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O negro na ciência e os buracos negros: você conhece John Michell?

O negro na ciência e os buracos negros: você conhece John Michell?

Há três anos, no dia 10 de abril de 2019, astrônomos apresentaram pela primeira vez a imagem de um buraco negro. O feito é considerado um marco na história da física e foi conseguido graças à alta tecnologia de telescópios capazes de captar a luz emitida pelo intenso calor provocado pelo movimento orbital: uma forma de disco em torno do buraco negro, como se fosse água em um ralo [1].

O êxito teve repercussão. Em meio a tantas notícias a respeito do feito, houve muitas referências a cientistas como Albert Einstein e Stephen Hawking. Ambos são dois dos principais físicos que vêm a nossa cabeça quando pensamos no tema. E com toda justiça, pois eles pesquisaram muito sobre buracos negros. Mas, no “lado escuro” da história e pouco referenciado está o astrônomo negro John Michell, que também merece uma menção honrosa. Seus estudos, no século 18, antes de Einstein, Hawking e etc., apontaram para a existência do que chamou de “estrelas escuras”, mais tarde rebatizadas como “buracos negros”.

Imagem de um buraco negro obtida em 2019

A ciência, assim como a arte, a política, a cultura e diversas áreas de expressão da nossa sociedade, não está isenta de assimilar e reproduzir preconceitos e valores. A história da ciência moderna, por exemplo, é uma história predominantemente eurocêntrica (também um tanto norte-americana), masculina e branca. Reconhecer isso não é, de modo algum, desprestigiar grandes nomes como Newton, Faraday ou Darwin, nem abrir mão das tentativas de objetividade dos métodos científicos, mas apenas reconhecer as forças sociopolíticas que ditam o jogo da ciência ao longo de sua história.

O Renascimento e o Iluminismo são fenômenos predominantemente europeus que influenciaram com algumas ideias o desenvolvimento do que hoje entendemos como ciência, mas essas ideias, em certa medida, foram discutidas anteriormente em outras partes do mundo. O etíope Zera Yacob defendia a primazia da racionalidade e que todos os seres humanos são iguais, mais de um século antes de Locke, Hume e Kant [2]. O ganês Anton Amo usou conceitos da filosofia alemã antes de ela ser registrada oficialmente, defendeu o sufrágio universal e o fim da escravidão antes dessas ideias ganharem corpo na Europa.

Cerca de mil anos antes de Darwin, um filósofo muçulmano que vivia no Iraque, conhecido como Al-Jahiz, escreveu um livro sobre como os animais mudam com o passar das gerações, de acordo com o ambiente, através de um processo que também chamou de seleção natural. Seu nome real era Abu Usman Amr Bahr Alkanani al-Basri. Seu apelido, Al-Jahiz, significa alguém com olhos esbugalhados [3].

Ao tratar dos buracos negros, a segunda versão da série Cosmos, de 2014, apresentada pelo astrofísico negro Neil deGrasse Tyson, faz uma menção honrosa a John Michell e suas “estrelas escuras” [4]. “John Michell é um dos maiores cientistas dos quais você provavelmente nunca ouviu falar”. Há ainda uma metáfora no modo como Cosmos fala sobre Michell: da mesma forma que não era possível ver um buraco negro (pelo menos não era até a produção daquele episódio, em 2014), o cientista negro John Michell também foi invisibilizado pela história da ciência. Por isso, o ator negro que interpreta Michell aparece brevemente e de costas (foto). Tyson, o apresentador, diz: “Se alguma vez foi pintado, o retrato não existe mais. [Michell] foi descrito por um conhecido como um homem baixo, de pele escura e gordo”. Um cientista de pele escura identifica estrelas escuras. Ambos são invisíveis. O primeiro, no tempo; as segundas, no espaço.

Os tempos estão mudando, mas eles não mudam sozinhos. Hoje, mais do que há três, quatro décadas, muito se discute representatividade e diversidade na sociedade em geral e também no campo científico. É preciso mobilização, esforço e compreensão das questões filosóficas, sociológicas e políticas que regem a ciência [5] e a sociedade para que se possa reivindicar maior inclusão. A diversidade é benéfica para a ciência. Ela amplia os pontos de vista, o que enriquece os debates.

O buraco negro se tornou visível nos últimos três anos. Quem sabe não é uma nova metáfora para mais visibilidade a cientistas negros, “estrelas escuras” que, apesar de não vistas, há muito estão por aí, contribuindo para o avanço científico, mas por vezes invisibilizados pela história da ciência.

Referências:

[1]
https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/10/astronomos-apresentam-a-primeira-imagem-de-um-buraco-negro-ja-registrada.ghtml

[2]
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/12/1945398-os-africanos-que-propuseram-ideias-do-iluminismo-antes-de-locke-e-kant.shtml

[3]
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-47577118?SThisFB&fbclid=IwAR0sqJGn3vtBx3fR4o-jeHynVE8jIaYglAMMmLX6S7pJKb4Uty5SoD_IIAs

[4]
https://vimeo.com/427571870

[5]
https://www.nexojornal.com.br/externo/2017/11/19/Por-que-a-filosofia-%C3%A9-t%C3%A3o-importante-no-ensino-da-ci%C3%AAncia?fbclid=IwAR2OPpvqpbi0Bg-t17O5fQHE_oeBLVbTWu7AVUYgkOxuxpgA__ZGzqPV0h0

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