Senzala 2.0: Ancestralidade violada, falsa simetria e saúde mental do negro no Big Brother Brasil XXI

Senzala 2.0: Ancestralidade violada, falsa simetria e saúde mental do negro no Big Brother Brasil XXI

Não vou estranhar se esse artigo soar como “vista grossa”, (a popular “passada de pano”), até porque, quem se reconhece corajoso (a) o suficiente para viver a ciência criminal, sabe que popularidade não vai ser uma das bênçãos trazidas dos céus.

Acontece que alguém precisa apontar o farol e, embora não seja o único e muito menos meu lugar de fala, acredito que posso contribuir subindo nos ombros dos pensadores e pensadoras negras sobre o tema.

Carol Conká e outros artistas negros estão confinados na edição XXI do Big Brother Brasil, aquele reality onde várias pessoas estão confinadas numa casa, fazendo coisas normais e a gente que de normal não tem nada (até porque pagar pra eliminar um participante) decide quem é o mais normal ali.

Mas deixemos os “entretantos” e partamos para os “finalmentes”.

Num Brasil onde é fácil idolatrar o ator Rodrigo Hilbert a cada origami que ele faz, é mais fácil ainda cancelar um negro (a) a cada comportamento inaceitável destes (as).

E é aqui que precisamos revisitar a História. Aquela, dos livros na sétima série. Há uma narrativa oficializada de desconstrução e fragmentação do povo negro, que só entendemos (e olhe lá), quando acessamos outros recursos educacionais. Mas quem não se lembra que os livros escolares, ao falar sobre a escravidão, começam o texto com algo mais ou menos assim: “os negros que vieram da África…bla bla bla…miscigenação…bla bla bla…”.

Não percebíamos (e ouso a arriscar que muito professores também não), que numa simples frase, estavam encucando na cabeça de crianças e adolescentes que toda uma população negra, deliberadamente, subiu ao convés de um cruzeiro regada à agua de coco e Martini e pensou: “cansei de correr de guepardos, vou para o Brasil levar chibatadas e ser estuprada”.

Outro erro é considerar a África um país, simplesmente dizimando numa canetada milhares de crenças, manifestações culturais, etnias, dialetos e encerrando tudo na palavra “África”.

Mas qual a relação disso tudo com o confinamento do programa global? Você vai mesmo colocar arrogância, destempero, falsidade e outros vícios sociais no colo da escravidão? Aí já é demais!

Vou, e lide com isso.

Aliás, eu não. Os dados. E começo trazendo uma pesquisa da USP:

Racismo estrutural é negligenciado por psicólogos não-negros em atendimentos

Maiara Benedito, mestranda da USP, foi a campo para verificar como os profissionais não-negros da Psicologia lidavam com o racismo em pacientes negros (as), e o resultado choveu no molhado:

Um dos principais resultados de sua pesquisa foi entender os impactos da negligência do racismo na saúde mental de pacientes. Ela diz que existem muitos reflexos nas pessoas negras, como o de se sentirem insuficientes e culpados, vindos dessa não integração plena em uma sociedade que as violenta e as segrega. Explica que “tudo isso afirma que o racismo tem um peso na saúde mental das pessoas negras imensurável. Quando negligenciado, elas tomam as questões raciais de uma forma mais individualizada, que as fazem pensar que são o problema. Perceber que metade da população brasileira se sente assim também é um processo muito difícil de se alcançar sozinho”.

            A questão é muito mais profunda e remota do que o simplismo de achar que o comportamento da Carol Conká é pontual e deliberado. Sua (e dos outros participantes negros) ancestralidade e consequente desdobramento negativo deles, estão em suas ações e omissões. Imaginemos isso em 54% da população brasileira e teremos e dimensão real do problema.  Negligenciar essa análise e olhar no raso.

            Precisamos também compreender que a fragmentação ou a substituição da luta racial pela mera luta de classe, não foi vista apenas nas escolas, mas no cinema, como aponta Santiago Júnior (2012), ao analisar a crítica de Cláudio Souza ao filme dos anos 1960, Ganga Zumba, Rei dos Palmares, que narra a história de Ganga que fugira do engenho e chegara ao Quilombo dos Palmares.

O crítico apontou a ausência do racismo uma vez que não era a presença dos negros, na estória, o tema central, mas a liberdade. Ao mesmo tempo, afirmou que a história do Brasil não poderia ser racista com seus “capítulos africanos”. A resistência à opressão e a luta do negro não eram temas em si, mas um reflexo da busca universal pela “liberdade de subsistir como homem”. O negro, como raça, fora apagado nesse discurso, e a escravidão tornara-se um ato de privação do homem pelo homem, não do branco pelo negro.

            O confinamento, embora não seja um retrato fiel à realidade, até por ser editado, nos dá uma noção do que a ancestralidade distorcida e violentada pode fazer com a mentalidade negra. Colocados isoladamente, podemos detectar suas diferenças e modo de reagir às situações. Mas a escravidão não foi um ato isolado, portanto, suas sequelas também não são.

            Reforço: provoco no sentido de olharmos a situação de forma mais ampla, não como um salvo-conduto para atitudes que se valem desse ou daquele discurso, mas é inegável, pelos estudos levantados, que há claramente uma falsa simetria entre as atitudes de pessoas não-negras e a das negras, com relação a “comportamento inaceitável”.

            Os traumas da ancestralidade violentada, retirada de sua terra, segregada, roubada do seu chão, precisam ser considerados quando colocamos pessoas de diferentes raças, crenças, valores e estratos num determinado experimento social, como é o caso do Big Brother Brasil.

            Como transtorno psíquico fruto da escravidão, temos o banzo, uma forma de depressão que dizimou milhares de vidas negras no período escravocrata, como cita Freyre (1933), em sua obra clássica Casa Grande & Senzala:

Mas não foi toda de alegria a vida dos negros, escravos dos ioôs e das iaiás brancas. Houve os que se suicidaram comendo terra, enforcando-se, envenenando- se com ervas e potagens dos mandingueiros. O banzo deu cabo de muitos. O banzo – a saudade da África. Houve os que de tão banzeiros ficaram lesos, idiotas. Não morreram: mas ficaram penando. E sem achar gosto na vida normal – entregando- se a excessos, abusando da aguardente, da maconha, masturbando-se. (FREYRE, 1933: 464).

            Confinar pessoas negras, ainda que em situação totalmente diferente das vividas em seu passado, traz à tona suas memórias, o que em certa medida justifica atitudes vistas como disfuncionais socialmente.

            Santos (2014) sedimenta que os traumas vividos pela pessoa negra acarretam na negação de suas origens, seus valores e pátria, nascendo um desejo de “ser branca”, porque ela vê na branquitude, o distanciamento dessa dor.

            Ao se analisar sob qualquer perspectiva (seja antropológica, jurídica ou psicológica) as ações e omissões da pequena amostragem negra em confinamento direcionado para entretenimento, precisa se considerar a isonomia da ancestralidade desse povo. Quanto mais vulnerável o estrato e mais exposto ao conflito, mais ele (o estrato) usará dos recursos que o fizeram sobreviver ao longo da História para continuar existindo.

CONSIDERAÇÕES

            Embora desnecessário, reitero: a ideia do presente artigo é considerarmos o experimento social de confinamento para entretenimento com uma visão do todo para as partes. Isoladamente, temos um determinado número de pessoas jogando para atrair atenção do público e ganharem um alto valor em dinheiro. No coletivo, temos recortes totalmente diferentes, onde os negros não estão agindo em nada de diferente do que os não-negros agem diariamente.

            Primero precisamos lembrar que ninguém tem a obrigação de “militar certo” ou “errado”. A pessoa é única em suas dores, alegrias e lutas, ela não é uma entidade. Por último, mesmo que a pessoa decida usar sua bandeira ideológica como peça de um jogo, ela não invalida qualquer luta exatamente por não ser o cetro da verdade dessa bandeira.

            Carol Conká não pode ser analisada apenas como participante de um reality show, ela traz um repertório de violência explícita ou velada em sua vivência. Ela é sim, isoladamente, uma jogadora, mas sua bagagem emocional e intelectual é de raízes recentes coletivas e estratificadas onde a única maneira de sobreviver era enfrentando a vida com aspereza.

Não dá para comparar um comportamento disfuncional de uma pessoa negra com uma não negra, a não ser que essa última tenha sido coletivamente e por quatro séculos violada em toda sua existência. E nesse caso, é de ajuda terapêutica que estamos falando, não de uma senzala 2.0.   

           

REFERÊNCIAS

NASSIF, T. 2019. Racismo estrutural é negligenciado por psicólogos não-negros em atendimentos. Disponível em: https://www.ip.usp.br/site/noticia/racismo-estrutural-e-negligenciado-por-psicologos-nao-negros-em-atendimentos/. Acesso em 17.fev.2021

SANTIAGO JUNIOR, F.C. F. Imagem, raça e humilhação no espelho negro da nação: cultura visual, política e “pensamento negro” brasileiro durante a ditadura militar. Rio Grande do Norte: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 17 p., 2012.

SANTOS, M. R. Histórias de reencontro: ancestralidade, pertencimento e enraizamento na descoberta de ser negra. [Tese}. São Paulo: Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia, 117 p. 2014.

Crédito na Imagem: #ancestralidade, #escravidão

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