Aderindo ao côro reivindicativo: há alguma pessoa transexual em seu filme favorito?

Aderindo ao côro reivindicativo: há alguma pessoa transexual em seu filme favorito?

Desde 2004, o dia 29 de janeiro é consagrado, no Brasil, aos clamores pela visibilidade transexual. Escolhida por conta da instauração de uma campanha pioneira contra os atos de transfobia e em defesa do respeito às travestis, em Brasília, esta data segue chamando a atenção para os índices alarmantes de violência, física e moral, que é sofrida pela população transexual no Brasil.

Além de ser lamentavelmente conhecido como o país onde mais são assassinadas pessoas transexuais, no Brasil, a expectativa de vida para este grupo segue muito baixa, na média dos 35 anos de idade. Para quem ainda é jovem, isso também impacta na evasão escolar, que, segundo pesquisas, supera a marca de oitenta por centro. É neste sentido que um filme como “Valentina” (2020, de Cássio Pereira dos Santos) é tão importante.

Eleito o melhor filme ficcional brasileiro pelo Júri Popular da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e amplamente laureado no Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, em 2020, este filme foi escolhido como sessão de encerramento para a Mostra Tiradentes do Cinema Brasileiro, em 30 de janeiro de 2021, um dia após a data consagrada à visibilidade transexual. Serviu muito bem!

Protagonizado pela bióloga e ‘youtuber’ goiana Thiessa Woinbackk, o filme aborda as dificuldades por inserção comunitária de uma transexual adolescente, enfocando uma necessidade elementar: o direito de ter o nome social reconhecido na lista de chamada, durante as aulas do Ensino Médio. No que tange à defesa da personagem-título, a interpretação de Thiessa Woinbackk faz jus aos prêmios que recebeu, nos dois primeiros festivais supracitados: é ótima!

Na seqüência inicial, testemunhamos o rol de violência cotidiana a que Valentina é submetida: ela tenta forjar uma carteira de identidade, a fim de poder participar de uma festa de despedida numa boate, ao lado de suas amigas, já que está prestes a mudar de cidade. O porteiro da festa, entretanto, identifica a falsificação do documento e exige que a menina apresente a Carteira de Identidade verdadeira. Quando ela o faz, o porteiro a constrange, ao perceber que constam o nome e a fotografia de um rapaz: “não pedi para ver o documento de seu irmão, garota!”. Para piorar, Valentina é paquerada por um jovem que a beija de maneira brusca e, ao saber de sua transexualidade, a agride. Aos 17 anos, Valentina lida diuturnamente com o preconceito…

Quando sua mãe (vivida por Guta Stresser) é aprovada num concurso público numa cidade do interior de Minas Gerais, Valentina muda-se com ela: ambas viverão no município de Estrela do Sul, onde a mãe trabalhará como técnica de enfermagem e onde Valentina tenciona regressar aos estudos, visto que abandonara a escola há alguns meses, por não suportar as humilhações diárias. Na nova escola, entretanto, um problema exordial: apesar de a diretora Lindalva (Maria de Maria) reconhecer a validação legislativa do uso do nome social pela garota, este direito deve ser referendado pela assinatura do pai da mesma, que está desparecido. Inicia-se, assim, mais um percalço na vida da protagonista…

Enquanto esforça-se para contatar seu pai ausente, Valentina é convencida a assistir às aulas de recuperação escolar, no afã por reacostumar-se aos conteúdos perdidos. Pouco a pouco, aproxima-se de duas pessoas, com quem estabelece amizade: Amanda (Letícia Franco), uma adolescente grávida que possui conhecimentos avançados de Informática, e Júlio (Ronaldo Bonafro), um rapaz homossexual que, a despeito de sua trajetória erótica relativamente numerosa com os rapazes da região, nunca beijou na boca. Os dramas adolescentes interseccionar-se-ão nesta cidade pequena, sendo o clímax numa celebração de Ano Novo, quando Valentina será sexualmente assediada enquanto dorme, e um abusador mascarado descobrirá uma conformação genital distinta de sua identidade de gênero.

Como se percebe, um dos grandes méritos deste filme é a leveza de sua condução, que evita as tendências ideológicas frontalmente combativas, preferindo uma abordagem narrativa tradicional. Não obstante a assunção de que é uma garota transexual, Valentina adéqua-se gradualmente ao cotidiano pacato da cidade interiorana onde permite-se viver: cozinha com a mãe, diverte-se com os novos amigos e estuda bastante, pois é algo que gosta. Até que alguns vizinhos preconceituosos resolvem opor-se à sua matrícula na escola, ignorando que, em verdade, ela foi vítima de uma tentativa de estupro e agredida em mais de uma situação.

A reaparição do pai de Valentina, Renato (Rômulo Braga), oferta à mesma uma nova possibilidade de amparo, não tão freqüente nas estórias reais que inspiraram o roteiro do filme, infelizmente. Malgrado ter constituído outra família, Renato não refuta as decisões identitárias da garota e não hesita em chamá-la orgulhosamente de “minha filha”. Porém, isso não estende-se aos demais parentes: a mãe de Renato volta e meia refere-se a Valentina como Raul, ainda que não o faça com más intenções, e a família da nova esposa do pai é evangélica e intransigente, de modo que considera a transexualidade um pecado inaceitável. Resta a Valentina a decisão: ficar em Estrela do Sul e enfrentar uma luta similar à que vivenciara nas cidades anteriores em que morou ou viver com o pai e ser intimamente desconsiderada em sua própria residência.

O desfecho do filme diferencia-se da tônica cadenciada do início: adota-se uma postura cada vez mais permeada pelas intervenções policiais, mui necessárias, em razão de os assédios sofridos pela garota colocarem a sua vida em risco. Deste momento em diante, o filme precisa assumir um cariz mais combativo, de modo que Valentina é obrigada a altear a sua voz, a fim de requerer o direito de ser que ela é. Mais ou menos como ocorre com a personagem-título de outro longa-metragem brasileiro recente a abordar frontalmente a questão da transexualidade juvenil, “Alice Júnior” (2019, de Gil Baroni). Graças a títulos como esses, a pergunta que surge no título deste artigo passa a ser respondida de maneira cada vez mais afirmativa – sobretudo, pelas gerações mais jovens!

Wesley Pereira de Castro.

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