Sobre um quê de brasilidade: “eu não entendo como um cristão percorre léguas e léguas com o bico fechado”…

Sobre um quê de brasilidade: “eu não entendo como um cristão percorre léguas e léguas com o bico fechado”…

Às vezes, quando lemos as principais notícias publicadas sobre o Brasil, imaginamos que os habitantes desse país sentem vergonha do agendamento jornalístico concernente aos atos ignóbeis de seu presidente: enquanto milhares de pessoas seguem perdendo diariamente as suas vidas por causa do CoronaVírus, há quem ouse sair às ruas em defesa de governante genocida e malévolo. Entretanto, por mais que este político mui reprovável tenha recebido a maior parte dos votos úteis quando foi eleito, precisamos crer que seus eleitores são exceções, e não as regras nacionais…

Quando pensamos nas artes brasileiras, o orgulho nacional reinstala-se: a música produzida neste país é mundialmente conhecida e sua literatura e cinema também possui inúmeros representantes egrégios. Falaremos sobre as duas últimas categorias, a partir da análise de uma eficiente adaptação cinematográfica para um conhecido romance local, “Inocência”, publicado em 1872 pelo Visconde de Taunay [1843-1899].

A despeito de seu título, que faz menção a uma rapariga que passa o tempo quase inteiro numa cama – inicialmente, por causa de uma febre; em seguida, devido a uma paixonite – os verdadeiros protagonistas do livro são os homens que tentam conservá-la enquanto posse: seu pai, Martinho Pereira, e o rapaz por quem ela apaixona-se, Cirino.

Dividido em trinta capítulos mais um epílogo, este romance serve como interessante análise de época sobre as diferenças comportamentais entre cavalheiros provenientes de regiões diversas, que, por sua vez, estranham o temperamento folgazão de um pesquisador germânico, o naturalista Guilherme Tembel Meyer, que chega ao lugar onde estão estes personagens, em busca de insetos. Ao longo de metade dos capítulos, presume-se que Meyer esteja assediando Inocência, quando, em verdade, ele apenas a trata com a cortesia típica das cidades européias, enquanto a ação transcorre numa zona rústica da então província mato-grossense.

O primeiro capítulo do livro, “O sertão e o sertanejo”, descreve com riqueza de detalhes a residência erma de Martinho Pereira, que, por sentir-se isolado, desenvolve uma loquacidade prontamente identificável. Tanto que, no primeiro encontro com Cirino, isso é tema de diálogo, justificando o diálogo que intitula este artigo. Martinho provém do Estado de Minas Gerais, enquanto Cirino nasceu em São Paulo. Ao descobrir que o mais jovem era um boticário que atuava como médico, ele considera esta a oportunidade ideal para hospedá-lo em sua casa, visto que sua filha Inocência padecia de uma febre duradoura. E, obviamente, Cirino apaixonar-se-á por ela…

Antes que este idílio amoroso desencadeie uma conclusão esperadamente trágica – o que é anunciado nas epígrafes de cada capítulo, que contém citações shakespeareanas e congêneres românticos – há um valioso cotejo de caracteres, visto que, além dos dois protagonistas, o alemão chega acompanhado de um assistente carioca, cada qual com seus modos próprios de encarar as relações interpessoais. E, como ainda estamos nos meados do século XIX, quando a escravidão do povo negro era autorizada no Brasil, há dois escravos em destaque: a servil e diligente Maria Conga e um anão surdo-mudo e enciumado, Tico. Prepara-se, assim, o terreno para um estilo literário conhecido como regionalismo.

A fim de que não estraguemos o compêndio de descobertas que provém de um livro tão curto (cerca de cento e cinquenta páginas, apenas), falemos agora sobre a adaptação cinematográfica levada a cabo por Walter Lima Jr., em 1983, com base num roteiro do também cineasta Lima Barreto [1906-1982], cuja duração estendida – quase duas horas – demonstra o quão elaborado foi o tratamento sinóptico, a fim de que o entrecho pareça ainda mais romântico do que é efetivamente o livro. No filme, Cirino é vivido por Edson Celulari, enquanto Inocência é interpretada pela estreante Fernanda Torres. Já Martinho Pereira é vivificado por Sebastião Vasconcelos, que, por este papel, recebeu o Candango de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Cinema de Brasília, onde o filme também recebeu a láurea de Melhor Diretor.

A despeito de uma outra condensação tramática, sobretudo no quartel final, o filme “Inocência” é bastante fiel ao livro homônimo. Como indicativo de diferença, notamos os passeios do casal ao luar, ao som da ótima trilha musical de Wagner Tiso. Numa breve seqüência, os seios de Inocência são entrevistos, enfatizando uma sensualidade mui característica do Brasil, aqui sob o jugo de uma criticável (e também criticada) objetificação feminina. No desfecho, a mesma inevitabilidade da tragédia, sob o complemento técnico de elaborados efeitos visuais, como o brilho azulado da borboleta que receberia o nome de Papilio Innocentia, em homenagem à garota. A direção fotográfica de Pedro Farkas merece elogios, portanto!

Tanto o filme quanto o livro, muito assemelhados em suas intenções observacionais sobre a multiplicidade de costumes existentes no Brasil, justificam o orgulho que os brasileiros sentem de terem nascido no país em pauta. Em termos intelectuais, esta nação é mundialmente conhecida, ainda que insuficientemente valorizada, por causa da chaga descrita como subdesenvolvimentismo. Porém, o apanágio que, no epílogo do romance, é destinado ao entomólogo Meyer pode ser direcionado ao escritor do livro, ao diretor do filme e a quem está lendo esta coluna: “vê-se, pois, que também os sábios possuem coração tangível e podem, por vezes, usar da ciência como meio de demonstrar impressões sentimentais de que muitos não os julgam suscetíveis”. O Brasil é muito mais do que aquilo que lemos nas más notícias!

Wesley Pereira de Castro.

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