O sudestino do “Porta dos Fundos” e a invenção do Nordeste

O sudestino do “Porta dos Fundos” e a invenção do Nordeste

Há cerca de duas semanas o grupo humorístico Porta dos Fundos lançou um vídeo chamado “Sudestino”, satirizando as generalizações e estereótipos por meio dos quais as pessoas do Nordeste são vistas e retratadas, principalmente pelo povo do Sul e Sudeste. A sacada da esquete foi justamente fazer uma inversão: um paulistano recém-chegado em Recife é recebido por dois moradores locais, que logo começam a usar e abusar de generalizações, como se mineiro, carioca, paulista e até paranaenses e gaúchos fossem tudo a mesma coisa.

A graça está justamente na inversão. Os moradores do Sul e Sudeste são os que sofrem estereótipos na esquete, o que faz com que estes, por poucos momentos, se coloquem e se sintam no lugar das pessoas que vivem nos estados nordestinos. Temos aqui um exemplo de carnavalização bakhtiniana, no sentido de uma quebra da ordem social com inversão de papéis, criando uma realidade paralela humorística e paródica [1]. Obviamente, o vídeo faz rir e também traz certa reflexão e crítica social, assim como tantos exemplos que as produções humorísticas nos oferecem.

O roteirista do vídeo, o potiguar Edu Araújo, explica que a ideia da esquete foi inspirada no sentimento que ele próprio carrega: “Quando entrei no Porta, a Márcia Zanelatto, que era chefe da sala de roteiro, me disse: onde te dói? Acesse sua dor. O humor vem disso. A gente pega um pouco da raiva que sente do mundo e joga nele. Ele é uma crônica. A esquete nasceu justamente desse incômodo com a naturalização dessa generalização.”, conta Edu [2].

O roteirista cita como uma de suas referências para e a esquete o livro “A invenção do Nordeste e outras artes”, do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. Na pesquisa, o historiador analisa como a visão estereotipada e generalizada do Nordeste foi criada e ganhou o Brasil. Apesar de ter seu trabalho servindo como fonte de inspiração, Durval fez críticas ao vídeo, pois reforçaria as imagens de “nordestino ignorante” e do paulista como detentor da intelectualidade [3].

Críticas à parte, o vídeo viralizou e dividiu opiniões. Teve gente que se reconheceu na piada, admitindo usar generalizações em relação àqueles que vêm da região Nordeste. E, claro, teve também quem não gostou da piada. O filósofo Henry Bugalho faz uma análise interessante, do vídeo, da reação provocada por ele e de como a mídia e a industria cultural costumam consolidar estereótipos [4].

Vale, entretanto, focarmos no Nordeste, em busca das origens desse imaginário que predomina no Brasil a respeito da região, que inclui signos como seca e Caatinga, além de generalizações de sotaques e expressões. Essa é nossa intenção neste artigo e, para isso, o trabalho de Durval Muniz de Albuquerque Jr. é a nossa base.

A invenção do Nordeste

A ideia de Nordeste não existia até o início do século 20. Ela não figurou no Brasil Colônia ou no Brasil Império [5]. Ao longo da década de 1920, no entanto, esse conceito começa a ser desenvolvido e a ganhar um conjunto de sentidos e significados, por conta de intelectuais e políticos, sujeitos a quem o conceito de Nordeste, enquanto recorte espacial e cultural, interessava por razões políticas e econômicas. A elite nordestina estava em declínio, então viu a necessidade de demarcar uma região do país para sedimentar seu domínio. Uma forma de entrincheiramento político e econômico. O Nordeste surgiu então como um modo de se criar um nicho.

O conceito unificado de Nordeste e do nordestino surge quando essas elites, ligadas ao açúcar, pecuária e algodão, perdem a nação para as elites do Centro-Sul. Isso vinha acontecendo por conta do processo de industrialização e expansão do capitalismo. A ideia de Nordeste, conforme explica o historiador, surge de forma reacionária e conservadora para se contrapor às transformações pelas quais o país passava com o fim da escravidão e a modernização capitalista [6].

Essa ideia de um Nordeste generalizado começa a ser gestada em Recife, com o movimento regionalista. Em 1924 é formado o Centro Regionalista do Nordeste, por Gilberto Freyre. De acordo com Durval, o livro “Nordeste”, de Freyre, é uma certidão de nascimento do Nordeste, em 1937. Outra obra importante é “O outro Nordeste”, patrocinado por Gilberto Freyre e escrito por Djacir Menezes, em 1938.

São essas elites que vão cercar o espaço que entendemos como Nordeste, dotando-o de símbolos que formam todo um imaginário generalizante, para exercer o domínio econômico, político e cultural sobre esse espaço. Este último domínio, o cultural, é o que vai veicular essa construção de Nordeste, difundindo todo o imaginário que se popularizaria. Alguns elementos de sua formação são aquelas primeiras coisas que pensamos quando pensamos no Nordeste: seca, Caatinga, semiárido, êxodo, retirada, cangaço, coronelismo, beato.

Só que dentro do recorte genérico de Nordeste enquadra-se toda uma diversidade cultural. Esse conflito entre diversidade e generalização é antigo e ocorre desde a “invenção do Nordeste”, lá pela década de 1920, o que, inicialmente, levou a alguns problemas e divergências entre correntes de representação. A intelectualidade pernambucana difundia o Nordeste litorâneo e da cana-de-açúcar. A intelectualidade cearense difundia o Nordeste interiorano e da seca. A segunda prevaleceu sobre a primeira por conta da seca, usada como argumento para as elites locais conseguirem verbas, obras e recursos. Portanto, do ponto de vista político e econômico, o Nordeste árido, das secas, era mais vantajoso.

Outro problema da generalização da ideia de Nordeste para abarcar tamanha diversidade é desvelado quando se vê que os nordestinos dos diversos estados se identificam uns com os outros e como nordestinos bem mais fora do Nordeste do que dentro. O conceito vai se enraizando na população a partir dos anos 30, por conta da migração. Fora do Nordeste, os nordestinos têm em comum principalmente o fato de serem trabalhadores pobres e terem vindo dessa região.

O vídeo do Porta dos Fundos faz uma crítica aos “sudestinos”, mas, conforme vimos, vale acrescentar que a generalização das sociedades e culturas da região Nordeste como algo de identidade única não foi criada pelo Sul ou Sudeste, mas pelas elites – intelectual, política e econômica – do próprio Nordeste. É um movimento de dentro para fora da região, não o contrário. Claro que isso serve como acréscimo, mas não invalida a brincadeira proposta pelo vídeo. Afinal, se a generalização e alguns estereótipos foram criados no próprio Nordeste, as sociedades do Sul e Sudeste trataram de repercutí-los e consolidá-los, carregá-los de preconceitos. Piadas como a do grupo humorístico servem para nos fazer pensar sobre o modo como agimos. E, claro, para nos fazer rir.

Referências:

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A Invenção do nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011.

[1]Conceito de carnavalização, segundo Mikhail Baktin: https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/carnavalizacao/

[2] [3] ‘Tratei o estereótipo com deboche’, diz autor de ‘Sudestino:

https://www.terra.com.br/diversao/tratei-o-estereotipo-com-deboche-diz-autor-de-sudestino,78cb5b6d777f96ec471a1e5bbab85949s1pjagl1.html

[4] Henry Bugalho analisa o vídeo do Porta dos Fundos:

[5] Entrevista com o historiador Durval Muniz de Albuquerque conferida ao Café Filosófico abordando seu livro, “A invenção do Nordeste”:

[6] A TV Afiada apresenta a primeira parte da entrevista especial com o professor Durval Muniz Albuquerque Júnior, autor do livro “A invenção do Nordeste e outras artes”:

Imagem de capa: autoria de ROGERIO de Paiva por Pixabay

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