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O Complexo de Deus

O Complexo de Deus

Em Novembro de 2009 Lloyd Blankfein, Presidente da Goldman Sachs, dirigiu-se a um jornalista do The Sunday Times quando este o abordava já no final de uma maratona de trabalho, e depois de uma troca de questões e respostas, Lloyd terá afirmado que ele era apenas um banqueiro a “fazer o trabalho de Deus”. O facto da frase ter sido descontextualizada do resto da entrevista não evitou que nos dias seguintes a discussão pública aquecesse em redor da expressão, provavelmente amplificada por ter vindo do presidente de uma das mais poderosas instituições financeiras do planeta, e por ter sido proferida em plena crise financeira de 2008-2010.

Independentemente do contexto que pode ser evocado para justificar o que foi dito, parece ser inegável que tal também reflete uma forma de olhar para o mundo, assente na crença de que alguns estão acima de todos os outros, incluindo a Lei, e ignorando por completo o opróbrio público. Outro exemplo é a expressão “em nome de Deus”, que tem sido utilizada por alguns quando se fazem explodir junto a multidões em alguns países do mundo.

Tal crença e forma de pensar tem sido designada Complexo de Deus. Apesar de semelhantes, o Complexo de Deus e o Transtorno de Personalidade Narcisística (TPN) são condições distintas. O TPN é caracterizado por ser um “padrão generalizado de grandiosidade, necessidade de adulação e falta de empatia” (Skodol, 2018). Trata-se de uma alteração da personalidade em que a pessoa superestima o seu próprio valor, implicando a subestimação do valor dos outros. Acha-se superior, melhor, e especial. A arrogância, a necessidade constante de admiração, a falta de empatia, e a desumanização dos pares, são outros predicados observados nestes pacientes.

O Complexo de Deus é um termo cunhado pelo neuropsiquiatra Ernest Jones, conhecido por ter sido o biógrafo oficial de Sigmund Freud. O Complexo descreve a crença de que se é Deus. Esta crença não deve ser vista como o produto de uma grave alienação, alucinação ou perturbação mental, como no TPN, mas antes como um atributo a roçar a anormalidade na personalidade e no sistema de valores da pessoa. Deste modo, o Complexo de Deus pode ser especialmente notório em pessoas com um imenso poder, que acreditam ser quase omniscientes e omnipotentes, e que pensam estar acima de tudo e todos. Claro que pessoas com muito menos poder e em posições muito mais modestas na sociedade podem exibir estas mesmíssimas crenças e sistemas de valores.

Pode parecer uma contradição, mas o Complexo de Deus tem como efeito colateral a redução da complexidade da realidade, na medida em que força tal complexidade a encaixar numa visão simplificada da mesma, elaborada e construída pelo homem que crê ser Deus. Este argumento foi apresentado pelo economista Tim Harford numa palestra para o TED em 2011, em que também explica a mentalidade do Complexo deste modo: “não quero que contestem as minhas opiniões, não querem que testem as minhas conclusões”. A defesa quase absurda da hidroxicloroquina para o tratamento da COVID-19, por parte de alguns políticos no continente americano, entre abril e julho de 2020, é um exemplo do pensamento exibido por homens que se acham deuses. E o mesmo se pode dizer relativamente à proposta avançada por alguns dirigentes africanos, asseverando que a planta artemísia tem resultados milagrosos contra a infeção provocada pelo novo coronavírus.

Contraste-se tal mentalidade com uma outra de alguém que, não sendo Deus, é talvez uma das personalidades mais divinas na atualidade: o Dalai Lama. Ken Robinson, um conceituado especialista em educação, recorda um evento por si organizado com o monge tibetano. Durante a sessão de perguntas e respostas, a certa altura o Dalai Lama responde “não sei” a uma das perguntas feitas por alguém na plateia. Robinson surpreende-se com esta resposta por parte de um dos grandes líderes espirituais da atualidade, mas depois maravilha-se por compreender a coragem necessária para admitir em público o desconhecimento sobre um assunto. Robinson conclui que os líderes sentem pressão para saber tudo, e se não sabem, é visto como uma falha. Mas admitir que não se sabe, pode ser, afinal, um grande ato de liderança.

Pelo exposto se compreende que o Complexo de Deus é um fenómeno… complexo. Tal deve ficar ainda mais claro com as ideias manifestas nos parágrafos que se seguem.

Em primeiro lugar, deve ser claro que ter o Complexo de Deus não é impeditivo de se ser bem ou mal sucedido, nem de se ocupar posições de poder e influência nas sociedades e nas empresas. No seu livro de 2015, Leadership BS, Jeffrey Pfeffer faz notar que muitos líderes e gestores de sucesso um pouco por todo o mundo, revelam traços marcadamente narcisísticos, a que se juntam outros elementos deletérios como a arrogância, a perversão, e o desprezo pelos outros. Ou seja, o líder narcisista com um Complexo de Deus vincado pode ter sucesso, como aliás fica demonstrado com alguns casos de políticos mundiais contemporâneos.

Em segundo lugar, o Complexo de Deus pode ser mais frequente – e normal – do que se imagina. Pode, quiçá, ser até essencial para a sobrevivência e desenvolvimento humano, dado que estimula a auto-confiança e a auto-imagem. Num texto anterior pelo autor (em junho de 2019), foi citado o livro de Julia Shaw, onde a psicóloga defende a ideia da função adaptativa que a maldade tem nos seres humanos. Se a maldade pode ter um papel importante na adaptação humana, poderá o mesmo ser dito do Complexo de Deus? Se assim for, então caberá à investigação futura compreender melhor o fenómeno, explicando os mecanismos cognitivo-personalísticos que subjazem à crença de se ser celestial.

E em terceiro lugar, o Complexo de Deus pode manifestar-se em organizações humanas, e não apenas em indivíduos. Significa isto que também sociedades, instituições, corporações, ou grupos, podem padecer do Complexo de Deus, acreditando que a sua obra e a sua existência estão acima de qualquer julgamento, e que as suas atividades e decisões são a referência para a vida dos demais. Admitir o erro para estas organizações está fora de questão, e a crítica é rejeitada; aliás, a crítica pode até ser vista como um ato infame, por organizações com uma natureza mais déspota.

O Complexo de Deus é um dos mecanismos que intervém na construção de mundos imaginados, negando a realidade objetiva externa, e subjugando a existência dos demais à vontade do homem-que-se-julga-Deus. Pode estar, também, na base de boa parte dos problemas modernos, como a discriminação, o totalitarismo, o racismo, a xenofobia, o terrorismo, e outras manifestações de extremismo. Mas é, acima de tudo, um impedimento à evolução de indivíduos ou de sistemas humanos. Cabe aos homens compreender o Complexo de Deus. Mas também lhes cabe cuidar para que indivíduos ou organizações humanas com a mentalidade de Deus desçam à Terra. De uma forma ou de outra.

 

Referências

Harford, T. (2011). Trial, error, and the God Complex, in https://www.youtube.com/watch?v=K5wCfYujRdE

Robinson, Sir K. (2016). The power of saying “I don’t know”, in https://www.youtube.com/watch?v=lVZC5JjIR5Y

Skodol, A. (2018). Transtorno de Personalidade Narcisística (TPN), in https://www.msdmanuals.com/pt-pt/profissional/transtornos-psiqui%C3%A1tricos/transtornos-de-personalidade/transtorno-de-personalidade-narcisista-tpn

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