Leigos com leigos, clérigos com clérigos, ou Lei com lei, querer com querer, ou, simplesmente Lé com lé, cré com cré.

Eu tenho estado calado, primeiro porque existe dicionário, segundo porque quem fala e escreve em público tem por obrigação saber o exato significado do que fala ou escreve, não deveria ser eu a alertá-los, e por fim porque, como toda febre acaba por passar, este modismo, que terá menos de uma década, iria, irá passar, mas parece que não.

Cada vez é maior o número de gente [e gente com responsabilidade para o não fazer] emprega mal o termo resiliência, dando-lhe conotações e sentidos absolutamente despropositados, acepções erróneas, porque tendo entrado na moda, agora tudo é resiliente, ou o deve ser. Portanto como a febre não passa e, ademais, se agiganta, vamos recorrer à mais básica das atitudes, consultar o dicionário:

        – Resistência – Força. Defesa contar o ataque, Oposição.

        – Resiliência – Propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer deformação. Capacidade de superar, de recuperar de adversidade.

Ora, são coisas muito distintas, como se vê, e que não devem ser confundidas, prefiro ser mil vezes resistente que resiliente, mas isso é uma questão pessoal, porém quem resiste não se deixa deformar, e se deformado for, morrerá resistindo à deformação. Já o resiliente é o que tem jogo de cintura como se diz no Brasil. São duas realidades diversas as quais não se deve confundir uma com a outra, mas agora, além de as confundir, as pessoas as embaralham e empregam as ideias alternadamente sem nenhuma lógica ou discriminação inteligente, juntando tudo. Fazem-no muita vez porque politicamente é melhor, uma vez que a resiliência é muito mais digerível que a resistência. 

O que afinal levou-me a escrever sobre o assunto, é que o ‘Febeapa’ como diria Sérgio Porto, que agora é um ‘Febeamu’ Festival de besteiras que assola o mundo, ultrapassou os limites do aceitável, indo a tolice do mal emprego da palavra resiliência imiscuir-se em documentos oficiais de toda ordem.Preferivelmente resiliência é empregada, porque diversamente do caso da resistência, não dá margem a que ninguém proteste questionando: ‘Até quando esperam que possamos resistir?‘ Enquanto ficou-se por documentos de ministérios (em vários países) menos avisados, tolerei, mas quando a União Europeia, por via de seu Parlamento, empregar o termo desbragadamente em sua documentação estrutural, como ainda agora o fez num seu regulamento intitulado Mecanismo de recuperação e resiliência, o que não tem nenhuma lógica como ideia, porque um mecanismo não pode ser de resiliência, poderá empregar resiliência, tudo bem, mas o que vá promover recuperação, não promoverá uma capacidade, ou uma propriedade, promoverá, isto sim, a defesa, a oposição a tudo que se lhe opor, como mecanismo que é, o que demonstra claramente o mau emprego do termo, a confusão estúpida de ceder aos modismos, como se por eles contaminados.

Eu acho bom que certas palavras entrem na moda de quando em vez, é salutar, cria vagas de expressividade idiomática, sobretudo quando são termos menos usuais, mas que o façam com certeza, e não com uso torto e abusivo como se vem verificando com a palavra resiliência nesses nossos dias.  

   

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