Tenho-me apercebido de um crescente número de gurus nas redes sociais…

Não é que antes não existissem muitos – talvez demasiados -, mas nos últimos tempos tenho assistido, pelo menos, a um aumento da publicidade dos mesmos. Até pode ser que seja fruto dos tempos que vivemos, da necessidade de estes profissionais venderem os seus serviços online, porque o passa-a-palavra não funciona tão bem no registo de afastamento e cuidado em que vivemos. Ou pode só ser que esteja mais atento, porque, também devido aos tempos que vivemos, dou por mim – demais – no mundo das redes sociais.

Seja por que razão for, tenho esta sensação; eles andam por aí, ao virar da esquina online, prontos a saltar sobre os navegadores indefesos como, nos tempos dos Descobrimentos se acreditava estarem – no fim dos mares –, as gigantescas serpentes marinhas e os monstros diversos que o medo e a ignorância ia inventando.

Todos temos o direito de promover o nosso negócio; portanto, não é por isso que falo disto. Mas não teremos também a obrigação de sermos verdadeiros? Teremos, em nome da nossa rentabilidade, o direito de iludir e enganar os outros?

Não sei quanto a vocês… A mim parece-me que não!

A verdade é que nenhum deles é um guru!

«Vendem-se» como tal, tentam convencer-nos de que o são, seduzem-nos com a ideia de que têm um conhecimento único que somente eles podem transmitir… É claro – quero, eu, crer – que todos sabemos que aquilo é história, é mito, fantasia, ilusão para criar em nós o desejo de conhecermos esse saber arcano… Ainda assim, acredito, mesmo sabendo disto, que aquilo ressoará em nós, convencer-nos-á de alguma forma, porque só isso explica por que escolhemos uns em detrimento de outros. Mas, apesar de tudo isso, esta gente não é guru…

Guru é aquele que não apregoa os seus saberes, é aquela pessoa que vive da melhor maneira que sabe, é aquele ser que não se impõe aos outros, porque o que sabe – sabe, ele – é adequado a si e que o melhor que poderá fazer é aconselhar; e só se pedido. Estes seres especiais – os verdadeiros gurus – vivem afastados do mundo, porque há muito tempo perceberam que o mundo enreda-nos num conjunto de coisas sem interesse e, nisso, nos afasta do nosso centro e da nossa missão de vida; e, tudo o que eles querem, é paz e a possibilidade de viverem a sua vida em harmonia com o que os rodeia. A um guru, chegamos, depois de uma jornada de busca de conhecimento e nunca – jamais – entrando em redes sociais.

Por isso, chamar esta gente de gurus é uma obscenidade e autointitularem-se como tal, ou aceitarem serem assim chamados, é uma profanação do termo e uma irresponsabilidade.

Há gurus; mas não os encontremos nas redes sociais. E, muito menos, os encontraremos, lá ou noutro sitio qualquer, apregoando os seus serviços e dizendo que os seus são diferentes daqueles que outros, como eles, apregoam; melhores, mais sábios, mais reveladores, especiais… Não. Quem faz isso são os pseudo-gurus; e mentem-nos, porque nada os distingue: são todos iguais…

Sim. É possível que uns ensinem esses conhecimentos melhor do que outros; é provável que alguns, pela sua experiência, possam passar maior credibilidade, certezas, ou truques e dicas que só essa experiência traz; e é possível que outros sejam, de facto, extraordinários na sua forma de passar o saber… Mas é isso que fazem: transmitem o seu saber em troca de um pagamento… Um Guru não faz isso. Um Guru fala e permite que quem o ouça interiorize as suas palavras e as transmute num conhecimento que fará sentido a quem o ouve.

Vejam: um Guru não diz que algo é encarnado; descreverá esse algo, falará das características desse algo e será através disso que quem o ouve concluirá que esse algo é encarnado.

Mas não é nada disso que se passa nas Redes Sociais. Os Gurus – autoproclamados – afirmam, recorrendo à ilusão da retórica discursiva e imagética da publicidade, que só o que eles sabem é verdadeiro…

E vem isto a propósito de um certo e determinado guru de Marketing Digital que eu sigo.

A sua mensagem atraiu-me por ser disruptiva: ele não se afirmava um guru, não discursava como alguém que pretendesse sê-lo; e, algumas das suas dicas, eram de facto novas e interessantes e – melhor ainda – constatei que funcionavam. Passaram-se meses, durante os quais ele foi dando conhecimento útil, enquanto ia alertando para o perigo dos mil e um cursos de marketing Digital que andavam nas redes sociais e que prometiam o impossível a troco de pequenas fortunas…

O que é que me fez acreditar nele?

Porque é que, a ele, o ouvi?

Bom; a mensagem dele ressoava em mim, porque eu acreditava no que ele me dizia sobre os mil e um cursos nas redes sociais. Na verdade, a mensagem dele era um eco da minha própria observação e, vindo de alguém do meio, tinha uma carga sarcástica a que era impossível escapar…

Infelizmente, todos os santos têm pés de barro; e este não foi diferente. Atualmente, este não-guru, transformou-se num guru – como os outros: a sua mensagem modificou-se e já é o melhor do mundo e aquilo que ele sabe não tem igual. E isto serviu, apenas, para me provar que apesar de ter sido iludido – como tantos outros – a minha perspectiva está correta: esta gente assume ser algo que não é e, de caminho, vilipendia a verdade, a humildade e o respeito que deveria ter para com os seus clientes e colegas, enfim, para com os outros.

«É negócio!», dirão. «Devemos saber distinguir uma coisa da outra…»

E eu respondo:

E se não fosse negócio? E se fosse um amigo a ter semelhante atitude por outras coisas?  Talvez já não se pensasse assim…

Até quando vamos permitir esta compartimentação das coisas que permite a continuação da impunidade de certos comportamentos, porque justificáveis – do ponto de vista do jargão -, em determinadas condições?

Até quando vamos sendo levados pela torrente do que é, arriscando-nos a sermos atirados de uma catarata para o lago do que não queremos, só porque não temos coragem de assumirmos o que somos e agarrarmos o frágil ramo que se estende até nós, das margens, para nos resgatar para a vida?

Para quando, o momento do despertar; o momento em que percebemos que somos todos um e que cada vez que nos tentamos sobrepor aos outros, seja pela mentira ou pela ilusão, damos uma nova machada nessa unidade?

Será que tudo não seria melhor, mais fácil, mais humano, se todos tivéssemos a humildade de querer ensinar aos outros o pouco que sabemos, em vez de, belicamente, e recorrendo ao verbo, abater e ostracizar todos os outros que podem fazer o mesmo que nós, enquanto, de caminho, enganamos meio mundo prometendo-lhes o el-dorado?

Imagem de Stefan Keller por Pixabay

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