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“Este é o fim de uma história de amor e dever, em que o dever prevaleceu”: sempre é tempo de falar do que é importante (em todos os sentidos do termo)!

“Este é o fim de uma história de amor e dever, em que o dever prevaleceu”: sempre é tempo de falar do que é importante (em todos os sentidos do termo)!

Como parte do processo de netflixização da cultura contemporânea, a obsolescência quase imediata das novidades audiovisuais surge como ferramenta indispensável: no dia em que são lançadas as produções mais aguardadas dos principais serviços de ‘streaming’ internacionais, os comentários sobre elas nas redes sociais são quase onipresentes. Por causa do terror advindo dos ‘spoilers’ – já que, como bem resumiu o cineasta Martin Scorsese, “vivemos numa época em que a arte cinematográfica é sistematicamente reduzida ao seu mínimo denominador comum, o ‘conteúdo’” –, os espectadores apressam-se em consumir os lançamentos assim que eles ficam disponíveis. Pouco tempo depois, os assuntos são radicalmente substituídos…

À guisa de exemplo: quando foi lançado, num feriado natalino, via Netflix, o filme “Não Olhe Para Cima” (2021, de Adam McKay) foi onipresentemente mencionado – de maneira elogiosa, na maior parte das vezes –, chegando mesmo a ser indicado a algumas importantes categorias no Oscar. Hoje em dia, quase não se fala mais sobre este ótimo filme, por mais pertinente que sejam as críticas sociais e institucionais contidas em seu roteiro. É como se o desgaste da exposição inicial tivesse anulado a sua própria relevância e a sua campanha exorbitante de divulgação culminasse em seu próprio esgotamento representativo!

Dessa maneira, é sintomático que, mais de meia década após o seu lançamento, uma telessérie como “The Crown” – cuja primeira temporada data de 2016 – ainda consiga nos impressionar tanto. A quinta temporada da série está prevista para estrear em novembro de 2022, de modo que um interessantíssimo diferencial desta série está em seu enredo: já sabemos o que vai acontecer! O que nos chama a atenção, portanto, é o modo como as intrigas palacianas são deslindadas, utilizando convenções narrativas que vão desde o melodrama até mesmo o suspense ou o ‘thriller’ político. No centro da trama, a Coroa Britânica.

Magistralmente interpretada por Claire Foy, a jovem Elizabeth Alexandra Mary – em processo de converter-se na sumamente poderosa Elizabeth II – é a protagonista: no primeiro dos dez episódios da temporada exordial de “The Crown”, acompanhamos o processo de escolha do noivo da então princesa Elizabeth, Philip Mountbatten (Matt Smith), apadrinhado pelo Rei George VI (Jared Harris), que sofre de um avançado câncer de pulmão. Enquanto o primeiro compartilha uma inaudita lubricidade com a sua esposa, o segundo está prestes a falecer, o que legará a mais pesada das responsabilidades à sua primogênita, que tornar-se-á rainha. Muito acontecerá no entorno destes personagens, entretanto.

Os dez primeiros episódios da primeira temporada foram escritos pelo dramaturgo Peter Morgan, que demonstra um nível absoluto de excelência no modo como transita por diferentes gêneros e como biografa alguns personagens que ainda estão vivos – e que poderiam censurar o seu manuseio enredístico de acontecimentos reais. A direção dos episódios, porém, coube a realizadores distintos, o que engendra uma espécie de irregularidade entre os primeiros e os derradeiros episódios, já que a glória vislumbrada no início cede progressivamente espaço aos dilemas entre público X privado no desfecho. Notamos que o cineasta Stephen Daldry – indicado a vários prêmios por seus três primeiros longas-metragens – cede à tentação da celebração régia, afinal necessária para que compreendamos o processo de esfacelamento tradicional que se seguirá. Ao menos, em tentativa e pressão pública.

Pouco a pouco, Elizabeth II precisará lidar com as rivalidades de seus subordinados, com os posicionamentos polêmicos do Primeiro-Ministro Winston Churchill (John Lithgow), com as desventuras românticas de sua irmã Margaret (Vanessa Kirby), com as manipulações de seus funcionários, com os ressentimentos de seu tio Edward VIII, Duque de Windsor (Alex Jennings), com o rigor de seu cotidiano atravessado por símbolos, com os clamores populares e com as lutas por independência em suas colônias. Em muitos aspectos, a família real britânica é exibida como uma vilã colonialista, ao mesmo tempo em que nutrimos simpatia por alguns de seus personagens. Trata-se de um trabalho primoroso, repetimos!

Na dezena de episódios que compõe essa temporada inicial, dois merecem ser destacados por seus caracteres excepcionais e pelas temáticas acessórias, que transcendem os desafios enfrentados pela jovem rainha, cada vez mais autoritária, conforme é exigido por seu título monárquico: um deles é o sétimo, e o outro é o nono, “Assassinos”. No primeiro desses dois, “Scientia Potentia Est”, Elizabeth relembra a sua educação infantil e percebe que não teve acesso ao mesmo grau de ensino que as demais crianças, e contrata um professor particular, a fim de ensinar-lhe algo que possa assegurar-lhe mais firmeza no momento de enfrentar e conversar com políticos de todo o mundo. Acerca do outro episódio mencionado, precisamos escrever um parágrafo laudatório à parte.

Em “Assassinos”, penúltimo episódio desta primeira temporada, há uma divisão mui peculiar de situações: de um lado, Elizabeth lidando com a sua paixão pela eqüinocultura e reencontrando um amor de juventude, com quem compartilha a curiosidade pelos procedimentos de “cobertura” das éguas; do outro, um confronto intelectual e artístico (além de mui egocêntrico) entre Winston Churchill e o pintor Graham Sutherland (Stephen Dillane), designado para pintar um quadro em homenagem ao seu aniversário de oitenta anos de idade. Os diálogos travados entre esses dois personagens permitem elucubrações egrégias acerca da imponência das funções da Arte, sobretudo quando associada ao poder e comprometida com a eternidade. Recomenda-se audiência cuidadosa a esse extraordinário capítulo, portanto!

Tal qual foi informado, além dessa temporada de estréia, há mais três já lançadas, uma em pós-produção e uma sexta, a definitiva, anunciada para 2023. Cada uma delas foi merecedora de muita publicidade e de variegados prêmios nas temporadas correspondentes aos melhores trabalhos televisivos. Não é por acaso: aqui, a produtora Netflix fez jus aos seus volumosos investimentos. É uma produção dramático-biográfica de primeiríssimo quilate!

Wesley Pereira de Castro.

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