De quando a realidade nos invade, e algumas descobertas ritmadas progridem…

De quando a realidade nos invade, e algumas descobertas ritmadas progridem…

A filmografia do cineasta baiano Marcus Curvelo impressiona pela extrema coerência. Co-fundador do coletivo audiovisual Cual, em cuja sigla está evidenciada uma proposta de cinema como algo urgente, ele criou um alter-ego – chamado Joder – que hipertrofia os defeitos geracionais de uma classe social privilegiada, mas atravessada por paradoxos que a perseguem até mesmo quando tenta militar em causa contrária. Conforme é sabido, o Capitalismo baliza a sua quase ubiqüidade a partir da assimilação dos opostos, visto que até mesmo os seus detratores são cooptados pela lógica vendável. Ou seja, constatamos que os produtos de esquerda são também lucrativos: alguns dos filmes eventualmente elogiados nesta coluna que o digam!

Voltando ao nosso personagem, entretanto: surgido no curta-metragem confessional “Feio, Velho e Ruim” (2015) e interpretado pelo próprio Marcus Curvelo, Joder Oliveira Carvalho possui não apenas sobrenome, como também um Cadastro de Pessoa Física [tudo indica que ficcional: 029.964.635-10]. E ele retorna em mais de um filme, de modo que protagoniza, como elemento de uma disrupção psicanalítica, o primeiro (e ótimo) longa-metragem do diretor, “Eu, Empresa” (2021, co-dirigido por Leon Sampaio), que diagnostica brilhantemente as aflições socioeconômicas da contemporaneidade…

Além de aparecer telefonicamente em “Neandertais” (2016) e de redimir-se um pouco, em razão de seus laços familiares, nos ótimos curtas-metragens “Joderismo” (2019) e “A Destruição do Planeta Live” (2021), foi no assaz premiado “Mamata” (2017) que o personagem tornou-se conhecido em todo o Brasil, sendo debatido e analisado em mais de um festival de cinema. E convém falarmos um pouco mais sobre o que ele pensa e faz neste filme…

Por motivos óbvios, Joder sente-se perdido, sem saída, o que é emulado desde a etimologia nomenclatural de um termo chulo, em espanhol. Incapaz de perceber que o que mais o prejudica – financeira e afetivamente – é o seu oportunismo insaciável, este personagem possui relativo trânsito entre a esquerda política. Deseja conseguir algum trabalho lucrativo, a fim de poder evadir-se do Brasil e reencontrar uma namorada que faz intercâmbio estudantil nos Estados Unidos da América. Porém, ele soçobra, refletindo o que é comumente noticiando em relação ao País: de maneira tragicômica, Joder relembra os seus próprios fracassos, que são tão individuais quanto metafóricos, em termos extensivos à sua geração etária (trinta e poucos anos). Sem nunca ter contribuído para a Previdência Social, Joder percebe que as decisões (des)governamentais que sucederam-se após o golpe que desembocou no ‘impeachment’ da ex-presidenta Dilma Rousseff não o isentarão: apesar de seus parentes ricos, permanecerá tão fodido quanto o restante da nação – e o palavrão aqui é mais que necessário!

Se, por um lado, Joder mostra-se completamente endividado e preocupado com os rumos políticos de um país em crise acentuada, por outro, ele expõe-se também como alguém sensível e inteligente, ainda que atropelado pelas condições desestabilizadas de seus ídolos nacionais: segundo ele, deixou de sentir-se patriota desde a morte do automobilista Ayrton Senna [1960-1994]. Às vésperas de um concurso profissional importante, droga-se com uma substância vendida com um nome mui sugestivo [“pedalada”, referência direta àquele que seria o motivo da destituição do cargo da referida ex-presidenta] e, dopado, ouve a versão ébria do Hino Nacional Brasileiro, numa deprimente apresentação da recém-falecida cantora Vanusa [1947-2020]. Numa praia, equipara-se especularmente ao jogador de futebol David Luiz, que conclamava a virgindade pré-matrimonial durante a Copa do Mundo 2014, quando o Brasil – país-sede do referido torneio e favorito absoluto ao hexacampeonato de futebol – perdeu de 7×1 para a seleção alemã, numa das mais constrangedoras e traumatizantes derrotas nacionais, ocorrida justamente durante a gestão rousseffiana. Joder, portanto, é uma metonímia premente do fracasso de boa parte dos brasileiros: os cúmplices silenciosos, sobretudo.

Histriônico e hiperativo, o personagem Joder confundir-se-á cada vez com o seu intérprete e diretor, de modo que a família Curvelo aparecerá progressivamente nos filmes do genial Marcus. É assim com seus pais, Joel e Sônia, e com seu sobrinho Rodrigo, ‘rapper’ e skatista que é inquirido em “Joderismo” [vide fotograma em destaque], por conta de letras com forte temática social que não correspondem necessariamente à vivência íntima do cantor, que disponibiliza suas canções via SoundCloud e YouTube, através da alcunha Curvelo MC. E é sobre ele que traçaremos algumas alvissareiras linhas agora…

Responsável, de maneira completamente independente, por um álbum chamado “Favela, Retrato da Injustiça”, publicizado em 2017, este jovem divide a sua musicografia em duas etapas: de um lado, as experiências de desigualdade social que testemunhou quando vivia no município de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro; de outro, um olhar singelo sobre a realidade à sua volta e sobre as cobranças que recebe por ser (e principalmente parecer) branco e aquisitivamente privilegiado. Ainda que a sua obra-prima, chamada “Cinética”, não conste das quinze faixas dispostas neste álbum, há pelo menos três canções merecedoras de demorados aplausos e atenção: a faixa de abertura (“Vento Preto”), que conclama que “quem vive de aparência não conhece o amor sincero”; a faixa 03 (“Sociedade de Consumo”), de onde proveio o título do disco e onde ele afirma que “a realidade é uma tristeza, todo mundo foge dela/ não adianta se esconder, pra onde olhar vai ver favela”; e a faixa 05 (“O Cravo e a Rosa”), onde ele narra o que parece ser um relato pessoal de assimetria emotiva, perguntando-nos “será que a aparência importa?”, num cotejo de rimas entre o que associamos experiencialmente às palavras “maquiagem” e “tatuagem”.

Oferecendo como corolário o verso “aprendizagem é a resposta de quem já perdoou”, Curvelo MC tem aparições cada vez mais relevantes nos filmes de seu tio, onde contribui não apenas com a trilha musical: o seu discurso espontâneo, consciencioso e mui participativo sobre as dilacerações advindas da uberização do trabalho no longa-metragem “Eu, Empresa” justifica que não apenas a genialidade de Marcus Curvelo seja reverenciada: no auge de sua juventude e lidando com as contradições inequívocas de sua beleza física, Rodrigo também tem muito a nos dizer. Ou melhor, cantar, através de rimas inteligentes e bases instrumentais contagiantes. Ficam aqui estas recomendações entusiasmadas, no afã de que as mesmas vendam – ou, mais importante, que sejam acatadas e difundidas!

Wesley Pereira de Castro.

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