“Infelizmente, os policiais não conseguem resolver nada utilizando poderes mágicos”: leiamos nas entrelinhas, urgentemente!

“Infelizmente, os policiais não conseguem resolver nada utilizando poderes mágicos”: leiamos nas entrelinhas, urgentemente!

Se, em mais de uma oportunidade, já chamamos a atenção, nesta coluna, para os perigos referendados pelo agendamento jornalístico, precisaremos fazê-lo mais algumas vezes. Para quem vive no – ou acompanha noticiosamente a situação do – Brasil, os motivos de tensão abundam. Que o digam as conseqüências estapafúrdias da opção governamental por sediar a Copa América de Futebol, após a rejeição prudente de vários outros países. O número de mortos e contaminados pela COVID-19 continua a aumentar, bem como as denúncias de malevolência relacionadas ao bolsonarismo. O Mal instalou-se na política nacional, conforme já ocorrera em traumáticas ocasiões históricas anteriores: lamentavelmente, os resquícios fascistas são perenemente atualizados…

Obviamente, há alguns exageros compreensíveis nesta comparação: em termos proporcionais, há um fosso considerável entre aquilo que fundamentou a ascensão do Nazismo, por exemplo, e a instalação do bolsonarismo no Brasil. Os parâmetros pretensamente intelectuais são radicalmente distintos, mas os aspectos em comum também destacam-se. Sobretudo no aproveitamento paranóico dos apanágios econômicos da contemporaneidade: a inflação acachapante dos preços segue assombrando os brasileiros. O desemprego, idem.

Convém apresentarmos, agora, um personagem cinematográfico que servirá de oportuno cotejo social: o inescrupuloso Dr. Mabuse, que aparece em mais de um filme do genial diretor austríaco Fritz Lang [1890-1976]. Criado pelo escritor Norbert Jacques [1880-1954], “Dr. Mabuse, o Jogador” surgiu enquanto romance criminal no início da década de 1920, logo convertido num bem-sucedido filme mudo, dividido em dois capítulos: “O Grande Jogador: Uma Imagem do Tempo” e “Inferno: um Jogo para as Pessoas de Nosso Tempo”. Ainda em 1922, portanto, Fritz Lang antevia muito do que ocorreria sob o perverso jugo hitlerista.

Onipresente em suas estratégias de domínio e manipulação, o Dr. Mabuse regressaria em “O Testamento do Dr. Mabuse” (1933) e “Os Mil Olhos do Dr. Mabuse”(1960), além de outras continuações que não foram dirigidas pelo cineasta supramencionado. Servir-nos-emos de algumas observações analíticas acerca do derradeiro trabalho deste diretor, que voltava a trabalhar na Alemanha, depois de ter fugido às pressas para os Estados Unidos da América, temendo justamente o Nazismo. Sua esposa e co-roteirista Thea von Harbou [1888-1954] começou a simpatizar com os ideais do partido, o que acirrou as divergências entre eles, que culminaram num divórcio em 1933, quando ela foi flagrada num caso extraconjugal com um jornalista indiano bem mais jovem, com quem casou-se secretamente em seguida. Mas essa é outra história…

Regressemos a “Os Mil Olhos do Dr. Mabuse”: neste filme, a trama passa-se na Alemanha pós-Nazismo, socialmente reconstruída, mas ainda sob o espectro contínuo do Mal (com M maiúsculo). No início, um vidente telefona para um inspetor de polícia, a fim de advertir-lhe que um crime ocorrerá num semáforo: um jornalista será atingido por uma agulha de aço no cérebro, o que lhe provocará a morte instantânea. O que ele estava pesquisando? Eis como instauram-se as relações entre os cinco protagonistas desta obra-prima do cinema alemão.

Roteirizado pelo próprio Fritz Lang (em parceria com Heinz Oskar Wuttig), este filme mantém o espectador num constante estágio de desconfiança em relação aos personagens e situações: o vidente cego Peter Cornelius (Wolfgang Preiss) insiste que novos crimes acontecerão, a despeito do ceticismo do inspetor Kras (Gert Fröbe). Repentinamente, chega o anúncio de que uma mulher está prestes a suicidar-se no hotel onde esteve hospedado o jornalista assassinado. Neste lugar, estão hospedados também um impertinente vendedor de seguros (Werner Peters) e o magnata norte-americano de energia nuclear, Henry B. Travers (Peter Van Eyck), que apaixonar-se-á pela desesperada Marion Menil (Dawn Addams). Acolhida pelo magnata, ela explicará que é prisioneira de um casamento assaz abusivo, ao passo que o vendedor de seguros decide propor uma desonesta parceria com o vidente. A pistola de agulhas de aço continua a ser utilizada: quem está assassinando as pessoas? E por quê? O nome do Dr. Mabuse – diegeticamente falecido na década de 1930 – volta à tona. Por detrás das convenções de enredo policial, magistralmente urdidas pelo roteiro, considerações acerca da sociedade européia daquele momento passam a ser deslindadas, e estas também servem para refletir acerca dos males da contemporaneidade…

O avantesma do Dr. Mabuse, no filme, surge menos como uma fachada para os crimes inter-relacionados de uma sociedade demarcada pela corrupção que como um bode expiatório chamativo para a sanha investigadora de quem tenta desvendar os crimes (o espectador, entre eles). Múltiplas telas aparecem no filme: além da identificação primária entre o olhar espectatorial e aquilo que é mostrado pela câmera, enquanto instância narrativa, descobre-se que os personagens são observados internamente, mesmo quando criam que estavam protegidos pela intimidade de seus cômodos. Não convém explicar aqui se os assassinatos são desvendados, visto que o desfecho do filme permanece em aberto, a fim de trazer uma reflexão sobre o tipo de malevolência que ocorre ao nosso redor. Já foi percebido que os bolsonaristas comumente inventam diatribes e impropérios, a fim de que a noticiabilidade exacerbada dos mesmos oblitere situações ainda mais graves e destrutivas. Resta-nos gritar aquilo que é formado a partir das iniciais de cada um dos parágrafos desse texto?

Wesley Pereira de Castro.

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