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Corona Island

Corona Island

Gostam de beber uma cerveja fresquinha no verão; ou, mesmo, no inverno?

Eu gosto e – às vezes – sabe mesmo bem; parece que nos faz reviver e nos acorda para a vida…

Não; isto não é uma apologia ao álcool. É bem sabido que a maior parte das sensações provocadas pelo álcool são somente sensações, porque o álcool engana os nossos sentidos, inebria-nos, faz-nos crer que estamos quentes – quando não estamos – ou frescos – quando, também, não estamos -, alegres e capazes de tudo – quando não o somos…

Havia um anúncio  na televisão portuguesa, em 1985, da Segurança Rodoviária Nacional, que ainda hoje – para mim – foi o melhor. Era uma cidade em miniatura com uma estrada em miniatura e, por ela, circulava um lápis – como se fosse um carro e com som de carro – que ia riscando a mini-estrada à medida que avançava; e à medida que avançava, e o lápis parava para beber um copo de vinho, via-se também a linha – traçada pelo lápis – a ir entortando, passando de direita a sinuosa, na mesma medida do vinho bebido e acompanhada pelos típicos chiados de pneus. E isto prosseguia, sob a narração de uma voz que ia descrevendo o estado de espírito do lápis a cada bebida consumida e alertando para os perigos do consumo do álcool para a condução; a dada altura, ouve-se a frase que ficou deste anúncio – aquela que as pessoas ainda hoje repetem: «Está eufórico; acha-se o melhor condutor do mundo!”; para, instantes depois, e mais um copo de vinho, ouvir-se uma travagem brusca e ver-se o bico do lápis a partir-se em direção às bermas… É isso mesmo: o álcool não é para brincadeiras, apesar de ser socialmente aceite…

No entanto, não era assim que eu me referia à cerveja; eu referia-me à cerveja bebida com contenção, a acompanhar uma refeição e em boa companhia. E referia-me particularmente a uma cerveja que está a passar um mau bocado: a corona. Porquê?

Por causa do vírus Corona.

É verdade. Há quem acredite que beber Corona pode transmitir o vírus. Isto ultrapassa – na minha perspectiva – a ignorância; é estupidez. E há mais coisas como esta… Há tantas que eu começo a achar que a estupidez humana é uma maior ameaça à nossa sobrevivência que este vírus. Há pessoas a enfiarem a cabeça em garrafões de plástico em transportes públicos, por exemplo… E, depois, há, ainda, a estupidez disfarçada de inteligência, projectada para o mundo com a eloquência do zurrar de um burro; como é o caso da frase de um dos portugueses que quis ficar em Huwan: «Isto é um vírus, não é uma guerra.”. A sério Sherlock?

E no que é que difere?

Ah! Já sei… Não se ouvem tiros nem se vêem pessoas armadas que te podem matar. Mas se calhar um vírus é pior, não?

Para um vírus novo não há vacinas, não há anticorpos naturais – que são uma espécie de colete à prova de balas; mas o pior é que, enquanto dos tiros podemos abrigar-nos atrás de uma parede, de um vírus não há paredes que nos salvem…

Portanto, sempre que há um surto como este, é como se fosse uma Guerra; uma Guerra contra um inimigo invisível. Acho que não há pior…

Há mais coisas neste surto que parece que estão a espantar as pessoas. Há quem fale em xenofobia face à China e aos chineses, porque as pessoas estão a evitar os chineses… Ora, eu cá não sei… Se o seu vizinho tiver uma doença contagiosa não o irá evitar? Será que estará a ser um xenófobo?

Está?!

Meu Deus: que ser humano horroroso que é!

Não é nada disso; deixemo-nos de hipocrisias. A isto chama-se lei da sobrevivência… Eu sei que isto parece estar esquecido, mas este nosso instinto sempre existiu e foi o que nos trouxe até aqui; foi Darwin quem o descobriu, mas sempre existiu… Nós faremos sempre as escolhas que nos garantam maior probabilidade de sobrevivência; por isso se isolou – se colocou sob quarentena – Huwan e vários milhões de pessoas: para impedir que eles espalhem a doença, caso a tenham.

Vi no outro dia um vídeo no Youtube onde Sadhguru, um guro indiano, se dirigia a uma plateia que o questionara sobre o Corona e os chineses – os sentimentos que os chineses têm tido sobre isto; e ele disse, muito sabiamente, que se está a confundir isolamento com descriminação; o isolamento é necessário para evitar facilitar o contágio, mas a descriminação não existe, porque a comunidade internacional está atenta e a ajudar conforme pode. No entanto, talvez seja assim do ponto de vista macro. E no micro?

Eu entendo que no dia-a-dia, nas relações interpessoais, há descriminação. As pessoas evitam os chineses – talvez passem para o outro lado da rua quando os vejam -, evitam ir aos restaurantes chineses e às lojas… E quanto a isto não há nada a fazer, porque é natural, pois todos gostamos da nossa vida – por mais irritados que andemos com ela – e queremos mantê-la. Para quê arriscarmo-nos a adoecer – e a morrer – para não ofender os sentimentos de alguém que nem conhecemos?

Não estranhem isto… Recordo-vos que as pessoas fogem de quem tem HIV e de que tem cancro! Porque não haveriam de fugir de alguém que pode ter uma doença desconhecida e que mata em pouco tempo?!

Todavia, acho que internacionalmente também há uma reacção diferente da tida com outros surtos. Não sei se poderemos considerá-la xenofobia, porque entendo que isso é uma visão estreita da questão, mas é sem dúvida proteccionista. E porquê?

Bom; para começar temos uma evidência inegável: é da china que têm partido as grandes ameaças epidémicas ao mundo. Além disso, os chineses têm hábitos culturais e alimentares estranhos, nos quais os surtos têm tido origem; e nunca houve qualquer acção das autoridades chineses para desencorajar estes comportamentos de risco. Depois, a China é um regime autoritário fechado; basta ver o tempo que demoraram para noticiar, ao mundo, o Corona, para recear que haja mais coisas das quais não sabemos.

Por outro lado, considero a reacção chinesa, à situação, excelente; e não tenho dúvidas de que estão a fazer tudo aquilo que podem fazer para resolver a emergência médica que criaram. Até ver…

Termino, lembrando que quando que há uma ameaça epidémica – sempre – o mundo treme a assusta-se; e, como o mundo é feito de pessoas, há reacções parvas, estúpidas, violentas, passivas, pacíficas, etc. No entanto, a melhor reacção para com as pessoas infectadas, e consequentemente para com a China – onde está a maioria (mais de 50000) –, é a compaixão e a melhor reacção para o Corona é a prevenção. Mas esta não tem de ser feita de um modo pesado, apocalíptico, receando a morte a qualquer momento – espalhando o medo e estigmatizando o mundo; pode ser feita de maneiras tão inovadoras como a que deixo aqui em jeito de partilha.

Imagem de Elchinator por Pixabay

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