Desde sempre que o ser humano receia o desconhecido…

Ainda que este receio seja acompanhado por um certo deslumbramento desafiante – não há outra forma de explicarmos os Descobrimentos Portugueses e a Viagem à Lua; nem sempre, nem em todas situações, isso se verifica.

Quando o desconhecido é exterior a nós, fazendo parte daquilo que nos rodeia enquanto mundo material, há um fascínio que nos empurra para ir descobrir esse desconhecido que tanto receamos; queremos conhecê-lo, apreendê-lo, torná-lo parte de nós, usá-lo como escada para a evolução. No entanto, quando o desconhecido é interior, quando faz parte das nossas crenças e das crenças dos outros, quando existe no mundo subentendido dos sentimentos e das emoções, quando não entendemos porquê; o nosso receio não é desafiado: ganha raízes e torna-se um obstáculo a essa evolução…

Não sei já teriam pensado nisto desta maneira…

Curioso; não?

Mais uma vez, o materialismo subjuga a nossa natureza espiritual, pois, enquanto o desconhecido material no atrai e nos faz procurar e querer saber mais, o desconhecido imaterial faz-nos fugir da forma mais cobarde possível; pela ignorância; seja ela o acto de ignorar alguma coisa ou o acto de, não se conhecendo, não se querer conhecer…

E é neste nosso traço que se esconde a origem de toda a espécie de sentimentos negativos que se projectam no mundo sob as mais diversas formas de fundamentalismos.

É claro que – dito assim – parece simplista. E é, porque há outros factores que pesam naquele tipo de atitudes; como é o caso da educação que se teve – em casa, entenda-se -, da cultura que acompanhou o desenvolvimento dos ideais de cada um, das experiencias que moldaram a personalidade dos indivíduos e, acima de tudo, do conceito de liberdade que cada um tem. Mas há uma verdade inegável: se, perante tudo isto, o individuo se questionar, deixar de aceitar as coisas como factos consumados e desistir de ignorar – e rejeitar – tudo aquilo que não entende imediatamente, criará espaço para a descoberta, para a curiosidade, para a possibilidade de mudar e – quiçá – deixar de recear esse desconhecido.

Se a existência de um mar imenso, e ignoto, povoado de histórias de monstros enormes escondidos no profundo oceano não nos travou e, pelo contrário, nos impeliu, porque razão o facto de simplesmente alguém ser, pensar, sentir, gostar, acreditar, amar de uma forma diferente da nossa, nos faz agir com asco, horror, nojo e ódio?

Não esperem que eu saiba a resposta… Não sei. Ninguém sabe; acho eu… Nem quem se permite subjugar por esses sentimentos escuros que habitam a noite da alma, saberá explicar; sabemos bem como os argumentos usados são vazios de sentido e são suportados por pilares de ignorância secular, tão frágeis cuja resistência desafia a própria física.

Será o medo?

O medo é um nível acima do receio e um abaixo do pânico…

Enquanto se receia, está-se no limbo, no campo da ignorância – quase – inconsciente das coisas que não se entendem. Pode-se lá ficar uma vida inteira, sem maior agravo, vivendo a vidinha sem aborrecer ninguém e esperando que ninguém aborreça. Todavia, por vezes, é-se maçado por essas coisas que não se entendem e as pessoas assustam-se; e é aí que nasce o medo. O medo retira-as do limbo e a vontade de ignorar transforma-se numa força que se considera de acção, de defesa, passando a ignorar de propósito o desconhecimento e desconsiderando tudo aquilo que não se enquadra num determinado campo de saberes; e isso pode ser muito…

Não sei… Talvez seja o medo, com fluxos de pânico, que ainda vai sustentando esses pilares de ignorância secular; tão frágeis que desafiam a própria física.

Seja como for, quando ouço comentários – com os quais concordo inteiramente – sobre como é que é possível que em pleno Séc. XXI ainda se pense e se aja de determinada maneira perante as nossas irmãs e irmãos, pergunto-me sempre isto:

Seremos só humanos, imperfeitos, incapacitados de fazer melhor; ou será que nos fomos tornando incapazes de pensar pela própria cabeça e, através desse acto, deixámos de tentar ser, todos os dias, uma versão melhor de nós próprios?

 

Imagem de Volker Lekies por Pixabay 

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