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A repetição na arte enquanto artifício político: homenageemos Paula Gaitán!

A repetição na arte enquanto artifício político: homenageemos Paula Gaitán!

Por causa das interdições aglomerativas ainda relacionadas à pandemia da COVID-19, a vigésima quarta edição da Mostra Tiradentes de Cinema Brasileiro precisou ocorrer virtualmente. Um dos festivais mais aguardados pelos críticos, em razão de trazer em seu bojo o catálogo de títulos do neo-novíssimo cinema brasileiro, esta mostra enfatiza justamente a invenção enquanto motor cinematográfico, no sentido dado pelo crítico Jairo Ferreira [1945-2003], correspondente à “estética da luz”.

A expressão em pauta abarca um tipo de filme cujos sons são melhor ouvidos por olhos livres e cujas imagens são melhor vistas por ouvidos livres, conforme paráfrase do autor. Sendo assim, os filmes selecionados para a Mostra Tiradentes possuem em comum a reflexão acerca das “vertentes da criação”, conforme sintetiza o jargão publicitário de uma das seções da safra 2021…

Além dos novos curtas e longas-metragens de uma geração mui recente de cineastas, há, nesta edição virtual de 2021 da Mostra Tiradentes, uma seleção de filmes destinada a homenagear a cineasta franco-colombiana Paula Gaitán, cuja filmografia condiz perfeitamente com aquilo que é apregoado pelos curadores da Mostra. Francis Vogner dos Reis, o coordenador curatorial da edição deste ano, refere-se costumeiramente a ela como instauradora de processos fílmicos que são contingenciais e intuitivos. São filmes que enfatizam justamente o processo, portanto, que não esgotam-se na filmagem ou posterior expectação. Requerem debate – e carecem disso para que funcionem efetivamente!

Dessa maneira, vários filmes da diretora são exibidos, incluindo-se a pré-estréia de seu mais novo trabalho, “Ostinato” (2021), sobre o método criativo do músico Arrigo Barnabé, que trabalhou com ela, como ator, em “Luz nos Trópicos” (2020). Filmada em 2018, a conversa que a diretora converte em experiência cinematográfica revela-se transcendental, em mais de um aspecto. Afinal, trata-se do encontro entre dois artistas de vanguarda, numa conjuntura dialogística que, num primeiro momento, finge certo convencionalismo documental, implodido pela poderosa significação do próprio título do filme.

Em termos musicais, ‘ostinato’ diz respeito à designação de padrões recorrentes em obras, que repetem-se como frases ao longo da música. Arrigo Barnabé clarifica isso logo na abertura do filme, quando explica os procedimentos de composição de seu icônico álbum “Clara Crocodilo” (1980), em companhia do também mui inventivo compositor Itamar Assumpção [1949-2003].

Ao invés de aderir à mera tônica da entrevista, a diretora – e, por extensão, o músico – entregam-se a um processo de contínua ressignificação dos temas abordados: inicialmente, a constituição do subgênero “música erudita popular”; pouco a pouco, uma reflexão sobre os impactos da arte no cotidiano das pessoas, a partir de um prisma inequivocamente político. Em dado momento, Arrigo Barnabé gaba-se do fato que o tipo de música que compõe jamais será assobiado por um torturador. E confessa que, quando era mais jovem, tencionava modificar o comportamento das pessoas através de sua arte. Não apenas conseguiu – em escala reduzida, porém não desconsiderável – como segue fazendo-o: aos quase setenta anos de idade, o compositor paranaense demonstra que envelheceu muito bem, tanto física quando discursivamente. Além de ainda estar muito bonito, mantém uma aplaudível sanidade política.

Não obstante a magnificência de seu entrevistado, o documentário não é-lhe subserviente: o que importa no filme é o diálogo, a construção de efeitos artísticos e filosóficos a partir do embate de idéias. A voz de Paula Gaitán não apenas é muito ouvida como converte-se em assunto também, a partir da discussão sobre o significado da palavra “escatologia”, utilizada pelo músico para conceituar a constante necessidade de superação de padrões por parte dos movimentos contemporâneos de vanguarda. Por mais que insista que não sabe teorizar muito bem, Arrigo Barnabé o faz de maneira genial: entrega-se à prática!

Servindo-se de uma montagem dinâmica, que combina instantes de mais de uma conversa filmada, a fim de atingir os seus objetivos demonstrativos, a diretora permite que afirmações já proferidas regressem num instante derradeiro, quase como se fosse um copião, em que as repetições convertem-se em ‘leitmotivs’, redimensionando a impressão de redundância. Ao fechar um ciclo situacional – visto que inicia-se e termina com a rememoração do surgimento das frases exordiais de “Clara Crocodilo” – o filme propõe-nos um experimento espectatorial que recorre ao circunlóquio, mas que, a despeito da modéstia do entrevistado, é também um tratado musical: que o diga o instante em que Arrigo Barnabé digressa sobre as revoluções da música brasileira, a partir do Tropicalismo, da Bossa Nova e de uma guinada erudita não necessariamente nacionalista, sobre a qual prefere não falar muito. No desfecho, a própria música barnabesiana é ouvida. Excelente, inclusive!

Na abertura do filme, há uma citação do compositor dodecafônico Arnold Schoenberg [1874-1951], que versa sobre a transformação de uma nota ocorrida a partir do cotejo com a inserção de uma nota posterior. Num dos momentos instrumentais mais belos do filme, Arrigo Barnabé executa “Canção dos Vaga-lumes”, que ficou famosa na voz de Tetê Espíndola, e que ele definiu como pertencente ao gênero peculiar “sertanejo lisérgico”. A citação é plenamente justificada, portanto.

Antes da disponibilização do média-metragem “Ostinato” no catálogo virtual da Mostra Tiradentes 2021, Paula Gaitán encontrou-se com colaboradores habituais (entre eles, os filhos Eryk Rocha e Ava Gaitán Rocha) e relembrou a primeira vez em que deparou-se com o músico Arrigo Barnabé num concerto e, impactada, “filmou-o sem ter pedido licença”. No filme recém-lançado, o acordo entre ambos é explicitamente emocional: trata-se de um enfrentamento galhardo aos “tempos sombrios” em que vivemos, para utilizar uma expressão da própria diretora. Numa rua movimentada, Arrigo Barnabé pára diante de uma tampa de esgoto e olha para cima. Entrega-nos, assim, um potente recado. A assimilação do mesmo depende de nossa co-participação, com olhos e ouvidos livres. Música é comunicação. Cinema também. Transcendência artística através da intersecção entre um e outro, idem: ato político!

Wesley Pereira de Castro.

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