Em quase todos os países, o Dia dos Namorados é comemorado em 14 de fevereiro, quando é celebrado o martírio de um bispo católico, São Valentim, assassinado pela própria Igreja por celebrar casamentos às escondidas. No Brasil, entretanto, outra data foi escolhida: 12 de junho, a véspera do dia de Santo Antônio, “o santo casamenteiro”.

O interesse para o estabelecimento dessas datas comemorativas, obviamente, é comercial, em razão de haver a necessidade implícita de presentear os apaixonados. E, como é esperado, tanto na primeira data como na segunda, as medias sociais ficam inundadas de declarações amorosas, casais compartilham fotos românticas, as aparências relacionais afloram, em detrimento das essências problemáticas do cotidiano. Outrossim, alguns sentimentos ruins afloram: no Dia dos Namorados, percebemos também muita intriga, inveja e ciúme…

No contexto hodierno, demarcado pela ascensão da extrema-direita em muitos ambientes, essa comemoração possui um revés mui desagradável: a manifestação de ódios, sobretudo de caráter homofóbico. Em junho, celebra-se também o mês do Orgulho Homossexual, progressivamente expandido para várias siglas acolhedoras de vontades afetivas suprimidas pelos preconceitos de outrem. Por mais elementar que seja, o ato de amar ainda é considerado ofensivo por muitas pessoas, principalmente quando relacionadas a enviesadas tradições institucionais.

Dito isso, urge recomendarmos um filme romeno que aborda tais questões através de um necessário filtro político, evidenciando que tudo o que fazemos – até mesmo na esfera privada – possui repercussões públicas, podendo desencadear violências e agressões: dirigido pelo estreante Eugen Jebeleanu, Câmp de Maci [2020, traduzido internacionalmente como “Poppy Field” (“Campo de Papoulas”)] traz à tona reflexões morais que ultrapassam a identificação imediata com as causas homossexuais. Fala sobre um tipo de repressão que, a partir do fingimento “corretivo”, destroça toda a sociedade.

A fim de que o impacto discursivo do filme seja mais efetivo, convém não revelar muitos detalhes acerca do que é desvendado tramaticamente. Entretanto, a fim de exortar os leitores desta coluna a descobrirem este ótimo produto cinematográfico, algumas considerações genéricas serão abordadas: o protagonista chama-se Cristi (Conrad Mericoffer) e é policial. Na primeira sequência, ele está recebendo um namorado estrangeiro, que não compreende o idioma romeno e, como tal, comunica-se em inglês. Logo descobrimos que este rapaz, de nome Hadi (Radouan Leflahi), é muçulmano e, portanto, não pode ingerir os alimentos à base de carne suína trazidos por Catalina (Cendana Trifan), irmã de Cristi. Há uma discussão familiar logo no início. Conflitos muito mais devastadores ocorrerão a partir daí…

Após convencer Hadi a ficar em casa enquanto ele vai para o seu trabalho, Cristi e seus colegas de corporação são intimados para um serviço inaudito: ajudar a dispersar e identificar manifestantes e clientes que encontravam-se num cinema onde acontecia um protesto religioso. Fanáticos moralistas – perdão pelo pleonasmo – erigem-se contra a exibição de um filme onde havia uma cena de sexo entre mulheres. Não demorará para que o policial complique-se pessoalmente a partir de reações inflamadas contra algumas pessoas com quem interage nesse protesto. Mais não se pode falar (um dos grandes trunfos deste enredo é a acurácia de seus diálogos): vejam o filme!

A roteirista Ioana Moraru toma como ponto de partida um episódio real para obrigar o espectador a posicionar-se quanto ao cabedal de hipocrisias que desfilam na tela. Conforme é esperado, os comportamentos preconceituosos dos personagens pouco a pouco revelam mentiras e desentendimentos provocados pela incapacidade de respeitar os anseios alheios. Junta-se a isso o fato de a Romênia ser um país marcado pelos traumas ditatoriais, neste caso sob um espectro comunista. Mas o recado que o filme transmite é universal: vide as similaridades entre o que é apresentado e o que ocorre atualmente no Brasil!

Confirmando a excelente fase do cinema romeno contemporâneo – para citar apenas dois títulos, recomendamos o ótimo drama existencial “Malmkrog” (2020, de Cristi Puiu) e o petardo anarquista “Bad Luck Banging or Loony Porn” (2021, de Radu Jude), ambos premiados em edições recentes do Festival Internacional de Cinema de Berlim –, “Poppy Field” convoca-nos, enquanto espectadores e amantes, a um questionamento básico: será que, ao assistirmos comodamente aos linchamentos morais, não estaríamos compactuando, involuntária ou subconscientemente, com esse tipo de infração? Importante chamar atenção para o modo como reagimos aos frequentes “cancelamentos virtuais”: será que assumimos em nós mesmos aquilo que condenamos tão veementemente quando deparamo-nos com notícias criminais referentes aos pecados de outras pessoas? Eis o atestado de urgência atrelado ao filme. Continuaremos com essa discussão? Tu és um marxista-sexual?”. Pelo sim, pelo não, esta é uma autocrítica!

Wesley Pereira de Castro.

Nota: Este artigo tem por título original Como ele pode masturbar-se vendo um filme lésbico, se ele é homossexual, ou: a quem serve a incompreensão dos desejos (alheios)?” tendo sido adaptado por motivos editoriais, a fim de garantir o cumprimento do Artigo X do estatuto editorial deste jornal e cumprir a legislação aplicável nos termos nº 1 do artigo 17º da Lei de Imprensa da República Portuguesa. 

 

 

 

 

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