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Desabafo do fim de ano pandêmico

Desabafo do fim de ano pandêmico

Não venha cobrar lucidez de um brasileiro após este terrível ano de 2020 sob o governo Bolsonaro. Gostaria de ter dedicado mais tempo para refletir sobre diversos acontecimentos que ocorreram e ocorrem em contextos africanos, sobre arte, sobre espiritualidade, mas não foi possível. Praticamente toda nossa indignação volta-se ao contexto brasileiro.

Sério que só descobriram agora, em 2020, em plena pandemia, que o Brasil possui mais pessoas pobres e miseráveis do que indicam os dados oficiais? Por que isto não foi investigado anteriormente? Por que o governo Bolsonaro não tomou medidas efetivas para impedir a circulação do coronavírus? Por que não houve projetos de implementação emergencial de saneamento básico nas periferias, de habitação popular e de reurbanização das favelas? Por que não houve política de testagem em massa e isolamento das pessoas pobres infectadas? Por que não houve política de segurança alimentar para impedir o crescimento da fome, a má alimentação e o aumento excessivo dos preços dos alimentos?

O governo Bolsonaro correu, no início da pandemia, para disponibilizar dinheiro aos bancos. Mas este dinheiro não chegou à população em geral nem às pequenas e médias empresas, não foi suficiente para impedir o crescimento do desemprego e só beneficiou os grandes especuladores. Depois, o governo distribuiu o auxílio emergencial para a população de baixa renda, mas o dinheiro demorou para chegar nas mãos das pessoas necessitadas e muitas pessoas ricas pegaram indevidamente o dinheiro. Nada surpreendente.

Os parlamentares brasileiros seguiram com projetos que beneficiam somente os bancos, os grandes especuladores e os grandes grupos empresariais, e projetos de perdão de dívidas milionárias das grandes igrejas evangélicas. Não houve uma grande onda de solidariedade encabeçada pelos bancos, pelos milionários, pelos grandes grupos empresariais e pelas grandes igrejas evangélicas, aqueles que são continuamente beneficiados pelo estado brasileiro.

O governo Bolsonaro correu com suas medidas no sentido de aumentar a circulação de armas e munições, e no sentido de diminuir o controle sobre armas e munições. Por outro lado, não houve medidas efetivas para combater a violência policial e para evitar os homicídios de pessoas negras e periféricas. O governo Bolsonaro continuou com seus ataques aos direitos humanos, às minorias, à população negra, aos povos indígenas, aos quilombolas, ao meio ambiente, aos direitos trabalhistas, e aos direitos sociais.

A opinião pública vai criticando cautelosamente o governo Bolsonaro, mas endossando de forma generosa a ideologia neoliberal que, por sua vez, culpa a população pobre por sua própria pobreza. Por que pedir “prudência” e “cautela” para a população pobre que se vê totalmente abandonada pelo governo Bolsonaro? Até quando virão com a ladainha de que a saída para tudo está no empreendedorismo ou no mercado financeiro?

Em qualquer posição no espectro político brasileiro, é muito fácil comprar o discurso da desresponsabilização. É fácil culpar somente os eleitores de Bolsonaro ou os supostos extremistas, ou culpar somente os evangélicos das grandes igrejas pentecostais, ou culpar a população pobre como sempre ocorre. Talvez a única coisa mais lúcida para dizer é que nos indignamos muito pouco no sentido da defesa da população pobre e periférica. Faltou mesmo é radicalismo.

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