Católico pelo direito de “palpitar”

Católico pelo direito de “palpitar”

A recente polêmica sobre o processo aberto pelo Centro D. Bosco e acatada pelo Ministério da Justiça de São Paulo abre uma discussão e uma reflexão sobre o significado da palavra e, sobretudo, do direito a seu uso.

Católico tem origem grega e significa universal. Portanto, foi uma “apropriação cultural”, feita pela Igreja para indicar sua abrangência e missão.

Com o tempo, a adoção pela Igreja fez da palavra um sinônimo de uma profissão de fé, de uma opção religiosa. Membros dessa Igreja são “Católicos” e a palavra, de certa forma, se desvinculou de seu significado original. Assim, é preciso discutir o que torna alguém, de fato, Católico.

Essa discussão já acontece, sutilmente, há muito tempo. A expressão “Católico não praticante” sempre foi muito comum entre nós, assumida por pessoas que foram educadas na fé Católica, até uma certa idade, mas que, por vários motivos, se desvincularam das práticas litúrgicas quando puderam decidir por si mesmas o que fazer de suas vidas e crenças.

Talvez por respeito aos que as encaminharam na fé, talvez pelo receio de assumir outras religiões em épocas em que não ser Católico era considerado um absurdo, em que outras religiões eram consideradas seitas e em que ecumenismo era uma palavra que não existia em nenhum dicionário, essas pessoas mantiveram uma identidade Católica desvinculada da instituição, semelhante talvez ao catolicismo do Brasil colônia, que, segundo Riolando Azzi, era, entre outras coisas, leigo, social e familiar.

É no mínimo questionável que uma instituição se sinta no direito de se apropriar de uma palavra que existia antes dela e proibir seu uso por quem discorda de suas ideias, mas também é questionável que alguém se afirme pertencente a um grupo do qual discorda radicalmente de quase tudo, que nem sempre valoriza suas práticas litúrgicas e que usa a palavra  como uma provocação à instituição que deu a ela um novo significado.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo que a organização Católicas pelo Direito de Decidir existe há muitos anos, o processo proibindo o uso do nome foi aberto por uma instituição que, apesar de também se dizer Católica, abriga o pensamento de direita mais conservador dessa Igreja. Em seu site aparecem imagens do Pe. Paulo Ricardo, que já apareceu em fotografias segurando armas, e de Missas celebradas como antes do Concílio Vaticano II, com o padre de costas para o povo. É essa instituição que se entende capaz de proibir o uso do nome, como se ela representasse o pensamento de todos os Católicos.

Na prática são dois extremos ligados a uma mesma instituição que almejam, por motivos diversos, o direito de se dizer parte dessa instituição.

Uma briga de egos e de ideologias, distante do cristianismo que tem como regra abrir mão do status como prática de humildade.

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