Fascismo, o mal que mora ao lado

Fascismo, o mal que mora ao lado

O lema da Ação Integralista Brasileira – AIB, movimento fascista da década de 1930 que, em seu auge, chegou a contar com quase oitocentos mil membros, tendo obtido grande capilaridade no território nacional, encontra-se, hoje, fartamente presente em faixas, cartazes e camisetas das manifestações de rua do bolsonarismo – movimento neofascista responsável pela eleição democrática do presidente brasileiro Jair Bolsonaro e pela sustentação política de seu trágico governo. Em meio ao verde e amarelo abundante e a muitas bandeiras nacionais, inscrevem-se fartamente as palavras “Deus, Pátria e Família”, slogan dos primeiros fascistas brasileiros.

É verdade que a AIB, esquálida e diminuta, ainda se mantém ativa como movimento político, mas em nada influencia os rumos das demandas neofascistas expressas pelos seguidores mais fieis do presidente Jair Bolsonaro: intervenção militar, fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, reedição do ato institucional que legitimou a violência de Estado durante o regime militar no Brasil – o AI-5, criminalização do comunismo, entre outras. A AIB existe, mas não está viva. Vivos estão, lamentavelmente, as ideias e os ideais fascistas gestados em 1919 por Benito Mussolini, quando da fundação do movimento Fasci Italiani di Combatimento e de sua posterior transformação em regime político; de Adolf Hitler e seu regime nazista; de Franco, Salazar, Plínio Sampaio e tantas outras lideranças que, em diferentes contextos, tentaram soerguer sociedades a partir de valores como tradição, nacionalismo, recusa do Estado Democrático de Direito e suas instituições, anti-intelectualismo, racismo, violência como forma de domínio da ordem social, controle das massas e, sobretudo, caça ao comunismo[1].

O cientista político e historiador estadunidense Robert Paxton entende que o fascismo é um fenômeno próprio do capitalismo[2]. Nasce a partir dele e nele está sempre presente. Vive à margem e no submundo da vida política, mas emerge das sombras em conjunturas que lhe são favoráveis, sobretudo grandes crises econômicas, como a de 1929. Essa é uma perspectiva tanto realista quanto assustadora, pois pressupõe que ideias, ideais e comportamentos fascistas – materializados na forma de movimentos, partidos e até mesmo regimes – tenderão a ressurgir de tempos em tempos, enquanto perdurar o modo de produção capitalista. Trata-se, é bem verdade, apenas de uma tendência, visto que a História não é teleológica. Mas quando se leva em consideração, como fez Karl Marx, que as crises não são apenas inerentes ao capitalismo, mas constituem mecanismo necessário à sua sobrevivência, “na medida em que permitem, na fase posterior, um novo ciclo de crescimento da produção de valor”[3], ela se torna uma tendência fortíssima e aterrorizante. A perspectiva apontada por Paxton é fundamental para a compreensão tanto do surgimento do bolsonarismo e seu fôlego diante da gestão catastrófica do presidente Jair Bolsonaro[4] quanto do ressurgimento da extrema-direita nos EUA, na Europa central, no Leste europeu, na América Latina e, até mesmo, nos países nórdicos.

 Com o apoio intermitente – porque circunstancial e calculista – de grupos conservadores, das forças armadas, da grande burguesia e das igrejas, paralelamente aos efeitos nocivos das crises econômicas sobre a renda e o trabalho, movimentos fascistas como o QAnon, nos EUA, ganham terreno entre as classes médias urbanas e as massas trabalhadoras, podendo chegar ao poder, inclusive pela via democrática, como o bolsonarismo, no Brasil, e, no limite, converter-se em regime. Seja na forma de movimentos de massa pontuais, mais ou menos estruturados, em pequenas células supremacistas raciais que atuam invisíveis na internet profunda ou mesmo em partidos políticos de extrema-direita como os que são vistos na Polônia ou na França, o ideário fascista encontra-se vivo e pulsante, louco para saltar das franjas do sistema para seu centro de controle.

O fascismo é um inimigo perene e ardiloso. A experiência histórica ensina que sua derrota depende da perseverança e da vigilância constantes e incansáveis das forças progressistas e democráticas, de enfrentamento sistemático e contundente e de muita mobilização e organização política. Apenas o conjunto desses esforços é capaz de manter as portas fechadas à ameaça fascista e varrê-la para o breu de onde nunca deveria ter saído.

[1] Eco, Umberto. O fascismo eterno. Fonte: https://operamundi.uol.com.br/samuel/43281/umberto-eco-14-licoes-para-identificar-o-neofascismo-e-o-fascismo-eterno, consultado em 10 de junho de 2021.

[2] PAXTON, Robert O. Anatomia do fascismo. São Paulo, Paz e Terra, 2007.

[3] LIMA, Rômulo André. A lei geral de acumulação capitalista e as crises cíclicas. Leituras de Economia Política, Campinas, (16): 87-110, jun. 2010, p. 88. Fonte: https://www.eco.unicamp.br/images/arquivos/artigos/3127/07%20ROMULO.pdf, consultada em 10 de junho de 2021.

[4] O governo de Jair Bolsonaro ostenta um dos maiores quantitativos de mortos em virtude da pandemia de covid-19 no mundo – cerca de meio milhão de mortos em junho do ano corrente –, enquanto o país enfrenta altíssimos índices de desemprego – mais de 14 milhões de desempregados –, aumento da inflação, risco de crise hídrico-energética, recordes de queimadas e desmatamento, aumento da violência e da letalidade policiais, entre outros problemas.

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Um comentário

  1. Priscila dos Santos Dorneles Junho 15, 2021 em 12:43 am- Responder

    Verdadeira e triste realidade, que precisamos combater! Interessante a perspectiva concomitante com os outros países. Fico triste ao ouvir desses grupos frases de Deus ou da Palavra de Deus (Bíblia), totalmente sem contexto histórico, social ou teológico. Se essa galera realmente estudasse as Escrituras ou a vida de Jesus, iriam ver que a base desse Ministério é o AMOR, e a aceitação.
    Tiago 2: 1 – “Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com favoritismo.”

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