Afinal, ‘qu’est-ce que la prévisibilité?’ (algumas notas sobre Cannes 2021)

Afinal, ‘qu’est-ce que la prévisibilité?’ (algumas notas sobre Cannes 2021)

Depois de um ano de suspensão, por causa da pandemia do CoronaVírus, o Festival Internacional de Cinema de Cannes voltou a ocorrer, entre os dias 06 e 17 de julho de 2021. A despeito de a doença continuar ativa e de os números de contaminados em diversos países serem altíssimos, houve muitas aglomerações na Riviera Francesa e astros e estrelas cinematográficas desfilaram sem utilizar máscaras de proteção facial. Más notícias à frente? Quiçá, mas, por ora, é urgente comentar a excelente safra dos filmes em competição…

Devido ao não acontecimento da cerimônia no ano anterior, houve um acúmulo de produções apresentadas: vinte e quatro filmes competiam ao prêmio principal, sendo que este índice superlativo não era apenas quantitativo, mas sobretudo qualitativo. Os elogios da imprensa especializada aos filmes concorrentes foram aguerridos e entusiasmados. Exceto por uma ou outra situação [vide o mais recente trabalho de Sean Penn como diretor, “Flag Day” (2021), quase unanimemente defenestrado], as cotações foram benfazejas e elevadas.

Na transmissão das láureas mais aguardadas, no início da noite de sábado, 17 de julho, o presidente do Júri Oficial, o cineasta estadunidense Spike Lee, quebrou o protocolo e anunciou precipitadamente o título do filme a receber a Palma de Ouro: “Titane” (2021, de Julia Ducournau). Não se sabe se acidental ou intencionalmente, mas o importante é que esta foi apenas a segunda vez, na história do festival, em que uma diretora recebe este prêmio. A oportunidade anterior foi em 1993, quando a neozelandesa Jane Campion foi premiada por “O Piano”, num empate com o filme chinês “Adeus, Minha Concubina” (1993, de Chen Kaige).

Curiosamente, “Titane” era o favorito a receber o prêmio, além de não parecer imerecido, de modo que a “gafe” de Spike Lee traz à tona uma interessante discussão sobre a relevância concedida aos furos jornalísticos (e aos ‘spoilers’ tramáticos, por extensão) e contra o rigor ritualístico de cerimônias pomposas como esta. Quem pôde testemunhar alguns eventos publicitários relacionados ao evento, verificou o quão vexatório é o Festival, em termos de clichês organizacionais e retroalimentação de fofocas. Que o digam as sessões de fotos excessivamente posadas com os membros das equipes dos filmes concorrentes e as posteriores marchas pelos tapetes vermelhos. O mais importante não deveria ser o teor das obras apresentadas?

Felizmente, o júri levou esse aspecto em consideração, premiando os filmes mais elogiados pelos críticos: o musical sobre toxicidade relacional “Annette” (2021, de Leos Carax) recebeu o prêmio de Melhor Direção, que foi entregue aos músicos responsáveis pelas canções da obra, os irmãos que formam a dupla Sparks. O drama japonês “Drive My Car” (2021, de Ryusuke Hamaguchi) confirmou o sucesso encomiástico e recebeu o prêmio de Melhor Roteiro. As categorias de interpretação celebraram os talentos do estadunidense Caleb Landry Jones, por “Nitram” (2021, de Justin Kurzel), e da norueguesa Renate Reinsve, por “The Worst Person in the World” (2021, de Joachim Trier). E dois empates ocorreram em momentos-chave…

O Prêmio do Júri foi compartilhado entre “Ahed’s Knee” (2021), do israelense Nadav Lapid, e “Memoria” (2021), do tailandês Apichatpong Weerasethakul, que recebeu uma das mais entusiasmadas ovações do evento. Já o Grand Prix foi dividido entre a produção iraniana “A Hero” (2021, de Asghar Farhadi) e “Compartment nº 6”, dirigido pelo finlandês Juho Kuosmanen. Ao que parece, todos esses prêmios são justos, ainda que cineastas consagrados não tenham sido mencionados na cerimônia final, como Wes Anderson [que concorria por “A Crônica Francesa”], Paul Verhoeven [que dirigiu o polêmico “Benedetta”], Nanni Moretti [que abdicou de seu tradicional humor político em “Tre Piani”], Kirill Serebrennikov [que cumpre prisão domiciliar e não pode comparecer ao evento, para apresentar “Petrov’s Flu”], Jacques Audiard [por “Les Olympiads”], Bruno Dumont [por “França”], François Ozon [por “Tout C’est Bien Passé”] e Sean Baker [por “Red Rocket”], entre outros.

No que tange aos curtas-metragens, vale a pena enfatizar a produção brasileira “Céu de Agosto” (2020, de Jasmin Tenucci), que recebeu uma Menção Especial, enquanto a Palma de Ouro desta categoria foi para o filme de Hong Kong “All the Crows in the World” (2021), dirigido pela chinesa Tang Yi. Os outros filmes brasileiros que foram exibidos no Festival [“O Marinheiro das Montanhas” (2021, de Karim Aïnouz) e “Medusa” (2021, de Anita Rocha da Silveira)] obtiveram reações divergentes. Foi uma safra promissora, entretanto.

Aproveitando a relevância do que ocorreu no último dia do festival, seria oportuno reproduzir alguns trechos percucientes dos discursos, como quando Oliver Stone, ao entregar o Grand Prix, valorizou “os filmes que não são produzidos para alimentar algoritmos”, ou quando Spike Lee, ao ser novamente convocado para anunciar quem teria vencido o prêmio mais importante da noite, declarou que, em seus sessenta e três anos de existência, aprendeu que “tem direito a uma segunda chance”, enquanto desculpava-se pela leve confusão ocasionada. A laureada Julia Ducournau – que iniciou o seu agradecimento em inglês, pois recebera o prêmio das mãos de Sharon Stone – logo enfatizou: “falarei em francês, pois eu sou francesa”. Compreensível e merecido. Vejamos os filmes agora!

Wesley Pereira de Castro.

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