“La gente purtroppo parla/ Non sa di che cosa parla”: algumas notas sobre (quem venceu) o Eurovision 2021

“La gente purtroppo parla/ Non sa di che cosa parla”: algumas notas sobre (quem venceu) o Eurovision 2021

No dia 22 de maio de 2021, um sábado, a banda italiana Måneskin recebeu o prêmio máximo na edição deste ano do Eurovision, concurso internacional de canções que é realizado desde 1956. A única interrupção ocorreu em 2020, quando a pandemia provocada pelo CoronaVírus impediu que o evento ocorresse. Por conta disso, foi sugerido que os cantores e compositores concorrentes no ano anterior – quando não houve premiação – pudessem apresentar novas canções em 2021, o que possibilitou que quem nunca assistiu ao evento pudesse verificar alguns padrões recorrentes entre os indicados…

Enquanto regra principal, exige-se que as canções apresentadas não ultrapassem os três minutos de duração e que as mesmas não possuam conteúdo político explícito. Apesar de, em seu título, o Festival estar associado ao continente europeu, eventualmente países de outros continentes podem participar, sobretudo quando suas fronteiras sejam expandidas, conforme ocorre com Rússia e Turquia. Neste ano de 2021, Austrália (com a canção “Technicolour”, cantada por Montaigne) e Israel (“Set Me Free”, por Eden Alene) foram alguns dos trinta e nove países concorrentes. A Bielo-Rússia não pôde participar, em razão do ostensivo teor político da canção internamente selecionada [“Ya Nauchu Tebia” – que significa “eu vou te ensinar” –, da banda Galasy ZMesta].

Tais curiosidades explicam o porquê de este Festival ser bastante popular na Europa e, graças à Internet, também estar ganhando muita visibilidade noutros continentes. E não é por acaso: afinal, nomes consagrados como Gigliola Cinquetti (em 1964), ABBA (em 1974) e Céline Dion (em 1988) foram vitoriosos e, em diversos casos, as canções vencedoras tornam-se sucessos imediatos, como aconteceu com a norueguesa “Fairytale” (interpretada por Alexander Rybak, em 2009), a sueca “Euphoria” (vencedora em 2012, na voz de Loreen) e, mais recentemente, “Arcade”, que concedeu a vitória ao holandês Duncan Laurence, em 2019.

No ano de 2021, a banda Måneskin era considerada uma das favoritas desde a sua apresentação inicial, sobretudo porque, dois meses antes, também venceu o Festival musical de San Remo. Entretanto, os seus competidores eram de altíssimo nível, divididos entre aqueles que serviam-se do inglês como língua franca, a fim de comunicarem-se melhor internacionalmente, e aqueles que ousaram apresentar letras em seus idiomas natais. As canções que ficaram em segundo [“Voilá”, da francesa Barbara Pravi] e terceiro lugar [“Tout l’Universe”, do suíço Gjon’s Tears] foram as mais bem votadas entre os júris oficiais, ao passo que a banda italiana foi a melhor cotada entre os júris populares. Portugal – que foi premiado em 2017 com “Amar Pelos Dois”, de Salvador Sobral – ficou em décimo segundo lugar com “Love is on My Side”, de The Black Mamba, primeira canção apresentada em inglês, no Festival, por este país.

Outros destaques: a coreografia inspirada da banda islandesa Daði og Gagnamagnið, que ficou em quarto lugar com a canção “Ten Years”; a invocação da primavera conduzida pelos ucranianos do Go_A, em “Shum” (que ficou em sexto lugar); o refrão grudento de “Mata Hari” (apresentada pela cantora Efendi, do Azerbaijão); a experiência dos belgas que formam a banda Hooverphonic, que apresentaram a inebriante “The Wrong Place”; e o ‘nü metal’ dos finlandeses da Blind Channel, cuja canção “Dark Side” ficou em sexto lugar na classificação final. Curiosidade: a canção apresentada pelo britânico James Newman, “Embers”, não conseguiu nenhum voto, o que muitos espectadores associaram ao Brexit (processo de saída do Reino Unido em relação à União Européia, concretizado em 2020).

A fim de comprovar que a vitória dos italianos não foi imerecida, convém ouvirmos o recém-lançado álbum da banda, “Teatro d’Ira: Vol. 1”, cuja faixa inicial é justamente a laureada “Zitti i Buoni”. Seus acordes agressivos demonstram a vitalidade dos quatro integrantes, com destaque para o vocalista Damiano David, então com vinte e dois anos de idade. Curiosamente, os petardos contidos na letra da canção adequam-se à controvérsia que seguiu-se à vitória da banda, quando o referido vocalista foi acusado de cheirar cocaína durante o evento, o que foi negado após a efetivação de alguns testes de sangue.

“Teatro d’Ira: Vol. 1” é um disco curto: dura menos de trinta minutos, contém apenas oito faixas e possui excelentes momentos. Um deles é a segunda faixa, a balada “Coraline”, que apresenta um romantismo exorbitante, ao narrar a saga de uma garota “tão linda quanto o sol” que, ao chorar, “tira a dor dos outros e, então, leva para dentro dela”. As mudanças de tom são inusitadas e a dramaticidade da canção combina perfeitamente com a sensualidade um tanto esganiçada da voz de Damiano David, que atinge diferentes efeitos nas duas faixas cantadas em inglês, “I Wanna Be Your Slave” (04) e “For Your Love” (06), não casualmente, as menos interessantes do álbum.

Não há dúvidas, portanto, que o vocalista expressa-se com maior intensidade em seu idioma pátrio, sendo que duas palavras aparecem em mais de uma canção: ‘cazzo’ e ‘paura’. A primeira delas é um palavrão e a segunda significa ‘medo’, de modo que a recorrência de ambas tem a ver com o fervor juvenil emulado pelo visual andrógino dos integrantes. Na terceira faixa, “Lividi Sui Gomiti”, por exemplo, a letra impavidamente apregoa: “Não nos falta coragem, somos destemidos/ Crescemos com hematomas nos cotovelos/ Nós não damos a mínima para você/ E nem para o grupo com quem tu comes”. Muito boa!

A quinta faixa do álbum, “In Nome Del Padre”, mantém o mesmo curso de revolta, tanto nos acordes quanto na letra rebelde: “Você fica a um centímetro da minha bunda, seu idiota/ Eu escolhi ser um e apenas um/ Toque o céu e volte a comer asfalto/ Em nome do pai, do filho e do espírito santo”. Esse tipo de abordagem geracional assume o paroxismo na derradeira faixa do disco, “Vent’Anni” (08), um pouco mais lenta, mas igualmente protestante, sendo que o refrão traduz magistralmente o credo compartilhado pela banda: “explique o que é a cor para quem vê em preto-e-branco/ Dê um passo adiante, seja sempre verdadeiro/ E prometa a todos que você falará sobre mim amanhã/ E, mesmo que eu tenha apenas vinte anos, precisarei correr”…

Ficou faltando um comentário sobre a sétima faixa, “La Paura del Buio”, que amalgama tanto os apelos românticos e sexuais quanto o fulgor combatente que caracterizam todas as canções do grupo Måneskin: “então me pegue, me morda, tire tudo isso/ Vou continuar a não ter medo do escuro/ Enquanto eu estiver destruído no chão/ Vou continuar a não ter medo do escuro”. Os gritos ‘à capella’ de Damiano David no desfecho desta canção excluem qualquer reprimenda acerca de seu talento, combinado com um apelo sexual iridescente. Acompanhemos os passos vindouros desta banda, por conseguinte: os espectadores do Eurovision 2021 não tiveram do que reclamar!

Wesley Pereira de Castro.

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