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A palavra de 2020

A palavra de 2020

Estimado leitor, estamos quase no fim de 2020, o ano que todos querem esquecer. Provavelmente ao comer as suas 12 passas, nos derradeiros segundos do dia 31, vai desejar nunca mais querer ouvir sobre 2020. Certamente milhões o acompanharão nesse ensejo, e ninguém o recriminará por não querer recordar o ano que ora termina. Este texto é escrito em memória de uma das vítimas diretas da pandemia, e procura mostrar porque é que, ao invés de se tentar esquecer 2020, este ano deve ser para sempre lembrado.

Desde 2009 que a Porto Editora elege todos os anos uma palavra que pretende captar a “riqueza lexical e o dinamismo criativo da língua portuguesa, património vivo e precioso de todos os que nela se expressam, acentuando, assim, a importância das palavras e dos seus significados na produção individual e social dos sentidos com que vamos interpretando e construindo a própria vida” (www.palavradoano.pt). A eleição decorre de um processo de observação dos principais acontecimentos ao longo do ano, assim como de uma votação online entre os termos candidatos.

Os vencedores têm sido: esmiuçar (2009), vuvuzela (2010), austeridade (2011), entroikado (2012), bombeiro (2013), corrupção (2014), refugiado (2015), geringonça (2016), incêndios (2017), enfermeiro (2018), e violência doméstica (2019). Para 2020 a eleição decorre pela primeira vez em simultâneo com Angola e Moçambique, e tem como candidatas: confinamento, COVID-19, digitalização, discriminação, infodemia, pandemia, saudade, sem-abrigo, telescola, e zaragatoa.

A Porto Editora mima outros exemplos pelo mundo. Atente-se a três casos relativos a 2019: i) na Grécia: “Moria” (campo de refugiados na ilha de Lesbos); ii) na Rússia: “Допускай” (significando “tolerância”, e referindo-se ao desejo dos independentes para serem eleitos para a Duma Estatal da Assembleia Federal); e iii) no Irão: “قطعی اینترنت” (que significa “bloqueio da internet”, prática seguida pelo regime para suprimir os protestos populares em 2019, e que isolou o país durante vários dias em novembro desse ano).

Retornando ao presente, é interessante notar que enquanto as palavras de 2009 a 2019 evocam experiências muito próprias da realidade nacional, várias das candidatas para 2020 representam a vivência coletiva à escala planetária. A palavra “pandemia” já foi escolhida pela Merriam-Webster e pelo Dictionary.com para o ano corrente, por exemplo.

O Japão também elegeu em dezembro o seu “kanji” (caracter) do ano: 密 (“mitsu”). As televisões transmitiram em direto de Quioto o acontecimento, mostrando o monge Seihan Mori a caligrafar o símbolo numa folha de papel com 1,5 metros de comprimento. “Mitsu” surge por referência a uma exortação governamental durante a pandemia, comunicada como 3密 (“san mitsu”), e que em inglês se traduziria como 3Cs, exprimindo o evitamento de frequentar: i) espaços fechados (“closed spaces”); ii) multidões (“crowds”); e iii) contatos próximos (“close contacts”). Por si só “mitsu” significa “perto” ou “denso”, o que adiciona uma interpretação alternativa: o de estar mais perto dos seus, pelo dever de permanecer fechado em casa. Numa cultura em que amiúde um caracter encela um sentido duplo, a escolha deste kanji não podia ser mais acertada.

É por isso que 2020 não deve ser esquecido. De facto, deve ser sempre recordado.

Foi em 2020 que a Humanidade se vergou perante um organismo global, veloz, e mortal. Um vírus que não distinguiu raças, credos, géneros, idades, ou classes sociais. Todos são iguais perante este ser invisível, que ademais parece querer avisar que não há donos do mundo. A memória de que o ser humano não se deve achar superior a nenhum outro ser com quem partilha o planeta, não deve ser apagada.

Foi em 2020 que a Economia deu lugar à Saúde, e que as prioridades nacionais e supranacionais se inverteram, colocando as pessoas no centro das economias, em vez das economias no centro das pessoas. Os ideais de lucro e produtividade foram substituídos pelos de saúde e proteção. Falou-se mais em hospitais e profissionais de saúde, do que em bolsas financeiras e dinheiro. A memória de que acima dos interesses materiais, pode estar a saúde e a vida, não deve ser apagada.

Foi em 2020 que a ciência médica embarcou num esforço sem precedentes, não olhando a meios nem a custos, para conseguir criar num tempo recorde um conjunto de vacinas destinadas ao início da contraofensiva na guerra biológica mundial. As tecnologias utilizadas e a capacidade de se gerarem alianças científicas entre países marcam uma mudança paradigmática na forma de desenvolvimento de medicamentos que o futuro se encarregará de consolidar. A memória de que a colaboração pode levar a mais progresso do que a competição, não deve ser apagada.

Foi em 2020 que a liberdade de movimentos à escala planetária, o turismo, o lazer e as viagens, e a globalização dos negócios, foram trocados pelos confinamentos generalizados, pelas máscaras e desinfetantes, e pela reposição de fronteiras entre nações. O mundo percebeu que num curto espaço de tempo é possível inverter marchas coletivas em direções tidas como certas. A memória de que uma cultura dominante pode ser alterada para outra muito diferente, não deve ser apagada.

E foi em 2020 que milhões de pessoas sofreram direta ou indiretamente os efeitos de uma ameaça global. A Peste Negra no Séc. XIV e a Gripe Espanhola em 1918-1920 chegaram a todas as casas e a todas as famílias, não apenas ceifando milhões de vida, mas também levando a profundas mudanças nas respetivas sociedades nos anos subsequentes às pandemias. A COVID-19 terá um desfecho análogo, com 2021 a marcar o início de um rol de transformações ainda difíceis de imaginar. Pelo que virão a ser 2021 e os anos seguintes, mas sobretudo pela memória dos milhões de pessoas que perderam a batalha contra o vírus, é que 2020 nunca poderá ser esquecido.

Se do ano que agora termina não se retirarem estas e outras aprendizagens, então tudo terá sido em vão. A evolução não se dá apenas com pequenos incrementos indolores. Os maiores saltos evolutivos decorrem frequentemente de grandes mudanças dolorosas (*).

(*) Para JJ, que chegou e partiu em 2020, e a quem a distância, o vírus, e a incúria dos homens roubaram a possibilidade de um maravilhoso futuro. Apenas mais um número numa longa lista de tragédias num ano para esquecer, mas cuja breve existência para sempre ficará marcada nos seus pais, irmão, avós, e demais familiares. Requiescat in pace.

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