“É complicado”, eles repetem: “a heroína alivia um pouco a dor, mas tudo volta depois, pior que antes”!

“É complicado”, eles repetem: “a heroína alivia um pouco a dor, mas tudo volta depois, pior que antes”!

Quando Andra Day recebeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz na categoria dramática, em 28 de fevereiro de 2021, muitos cinéfilos foram pegos de surpresa. Não porque ela não fosse merecedora da láurea, pelo contrário, mas porque o filme que ela protagonizou foi destroçado por parte considerável da crítica. Conduzido pelo indeciso (para não dizer medíocre) Lee Daniels, “Estados Unidos Vs. Billie Holiday” (2021) ampara-se de maneira quase parasitária na impressionante entrega actancial da atriz, visto que o enredo não sabe direito o que fazer com o poderoso material apresentado. Mas talvez não seja um filme tão ruim quanto dizem…

Conforme o próprio título deixa evidente, conheceremos um pouco dos percalços envolvendo a trajetória artística da cantora Billie Holiday [1915-1959], que faleceu aos 44 anos de idade, em decorrência de complicações da cirrose, após uma vida trágica e uso contínuo de opiáceos. Entretanto, conforme percebemos no mesmo título, a abordagem jornalístico-judicial sobrepuja-se aos demais aspectos biográficos, de modo que, mais uma vez, escolhe-se uma imponente personalidade negra como coadjuvante de sua própria história. Os conchavos e falsas incriminações por parte do FBI [Federal Bureau of Investigation] são privilegiados no roteiro, com foco no personagem Jimmy Fletcher (Trevante Rhodes), um agente infiltrado que angariou a confiança e o afeto da cantora, ao participar de uma tramóia que provocou o seu encarceramento, por quase um ano, em 1947…

Nascida Eleanora Fagan e tendo sido estuprada ainda na pré-adolescência, Billie Holiday contornou parte das agruras de sua vida pessoal através de um ‘corpus’ musical que não evitava a tragédia: cantarolava sobre as dificuldades amorosas mas não evitava os temas espinhosos referentes ao racismo que sofria na pele e que também testemunhava entre os seus vizinhos. E, assim, surgiu a sua afinidade com a controversa “Strange Fruit”, canção dolorosa de protesto que justificou a sua perseguição pelas entidades governamentais, a ponto de seu vício em substâncias ilegais ser hipertrofiado, para que ela fosse vigiada e presa. Porém, o modo como o filme expõe esta relação é tímido, sem a pujança requisitada pela poderosa letra, gravada pela primeira vez em 1939: “as árvores do Sul dão um fruto estranho/ Sangue nas folhas e sangue na raiz/ Corpos negros balançando na brisa do Sul/ Fruta estranha pendurada nos choupos”…

De acordo com o roteiro de Suzan Lori-Parks – baseado no livro “Chasing the Scream”, de Johann Hari, cujo tema é a guerra estadunidense “contra as drogas” – a emoção que a cantora transmitia ao encetar esta canção preocupava os políticos macarthistas, visto que o fervor emocional incitaria as então chamadas “minorias raciais” à conclamação por Direitos Humanos. Entretanto, tal preocupação é apresentada de maneira maniqueísta: um agente em particular, Henry Anslinger (interpretado por um inexpressivo Garrett Hedlund), é escolhido como bode expiatório numa corrente generalizada de preconceitos institucionais, de modo que a legitimação cotidiana do racismo é secundarizada. Aparece apenas num breve diálogo, quando a cantora confronta um afetado entrevistador (personificado por Leslie Jordan), mas sua voz tolhida pela violência masculina não é devidamente elevada enquanto discurso reivindicativo. O filme parece não se comprometer com as causas defendidas pela cantora ou sequer enternecer-se apropriadamente acerca do que ela sofreu. É um relato quase randômico de fatos que corporificam a oposição titular. E só.

No afã por defender os breves rompantes de sinceridade nesta obra, há uma montagem videoclipesca de lembranças traumáticas, ocorrida durante uma “viagem” de heroína, que merece ovação, no sentido de que conjuga indicialmente os temas encontrados nas letras que a cantora interpreta. Os seus dissabores amorosos não são casuais, aliás: além das traições perpetradas por Jimmy Fletcher, vemo-la também ser espancada inúmeras vezes pelo homem com quem ela se casa, Louis McKay (Rob Morgan), além de um flerte não esclarecido com a diva lésbica Tallulah Bankhead (Natasha Lyonne). É tudo muito circunstancial, entretanto.

Ao término da sessão, o que resta como saldo positivo no filme são os momentos de interação entre a cantora e sua equipe musical, o modo como o entrecho suscita a vontade de pesquisar sobre Billie Holiday e sua canção mais célebre [eleita “a melhor do século”, pela revista Time, em 1999] e, claro, a extraordinária interpretação de Andra Day, sendo que ela também co-escreveu “Tigress & Tweed”, canção que é executada durante os créditos finais. Se, em muitos sentidos, “Estados Unidos Vs. Billie Holiday” confirma as más escolhas que o diretor Lee Daniels já expusera em trabalhos anteriores, ao menos pôde consagrar a sua protagonista como uma das favoritas ao Oscar de Melhor Atriz, num ano em que, atipicamente, todas as indicadas eram igualmente merecedoras deste prêmio. É evidente, reitera-se, que a interpretação dela é superior aos demais componentes do filme: o instante doloroso em que ela despe-se por completo, quando é coagida a ser revistada pela polícia, antes de ser presa, é a prova cabal de seu talento, ainda insuficientemente valorizado em Hollywood. Que este filme qualitativamente irregular e discursivamente pusilânime ao menos sirva-lhe como currículo assimétrico: sua presença isolada é bem maior que o conjunto. Fez jus à importante figura histórica que caracterizou!

Wesley Pereira de Castro.

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