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O efeito borboleta: Parte 2

O efeito borboleta: Parte 2

A parte 1 deste texto foi publicada em março de 2020, um par de semanas depois da World Health Organization (WHO) ter declarado o início da pandemia. Nesse texto enumeravam-se algumas lições que se poderiam tirar do momento sombrio que então era vivido pelo mundo, e prometia-se retomar a análise um ano depois.

Com um atraso de um ano importa refletir sobre a atualidade das cogitações expostas em 2020. Quando o primeiro texto foi escrito, havia 200 mil pessoas infetadas com covid-19 em mais de 160 países, e 7.800 fatalidades. Em abril de 2022, os números oficiais são colossais: 510 milhões de infetados em 230 territórios, e mais de 6 milhões de mortos (https://www.worldometers.info/coronavirus/).

No entanto, a pandemia deixou de ser o assunto que capitaliza as atenções, tendo sido substituída por outros temas, como a economia e o conflito na Europa. Assim, apesar da queda acentuada dos principais indicadores económicos no segundo trimestre de 2020, as agressivas políticas fiscais e monetárias implementadas por governos um pouco por todo o lado permitiram estabilizar as economias até finais de 2021, altura em que começaram a observar-se pendentes inflacionistas em vários países e regiões.

O efeito borboleta ainda se faz sentir, mantendo-se a perspetiva de futuros tufões causados pelos vários bater de asas de borboletas a que se tem assistido na ainda jovem década dos anos 20. Quais as aprendizagens que eram destacadas no texto de março de 2020, e que nova breve reflexão se pode fazer sobre os mesmos?

A primeira reportava ao conhecimento técnico e à criação da capacidade para combater futuras pandemias. Os dois anos que passaram confirmam este registo, não só pelo desenvolvimento de vacinas em tempo recorde, usando tecnologias que permitem combater novos micro-organismos, mas também pela capacidade de unir esforços a nível global para lutar em conjunto contra uma ameaça também ela global.

O segundo motivo para reflexão prendia-se com o medo gerado pelo desconhecido. Nos primeiros meses da pandemia, estão ainda presentes as imagens de cidades inteiras vazias, com as pessoas retidas em suas casas, saindo apenas para emergências. De uma forma generalizada, os governos adotaram medidas muito duras para controlo da infeção, mas que tiveram igualmente o condão de controlar potenciais desordens no plano social. Entretanto, o medo do covid-19 parece ter desaparecido, o que atesta a capacidade adaptativa do ser humano a um novo contexto.

A terceira linha de pensamentos aludia às mudanças social, cultural e política. Volvidos dois anos, algumas mudanças são de facto radicais, ainda que se encontrem muito na sua infância. Veja-se o exemplo do trabalho e do ensino remoto, que revolucionam o mundo do trabalho e da educação. E atente-se ao valor das comunidades locais e nacionais, não apenas em termos da independência produtiva que proporcionam, mas também do apoio aos mais desfavorecidos.

A quarta reflexão dizia respeito à redução da poluição, cujos níveis reduziram drasticamente nos primeiros meses de 2020, devido ao abrandamento forçado da atividade humana. Mas a tendência rapidamente se inverteu, pois em 2021 retomou-se a exploração intensa dos recursos do planeta e o consumismo atávico. A propósito do UN Climate Report, publicado em abril de 2022 pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change, organismo da ONU que estuda as alterações climáticas), o Secretário-Geral da ONU reforçou a ideia de que “é agora ou nunca”, referindo-se ao limite de aquecimento global de 1,5ºC. António Guterres avisou que se não houver uma ação imediata e concertada dos países para limitar a emissão de gases com efeitos de estufa, o mundo tornar-se-á inabitável em breve.

A quinta aprendizagem realçava o papel dos sistemas nacionais de saúde e da WHO no combate à pandemia. Os profissionais de saúde e serviços relacionados têm travado uma guerra brutal contra um inimigo invisível, e se os números atrás expostos sobre as vítimas do covid-19 parecem elevados, eles não o são muito mais devido ao esforço incansável e abnegado de uma legião de lutadores. O reconhecimento destes profissionais e dos sistemas que integram é merecido, tal como deve ser reforçada a lição de que a saúde é um recurso muito diferente dos outros recursos, que não pode nem deve ser gerida como o capital ou as matérias-primas.

O sexto elemento comparava as medidas levadas a cabo pelas democracias europeias para lidar com a propagação da doença, com as que a China havia implementado. Na altura o gigante asiático tinha uma política de tolerância zero para com o covid-19, impondo limites draconianos à mobilidade individual sempre que fossem detetadas infeções. Esta política mantém-se até ao momento, com o exemplo de Shangai, onde 25 milhões de pessoas estão desde final de março de 2022 impedidas de sair à rua devido ao crescimento de infeções. Quando se comparam os números, as democracias europeias parecem ter falhado miseravelmente, pois são 170 milhões de infetados contra 210 mil na China, e 1,4 milhões de mortos contra 4.800. Todavia, na Europa trabalha-se já (quase) normalmente, circula-se (quase) normalmente, e vive-se (quase) normalmente. As políticas de supressão das liberdades individuais nas democracias europeias foram revertidas, enquanto na China a política de supressão das mesmas liberdades não dá sinais de abrandamento. Serão precisos ainda alguns meses para verificar o sucesso de uns e outros.

A última lição aduzida no texto de março de 2020 era relativa à necessidade do Estado. Escrevia-se que, ao contrário dos sistemas capitalistas de inspiração americana, “apenas os Estados têm as motivações e os meios para salvar pessoas sem olhar à sua idade, credo ou condição social”. O exemplo mais pungente deste desígnio fundamental dos Estados foi precisamente observado durante a Administração Trump, e a subsequente inversão de posição com a Administração Biden. Enquanto para o presidente Trump a pandemia era um elemento de somenos importância, para o presidente Biden ela tornou-se um fator crucial. As políticas entre os dois não podiam ser mais divergentes, e incluíram a vacinação, o uso de medidas de proteção individual, e a limitação de circulação nos estados mais afetados. Biden mostrou que até nas democracias mais liberais o mercado não pode ter o papel último de regulação.

O fim da pandemia poderá ser declarado pela WHO ainda em 2022, mas as suas consequências perdurarão por décadas. Entretanto, outras crises ameaçam a Humanidade, mormente a invasão da Ucrânia e subsequentes impactos sobre o equilíbrio geopolítico e a economia mundial. E, talvez acima de todas as crises, a crise climática, cujo efeito cada vez mais provável é a 6ª extinção em massa da maioria das espécies do planeta. Este e outros temas serão abordados pelo autor nos próximos textos em A Pátria.

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