarno, entre outros) e em “Pássaro Memória” (2023), o carioca Leonardo Martinelli emociona-nos ao contar a história de um gari que não conseguiu uma troca de turno durante o Carnaval, já que ele queria acompanhar o desfile de blocos, pois isso faz com que ele relembre uma irmã falecida, que amava esta festividade. Numa interessante imbricação entre delírio e memória, este personagem, de nome Ângelo (Alexandre Amador), encontra um garotinho – também batizado com seu nome (interpretado por Miguel Leonardo), que pode ser ele na infância – que segura um livro, e tem a intenção de devolvê-lo. É a deixa para uma apaixonante execução coletiva da canção “Drão”, de Gilberto Gil, que faz uma participação especial no filme.

“O que levou o comunismo ao fracasso foi a negação da religião”: afinal, todo mundo tem opinião!

Da maneira a que está habituada, Petra Costa preenche a sua narração com frases evasivas e/ou circunloquiais, declarando que está descobrindo relações a partir daquilo que ela apresenta, como se estivesse se surpreendendo, tanto quanto ela parece projetar no espectador. Para isso, ela não hesita em rebobinar uma determinada seqüência, a fim de esmiuçar movimentos cúmplices entre Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, além de repetir frases e explicar sentenças que, por si só, são demasiado evidentes. Contrariando uma definição senso-comunal, Petra Costa não permite que seu documentário seja didático ou imparcial, e chega a ser repetitiva naquilo que pretende expor enquanto tese, partindo de um pressuposto deveras errôneo: ela refere-se aos evangélicos de maneira sempre coletiva, em bloco, negligenciando as distinções que ocorrem entre congregações e doutrinas.

“Eu não sou criança! Eu nunca fui, nem mesmo quando eu era…”: das dificuldades de se condensar mais de cinco décadas de vida em duas horas de filme!

Interpretado de maneira intensa pelo pernambucano Jesuíta Barbosa, que reproduz com estudada maestria alguns cacoetes oculares e corporais do artista, Ney Matogrosso é mostrado, em “Homem com H” (2025, de Esmir Filho), como alguém que sempre quis ser livre, a despeito da extrema repressão de seu pai militar, Antônio (Rômulo Braga). Na infância, Ney é comumente espancado, mas irrita o pai por não chorar durante as surras. Expulso de casa, ele alista-se na Aeronáutica, a fim de superá-lo num campo familiar, mas logo será descoberto por causa de seu timbre vocal tão agudo quanto insigne. E, de maneira um tanto evasiva, mas assertiva em seu poder de síntese, acompanhamos as diversas fases musicais deste magnífico intérprete…

Impacto da Dívida Pública na Taxa de Juro do Brasil

Em tempos de inflação persistentemente acima da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, no Brasil, a Taxa Básica de Juro tomou um rumo ascendente, que, depois de atingir a mínima histórica de 2% ao ano, no pandêmico 2020, já se aproxima de 15% ao ano agora, em 2025. Convenhamos tratar-se de um espaço de tempo […]

“Pr’eu te perdoar, tu precisas me pagar dez Reais. Eu não perdôo de graça, não!”: reflexão sobre uma perspectiva audiovisual contemporânea. A quem interessa isto?

Nos conteúdos transmitidos comumente pelo ‘youtuber’ Rafael Abreu, ele caminha pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro, em plena madrugada, aventurando-se por lugares desertos e conversando com os transeuntes que encontra, além de interagir com as pessoas que comentam no ‘chat’ da transmissão. Como ele realiza essas transmissões com assiduidade – ao interpelar as pessoas, Rafael refere a si mesmo como “super famoso” –, as pessoas que comentam no ‘chat’ fazem constantes referências a situações anteriores, como um instante em que o ‘youtuber’ foi assaltado ao vivo. Qual o interesse do público por esse tipo de transmissão?

“A novela é uma ferramenta de transformação social”, lemos num folheto. Será que ainda procede?

Dirigido pelo mesmo realizador da ótima comédia “TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva” (2017), “A Vilã das Nove” (2024) conta a história de uma preparadora vocal chamada Roberta (Karina Teles, ótima como sempre) que, durante um passeio num aquário público com a sua filha Nara (Laura Pessoa), é chamada de Eugênia, por uma mulher que alega desconhecer. Ao ajudar um ator pernambucano (vivido por Rodrigo Garcia, que parece compartilhar um dilema que aconteceu consigo) a perder o seu sotaque característico, ela é convidada para a festa de lançamento de uma telenovela chamada “A Má Mãe”, e fica espantada ao acompanhar o enredo da mesma…

Divulgadores científicos mostram-se ignorantes em relação à religião

Há uma proliferação de influenciadores e divulgadores científicos brasileiros que estão numa cruzada contra aquilo que consideram práticas pseudocientíficas e também contra práticas religiosas supostamente danosas. Estes influenciadores tendem a ser extremamente pueris quando tratam da religião.

A cada novo festival, a repetição do mantra: “curta-metragem também é filme – e muito, muito bom”!

Em suas listas de final de ano, alguns críticos chegam a estabelecer categorias distintas para a divulgação dos filmes favoritos, de modo que os curtas-metragens são elencados separadamente, o que contribui para a manutenção do estigma que estas produções ainda enfrentam por parte do grande público: quantos filmes de curta-metragem (ou seja, até trinta minutos de duração), tu já viste numa sessão comercial de cinema?

“Liberem os homens e mulheres que existem dentro de vocês”: da importância de filmar a realidade e revelar as estrelas do dia a dia…

O documentário “Madeleine à Paris” (2024, de Liliane Mutti) documenta o cotidiano de Roberto Chaves, um dançarino baiano que migrou para a França há mais de trinta anos e, lá, organizou a versão internacional de uma tradição do sincretismo religioso brasileiro, que é a lavagem das escadarias de igrejas católicas, por adeptos do candomblé. Orgulhoso de seus traços quase andróginos, Roberto conta histórias de sua vida, como a primeira paixão por uma mulher e que seu pai era obcecado por sexo. Mas o que está em destaque é a organização da lavagem supramencionada de uma igreja.

Se o dissenso é tão importante, por que a dificuldade em aceitar críticas divergentes? [Ou: quem recebe um prêmio, nem sempre é o melhor em competição!]

Abordamos o caráter metonímico de um importante festival local, o CURTA-SE, Festival Íbero-Americano de Cinema de Sergipe, que, em sua vigésima terceira edição, ocorrida entre os dias 13 e 15 de janeiro de 2025, movimentou a cinefilia do menor Estado do Brasil. Não obstante a exibição de filmes interessantes, o anúncio da premiação, na derradeira noite do evento, deixou alguns espectadores frustrados, no sentido de que os seus favoritos não foram laureados, o que, mais uma vez, acontece: premiações levam em consideração critérios subjetivos – e, tal como acontece no Oscar, no Festival de Cannes ou em qualquer mostra artística, a lista de premiados traz consigo algumas reações revoltosas, principalmente quando os prediletos são menosprezados. Diferentemente da lógica esportiva, nesse tipo de situação, os critérios são bastante complicados…

“My English is not good. But my soul is better”: alguns comentários sobre a premiação do Globo de Ouro, em 2025…

A frase aspeada, neste título, foi pronunciada pela atriz brasileira Fernanda Montenegro, em 24 de janeiro de 1999, quando ela manifestou o seu contentamento pelo Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, entregue ao já clássico “Central do Brasil” (1998, de Walter Salles). Mais de vinte e cinco anos depois, na mesma premiação, Fernanda Torres, filha da referida personalidade, recebe, na noite de 05 de janeiro de 2025, o prêmio de Melhor Atriz Dramática pelo filme “Ainda Estou Aqui” (2024, de Walter Salles). O diretor é o mesmo, em ambos os longas-metragens, o que chama a atenção para uma questão referente à influência de determinados cineastas em premiações internacionais.

Sobre a importância de averiguar as benesses da literatura ‘pop’ [4/4] e a safra atual de filmes brasileiros: “tu sabes me dizer onde fica este endereço?”

Aproveitamos esta deixa para finalizar a nossa série de artigos sobre a quadrilogia de filmes baseada nas novelas reunidas no livro “Um Ano Inesquecível”, conforme iniciado aqui: baseado em “Amor de Carnaval”, da carioca Thalita Rebouças, “Um Ano Inesquecível: Verão” (2023, de Cris D’Amato), tanto quanto os demais títulos da cinessérie, efetiva mudanças consideráveis na adaptação. Neste caso específico, elas são mui alvissareiras, no sentido de que o texto original é o menos interessante da coletânea. O filme, por sua vez, é divertido na maneira como nos faz torcer por Inha (Lívia Inhudes), a filha de um político conservador de cidade de interior…