A interpretação da fé, das obras e do conceito de salvação (1ª Parte)

A interpretação da fé, das obras e do conceito de salvação (1ª Parte)

Este artigo é um tanto longo para ser publicado de uma só vez. Por isso vou dividi-lo em duas partes. Nessa primeira, abordo as questões da fé desde a idade média, com a venda das indulgências e a Reforma Protestante até a chegada do Protestantismo ao Brasil, com os primeiros imigrantes que vieram após a abolição da escravidão.

Andar com fé eu vou…

A venda de indulgências, proposta pelo Papa Leão X como forma de arrecadar fundos para a basílica de São Pedro, foi a gota que fez o cálice da paciência do monge agostiniano, Martinho Lutero, transbordar e que o levou a fixar suas 95 teses na porta da catedral de Wittenberg, Alemanha, em 1517, dando início ao que se tornaria a Reforma Protestante.

A proposta de Leão X se baseava na interpretação descontextualizada de um trecho da carta de Thiago em que ele diz que a fé sem as obras é morta (Tg 2, 14-23). Para o papa, construir a igreja era uma dessas obras a que o texto bíblico se referia e, portanto, nada mais justo do que doar dinheiro para ela em troca de uma garantia de salvação pelas indulgências adquiridas com a doação. A questão é que isso dava aos ricos mais chances de serem salvos do que aos pobres.

Lutero se revoltou, criticou a carta de Thiago e acabou sendo excomungado, dando início à Igreja Luterana e ao movimento de reforma que protestava contra a Igreja Católica, que por sua vez respondeu com o Concílio de Trento (1545-1563), reafirmando vários dos conceitos e dogmas questionados por Lutero e por outros reformistas europeus que seguiram seu exemplo.

Eram tempos difíceis para uma Europa que saía da Idade Média e da mortandade causada pelas guerras e pela peste negra, cujo terror ainda inspirava artistas como Pieter Bruegel, que em 1562 pintou “O triunfo da Morte”.  Soma-se a isso o medo escatológico do qual, segundo Delumeau, Lutero compartilhava. “O nascimento da Reforma Protestante será mal compreendido se não o situarmos na atmosfera de fim de mundo que reinava na Europa e especialmente na Alemanha”. (DELUMEAU, 2019, p.329)

Tempos em que a morte era muito presente e quando, certamente, cuidar da alma era mais importante do que cuidar do corpo, na esperança de uma vida pós-morte, sem os sofrimentos desse mundo.  A salvação da alma era uma mercadoria valiosa, num mercado ávido por obtê-la.

As ordens missionárias que no século XVI saíram da Europa, desembarcaram na África e nas colônias europeias trazendo a mentalidade do Concílio de Trento e o propósito de converter e salvar almas.

Os séculos se passaram, veio a Revolução Francesa, o Iluminismo, e o mundo se tornou mais laico e materialista. Chegamos ao século XX perguntando se Deus estaria de fato morto, como Nietzsche afirmava alguns anos antes. Especialmente a partir da década de 60, o mundo mudou radicalmente e a religião, de modo particular a Católica, deixou de ser tão importante, a despeito do Concílio Vaticano II (1962-1965), que tinha como uma das propostas, reverter essa situação. Além disso, a importância desse concílio e de seus desdobramentos, como a Conferência de Medelín[1] (1968), foram limitados e questionados na América do Sul e particularmente no Brasil, numa época em que a ditadura militar rotulava as questões sociais como comunismo e perseguia quem se envolvesse com elas.

Os imigrantes começaram a chegar por aqui com o fim da escravidão e com eles vieram as religiões que praticavam, particularmente o Budismo e o Cristianismo Luterano. Ainda que fosse difícil estabelecer qualquer outro culto num país oficialmente católico, chegamos a 1974, em plena ditadura militar, com o pastor Batista americano Billy Graham[2] levando mais de 200 mil pessoas para ouvir sua pregação no estádio do Maracanã, o maior estádio de futebol do mundo, naquela época.

O Brasil, assim como o mundo, passou todo o século XX polarizado ente o comunismo e o capitalismo, considerados como forças opostas e inconciliáveis. Nos anos 60 o país, oficialmente católico, temia o ateísmo comunista.  E se os ecos do Vaticano II e da Teologia da Libertação eram raramente ouvidos, ao longo de século, o capitalismo transfigurado no Neoliberalismo expandiu seus limites, aumentou a distância social entre ricos e pobres e abriu espaço para um cristianismo cujas origens estavam na teologia Calvinista/Presbiteriana, base do capitalismo americano sempre bem-vindo por aqui. A morte e o juízo final já não amedrontavam tanto e a vida nesse mundo assumia um novo sentido, fundamentado no consumo. A salvação da alma passava a ser tão ou menos importante que o bem-estar do corpo, que também passou a ser procurado e oferecido em campanhas publicitárias que o associavam à posse dos bens de consumo. É esse o solo fértil onde brotará a chamada Teologia da Prosperidade e quando um novo tipo de indulgência começará a ser oferecida.

Na segunda parte esse texto, concluirei  essa reflexão sobre a comercialização da fé.

[1] A Conferência de Medelín, na Colômbia, teve como proposta a adaptação das decisões do Vaticano II para a América Latina e como uma das principais consequências o surgimento da Teologia da Libertação, que se voltava especialmente para as questões sociais e para a solidariedade com os pobres, questionando a maioria dos valores do Capitalismo.

[2] Billy Graham esteve duas vezes no Brasil, a primeira em 1960 e a segunda em 1974. Não é absurdo supor que suas vindas, especialmente a segunda, como pastor e como americano, estava alinhada com os interesses de um regime militar inimigo do comunismo e que, nessa época, enfrentava oposição de vários padres e bispos da Igreja Católica.

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