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Sepulturas e rituais funerários do Neolítico não megalíticas

Sepulturas e rituais funerários do Neolítico não megalíticas

A arquitectura funerária das comunidades neolíticas não teve apenas expressão megalítica, havendo sepulturas que não se relacionavam com a monumentalidade dessas outras em vigor. Este texto aborda as suas tipologias e os locais onde se destacam, o espólio encontrado, a longevidade estimada para os indivíduos nelas enterrados e os rituais conjecturados para a época.

Quanto às suas tipologias estas podiam adoptar diferentes configurações: sepulturas escavadas em covachos, prática herdada do Mesolítico; utilização de grutas naturais como necrópoles colectivas, como é caso evidente a Estremadura e Beira Litoral; aproveitamento das cavidades naturais da geologia, conforme aconteceu com as sepulturas existentes nas anfractuosidades do lapiás, nas imediações do povoado de Salemas, em Loures; organização em conjuntos de silos funerários, conforme é o caso da necrópole de Aljezur; estruturação de grutas artificiais, também denominadas de hipogeus, geralmente encontradas em solos facilmente escaváveis, sobretudo no Neolítico final, dos quais é exemplo o hipogeu da Quinta do Anjo, em Palmela e a necrópole de Alapraia, em Cascais.

É de salientar o caso dos hipogeus uma vez que têm afinidades arquitectónicas com o apogeu do megalitismo. Essas afinidades assinalam-se com a existência de átrio exterior seguido de um corredor, paredes bombeadas, totalmente escavado na rocha, com declive para o seu interior, dando passagem para uma câmara circular em forma de calote esférica, através de uma porta arredondada, por vezes com formato em ferradura. Esta câmara dispõe de uma clarabóia, permitindo a iluminação natural do espaço, seu arejamento e acesso ao interior.

No tocante aos rituais funerários, salienta-se o facto de, em geral, os indivíduos estarem acompanhados de oferendas. Estas podiam ser destinadas exclusivamente à cerimónia de enterramento, quando não existem indícios de utilização anteriores a esse propósito, geralmente permanecendo em boas condições, ou podiam ser oferendas intimamente ligadas à vida da pessoa inumada, nomeadamente objectos por ela utilizada. Verifica-se também a presença de ocre vermelho polvilhado nas superfícies. Deixa-se como exemplo de um ritual aquele descrito pelos exploradores da necrópole da Lapa do Fumo (Serrão e Marques, 1971):

Abertura da cova de fundo plano; alisamento e pavimentação da base com lajes de barro cru (talvez para dar resposta à necessidade de isolamento da superfície); deposição de ossos humanos fragmentados, previamente descarnados e desarticulados; ateamento de fogueiras de pequena dimensão (dada a presença de manchas e carvões); deposição do espólio lítico e cerâmico; polvilhamento de todo o conjunto com ocre vermelho; recobrimento com terra sobre  todo o conjunto.

Nas grutas, os cadáveres eram colocados no chão. Os ossos eram muitas vezes trasladados de outros locais ou rearranjados, pois existem diversos padrões de deposições e muitas vezes não está presente a totalidade dos ossos de cada indivíduo. No caso da gruta do Escoural, em Montemor-o-Novo, verifica-se que, por vezes, se aproveitaram as cavidades das paredes laterais. No caso da Lapa da Galinha, em Torres Novas e a Lapa do Bugio em Sesimbra, as dezenas de sepulturas escavadas também se encontravam delimitadas por pequenos muretes ou outro tipo de ortóstatos (construções verticais).

No que respeita à quantidade de indivíduos sepultados, é um número que varia consoante a dimensão da sepultura e do seu período de utilização.

Por exemplo, o número de indivíduos sepultados em grutas podia ascender às centenas, conforme aconteceu no Algar do Bom Santo (Tomar), onde os arqueólogos levantaram 127 indivíduos à superfície. Estima-se que este Algar tenha sido utilizado durante 500 anos no período compreendido entre 3750 e 3250 a.C., segundo os dados provenientes da datação por radiocarbono.

No caso dos silos conhecidos, como acontece com a necrópole de Aljezur, a deposição dos restos humanos foi feita em posição flectida e acompanhados de numerosos artefactos. Quanto ao número de sepultamentos, este varia. No caso do sepulcro de Monte Canelas, em Portimão, composta por duas criptas, detectaram-se cerca de setenta indivíduos.

Relativamente à longevidade destas comunidades, o estudo antropológico feito aos cadáveres da gruta do Lugar do Canto, em Alcanede, resultou numa probabilidade situada entre os 20 e os 35 anos de idade, sendo que existe um crânio de um homem com mais de 50 anos e de uma criança com menos de 10 anos. As causas de morte apuradas para esta necrópole, através da análise aos crânios, foram traumatismos e infecções, sendo os traumatismos uma das principais causas de morte, o que indica a existência de conflitos. Em 4 crânios detectaram-se trepanações (perfurações feitas com um objecto cortante), sendo que alguns sobreviveram e se regeneraram e outros não.

No restante conjunto de ossos, também as fracturas e luxações são comuns.
Para datar a cronologia e a fase cultural dos locais de enterramento é o espólio a eles associado que contribui para caracterizar os momentos em que foram utilizados ou reutilizados, fazendo deste um conjunto característico de uma determinada época cronológica e cultural.

O espólio característico do Neolítico Antigo, para além dos esqueletos ou ossadas, é comummente composto por micrólitos, machados e enxós de pedra polida, e geométricos. A partir do Neolítico Médio aparecem elementos de cerâmica essencialmente lisa podendo a ocorrência de decorações ser feita por incisas, como é o caso das grinaldas abaixo do bordo. Também se encontram furadores de osso e objectos de adorno, como pulseiras de conchas, contas de colar.

No Neolítico Final, em geral, começam a verificar-se pontas de seta, grandes quantidades de lâminas em sílex, cerâmicas carenadas, vasos de boca elíptica, alabardas (longas hastes) de cuidado bifacial, alfinetes de osso com cabeça amovível canelada, placas e báculos de xisto e ídolos almerienses. Pela sua riqueza e nível de prestígio social, destaca-se o espólio recolhido em grutas artificias na Estremadura, composto por núcleos de cristal de rocha, grandes contas de variscite e contas de fluorite, mineral oriundo dos pegmatitos graníticos da Beira Alta, rocha granulosa com base de feldspato e quartzo, a mais de 300km de distância da Estremadura.

As sepulturas mais icónicas deste período são a sepultura do Vale das Lages, em Alenquer, e as sepulturas aproveitando as anfractuosidades do lapiás, o povoado de Salemas, em Loures.

As necrópoles colectivas em grutas naturais que se destacam são a gruta do Caldeirão e a gruta do Cadaval, em Tomar, o abrigo da Pena D´Água, gruta do Lugar do Canto, em Alcanede, Lapa do Fumo e Lapa do Bugio, em Sesimbra, gruta da Feteira, na Lourinhã, gruta dos Alqueves, junto ao Mondego, a gruta do Almonda, o Algar do Picoto, a Lapa da Bugalheira ou Sala do Ricardo, a Lapa dos Namorados e a Lapa da Galinha, em Torres Novas, a Casa da Moura, em Óbidos, a gruta da Eira da Pedrinha, em Condeixa, a gruta do Correio-Mor, em Loures, a gruta da Furninha, em Peniche, as grutas da Senhora da Luz, o Abrigo Grande das Bocas, em Rio Maior, a gruta do Escoural, em Montemor-o-Novo, as furnas de Mexilhoeira da Carregação, em Lagoa e a gruta do Algarão da Goldra, em Faro.

No tocante às grutas artificiais ou hipogeus, salientam-se o da Quinta do Anjo, em Palmela, a necrópole de Alapraia, em Cascais, a necrópole de Carenque, na Amadora, a gruta artificial da Praia das Maçãs e o sepulcro de Monte Canelas, em Portimão.

Dos silos funerários, destacam-se a necrópole das Lapas, em Torres Novas e a necrópole de Aljezur.

 

CARDOSO, João Luís – Pré-História de Portugal. Documento PDF. Manual de Pré e Proto História. 1º ciclo de estudos em História. Acessível na Plataforma de E-Learning da Universidade Aberta.

 

SERRÃO, E. da Cunha, MARQUES, G. – Estrato pré-campaniforme da Lapa do Fumo (Sesimbra). II Congresso Nacional de Arqueologia (Coimbra, 1970). Actas. Coimbr, 1, pp.121-142

 

Imagem gratuita em Pixabay

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