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Medo de tudo

Medo de tudo

Sofre-se por se querer o contacto social sem se conseguir entregar a isso. Há medo sob a forma de ansiedade, na socialização, no contato, que começa cedo e alastra até a vida adulta. Argumenta-se internamente sobre uma sensação de inferioridade, a incapacidade de se exporem publicamente porque implica uma avaliação que, julgam, levará, necessariamente a uma rejeição. Não consideram que terceiros os quererão prejudicar ou lhes prestam demasiada atenção, e não são estranhos na forma de estar ou vestir, aparte os silêncios ou monossílabos. Começa cedo, como tudo na personalidade. Pode vir de negligência dos pais ou de outras crianças, sem se excluir a biologia. E assim é a Perturbação de Personalidade Evitante.

Não quer dizer que não formem qualquer relação, mas tem que ter absolutas certezas que não vão ser rejeitados. O pior é que são os primeiros a avaliarem-se, considerando que não tem valor suficiente. Ao não se exporem, não mostram o que tem de valioso, e tudo se perpetua. Ainda mais porque, muitas vezes, abandonam as relações antes de haver a possibilidade, mesmo que remota, de serem abandonados.

São vistos como tímidos, reclusivos. São apelidados de introvertidos. A noção de timidez aplica-se, porque a ansiedade é muita. Há uma vontade de serem extrovertidos, com os impedimentos emocionais que os castigam na prisão que criam. Não tem culpa, mas os comportamentos perpetuam-se como hábitos. São hábitos que lhes custam, mas não conseguem quebrar. É frequente o recurso a substâncias que os tranquilizem de alguma forma. O adulto pode aparecer a um profissional com uma situação que pode ser interpretada como ansiedade generalizada, social ou pânico, e até trauma. A automutilação não é estranha nestes casos.

Sonham com uma vida cheia de afetos, mostrando a sua humanidade. Sofrem por estarem tão longe do que sonham e por pensarem que não são merecedores. E o medo está quase sempre presente, menos quando é substituído por uma solidão desconfortável.

Não se propõe a correr riscos ou perseguir objetivos. Talvez este seja um aspeto que tem em comum com a sociedade, que é sempre muito parada e estanque à novidade. Vivemos numa sociedade com medo. Umas sociedades têm mais medo que outras. Nós, na nossa ilusão de uma democracia plena, tememos regimes totalitários. Quem sempre viveu numa ditadura terá assim tanto medo ou este é sobreposto pelo conformismo? Diz-se que o medo vem da ignorância. Vem, se considerarmos que quando nos expomos a um medo desajustado, ele desaparece. Vem da ignorância quando é uma consequência da propaganda (agora chama-se publicidade e marketing). Mas para sentir medo, também é preciso haver conhecimento.

Há particularidades de muito valor nesta forma de ser. Prefere-se ficar nos bastidores, ao invés de se querer admiração ou atenção. Há muita introspeção, com o desenvolvimento de perspetivas que podem ser únicas e ter um valor filosófico enorme. Podem ficar só para estas pessoas ou podem ser escritas. Quando escritas, ficam guardadas num livro que poucos poderão ler, até porque os autores nunca se iriam propor ao marketing necessário à promoção da sua venda.

A sociedade habituou-se a ignorar o que não aparece nos meios de comunicação visual e plataformas digitais. Perde muito com isso.

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