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O mundo exposto: como entender a sociedade da transparência

O mundo exposto: como entender a sociedade da transparência

Tenho acompanhado os ensaios do filósofo sul coreano Byung-Chul Han. Fiz uma leitura atenta e prazerosa do seu livro “A Sociedade da Transparência”, que trato nesse artigo. Comecei a mergulhar no seu universo pelo livro “A Agonia de Eros” e depois fui para “Sociedade do Cansaço” e, por último, “No enxame – perspectivas do digital”. Han é, como todo filósofo, observador crítico e problematiza seu tempo. Pontua elementos que vêm transformando significativamente a sociedade e não apenas por causa da revolução digital.

Ele analisa, nesse livro, o que chama de ‘tempo transparente’, um tempo destituído de destino e de todo o conhecimento. Uma realidade desembaçada, sem mistério e negatividade que se torna pornográfica, ou seja, sem expressão e sentido. O dinheiro torna tudo comprável e a sociedade do consumo torna tudo “um inferno do igual”. Han é um grande crítico dessa busca por transparência, operacionalidade que destitui qualquer tipo de ambivalência. O autor cita o sociólogo Richard Sennett, para caracterizar a sociedade que necessita de papeis a serem executados em uma representação tão necessária para a vida pública. A sociedade positiva não admite sentimentos negativos. O amor, por exemplo, é domesticado e positivado como fórmula de consumo e conforto.

Na sociedade exposta, cada sujeito se torna seu próprio objeto de publicidade. O valor da exposição é a medida de tudo, “tudo é entregue, nu, sem segredo, à devoração imediata”. Todos os rituais são eliminados porque se tornam um obstáculo à aceleração dos ciclos de informação, da comunicação e da produção. Claro que as redes digitais servem de análise para essa aceleração e evidência narcísica. Han provoca ao dizer que, “as mídias sociais e os motores de busca personalizados criam na rede um espaço próximo absoluto, do qual o fora foi eliminado. É um espaço onde nos encontramos somente a nós mesmos e aos que se assemelham a nós. Não há qualquer negatividade que torne uma mudança possível. Esta proximidade não apresenta ao participante senão essas secções do mundo a seu gosto. Desse modo, desintegra a esfera pública, a consciência pública, crítica, e privatiza o mundo. A rede transforma-se numa esfera íntima, ou numa zona de bem-estar. A proximidade, da qual toda a distância do longe foi eliminada, é também uma forma de expressão da transparência.”

Nessa sociedade transparente, o consumo, por exemplo, vai muito além do valor do uso, simples aquisição de objetos ou experiências. O consumo deve ser visto como signo e utilizado como forma de distinção e visibilidade, já que a tônica da sociedade de consumo e da transparência é consumir para mostrar e obter, de certa forma, atenção dos círculos sociais próximos ou não. É necessário chamar a atenção, também, que esse consumo e a necessidade de publicização não são apenas materiais, mas também de ideias e valores. Uma prisão que necessita mostrar uma felicidade mensurável.

Portanto, a hiperconectividade e a hiperinformação não trazem mais luz e liberdade, muito pelo contrário, vivemos um outro tipo de panóptico (apresentado pelo filósofo francês Michel Foucault, como os mecanismos de vigilância e controle que levam a sociedade a um profundo medo de se afastar das normas ou disciplinas estabelecidas). Nenhum muro separa dentro e fora mas, a vigilância se torna diferenciada. Não mais há um “ataque à liberdade”, hoje voluntariamente cada um se entrega ao olhar panóptico. Somos algozes e vítimas. É a dialética do presente.

Referência:

HAN, Byung-Chul. Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.

SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1974.

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