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Nós e os Outros

Nós e os Outros

Muitas vezes, olhamos para desconhecidos e desejamos ter o que eles têm.

Já vos aconteceu?

Não estou a falar de bens materiais; é óbvio que todos nós já fomos atacados pelo bichinho da inveja, pelo menos, uma vez: estou a falar de algo mais transcendente…

Havia um individuo que eu via todos os dias, à hora de almoço; passeava-se – tal como eu -, mas tinha uma aura de paz, de satisfação, de bem-estar e de liberdade que me transtornava. E eu dizia – de mim para mim – que gostaria de ter o que aquele senhor tinha. Mas o que é que me impedia – a mim – de ter aquela atitude?

Na minha perspectiva, aquele homem tinha um trabalho no qual se sentia realizado, tinha tempo livre, vivia satisfeito com o que tinha e era uma pessoa que respirava liberdade. No entanto, não o conhecia, e – verdade, se diga – o homem poderia estar apenas na sua hora de almoço e talvez até dissesse, olhando para mim, que gostaria de ter o que eu tinha…

A nossa tendência para a comparação é muito grande, porque a natureza fez-nos competitivos. Nós queremos sempre ser os melhores; em tudo: no bom e no mau. Não sei se já se deram conta de como as pessoas doentes discutem sobre quem está mais doente, quem sofre mais, da mesma maneira que se discute quem é melhor a fazer isto ou aquilo?

Se nunca repararam nisso, convido-vos a estarem mais atentos…

Seja como for, tal como comparamos os nossos males – a fim de se definir quem é o campeão da desgraça – também comparamos aquilo que não temos; mesmo quando não sabemos se os outros o têm…

É um fenómeno engraçado, este; é uma espécie de projecção invertida. O fenómeno de projecção – de grosso modo – é quando nós nos vemos no outro e – quase – vivemos as suas coisas como se fossemos esses outros. Só que, neste caso, projectamos o outro em nós, – ou melhor, projectamos a nossa percepção do outro em nós – e buscamos, em nós, o que teríamos de ter para nos sentirmos assim; ou seja, para nos sentirmos como achamos que o outro se sente.

O resultado imediato disso é uma lista de coisas pelas quais se ambiciona; e que não se tem. Na nossa modesta visão, só o termos essas coisas nos poderá trazer aquilo que outro tem; ou sente. E, por consequência, com o fenómeno da projecção a calibrar-se da forma correcta – com a nossa projecção no outro – concluímos, sem grandes dúvidas, que o outro necessariamente terá essas coisas. Mas tudo isto não passa de percepções…

Há quem diga que tudo na vida é uma questão de percepção; e o melhor exemplo disso é a forma como se experiencia o tempo: quando estamos divertidos, passa a correr; quando não estamos, parece que se arrasta. Será verdade, isto da percepção e da vida?

Talvez seja. No entanto, a percepção educa-se; ou seja, nós vamos criando filtros, com base nas nossas experiências de vida, que vão formando a nossa percepção das coisas. É por isso que alguns de nós são optimistas e outros pessimistas… E isto é assim, mais uma vez, pela nossa natureza; o cérebro cria a percepção e a percepção funciona depois como atalho para a nossa leitura dos eventos.

Já alguma vez deram convosco a olhar para alguém e, de repente, parece que sabem o que aquela pessoa está a viver?

Até há um jogo que se faz; criar histórias sobre as pessoas só com base naquilo que se vê…

Sabem?

Adiante…

Aquilo só é possível porque há um conjunto de percepções sobre essa pessoa que o nosso cérebro reconhece; os atalhos criados fazem o resto… Mas – curiosamente – tudo aquilo que julgamos saber sobre aquela pessoa, na verdade, é só sobre nós, porque foram nossas experiências que formaram as nossas percepções…

Já não vejo aquela pessoa – de quem falei no início – há muito tempo; ainda que eu continue a frequentar o mesmo local. E isso fez-me pensar que aquela pessoa possa ter tido uma qualquer infelicidade; ter adoecido, talvez morrido… É claro que também podem ter-lhe acontecido coisas boas; ganho o euromilhões, por exemplo… Mas eu sou – um bocadinho – pessimista e penso sempre – e primeiro – nas coisas más. E, já agora, como tudo aquilo que julguei saber sobre ele é, na verdade, sobre mim, talvez –  já que o julguei doente ou morto – seja melhor ir ao médico…

 

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

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