Enquanto você lê estas linhas, uma fronteira está sendo atravessada. Não se trata apenas de uma invasão por tanques em solo estrangeiro ou de uma disputa por marcos geográficos na Venezuela, mas de uma incursão silenciosa que ocorre a poucos centímetros do seu rosto. Em 2026, a soberania — aquele ‘poder supremo’ que aprendemos nos livros de história — foi sequestrada pelas redes de capitais e pelos algoritmos de atenção. Hoje, um Estado pode ser paralisado por um clique em um escritório bancário em Londres, da mesma forma que a sua autonomia é confiscada a cada notificação que dita o que você deve sentir, postar ou consumir. Bem-vindo à era da soberania sitiada, onde o controle do seu destino não pertence mais a você, nem ao seu governo, mas ao maior lance do mercado financeiro.


O ano de 2026 inicia sob uma névoa de estranheza conceitual. A palavra “soberania”, outrora um pilar inabalável do Direito Internacional e da autonomia humana, atravessa uma metamorfose radical. Do latim supremitas e potestas, o termo designa o “Poder Supremo” — aquele acima do qual nada existe. Todavia, na prática contemporânea, esse conceito parece estar sendo asfixiado por um novo e onipresente soberano: o poder financeiro transnacional.
Confesso que com certa ingenuidade, pensava ser a soberania algo inabalável, protegida por leis modernas e organizações internacionais sólidas, criadas no pós-guerra com o objetivo de estabelecer o diálogo e a paz entre as nações. Mas hoje, diante do desmoronamento do conceito, começo a pensar que estamos sozinhos, entregues ao destino, traçado pelos caminhos financeiros.
O tripé rachado do Estado moderno
Para decifrar o presente, é preciso revisitar o nascimento do Estado Moderno, emergindo das cinzas do feudalismo, ele se consolidou sobre um tripé vital: um povo unido, um território delimitado e a soberania para protegê-los. Historicamente, essa soberania era exercida em duas frentes. Internamente, combatendo poderes paralelos como milícias e crime organizado; externamente, repelindo invasões militares e imposições estrangeiras.
Em teoria, ser soberano é ter a palavra final sobre o próprio destino. Na prática de 2026, essa definição tornou-se uma miragem geográfica
A fronteira invadida: o “Eu” sob algoritmo
A soberania no século XXI não se defende apenas com canhões, mas com autonomia tecnológica e bancária. O caso recente da Venezuela ilustra o fenômeno da “soberania sitiada”. O sistema financeiro internacional tornou-se uma rede nervosa global: ser desconectado do sistema SWIFT ou ter ativos congelados em bancos estrangeiros — como as 31 toneladas de ouro venezuelano retidas em Londres[1] — equivale a uma paralisia estatal.
É fato, facilmente constatável pelo noticiário mundial, que além do processo de paralisia estatal, a Venezuela passava por problemas graves relacionados ao abuso do poder governamental e eleições duvidosas. Mas também é fato, que para uma possível invasão naquele país e sequestro de seu Presidente, como o ocorrido tendo como protagonista o atual governo americano, seria preciso uma autorização do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), o que não ocorreu neste caso, pois não havia uma ameaça concreta que justificasse legítima defesa.
O chefe de gabinete adjunto da Casa Branca, Stephen Miller, caracterizou o envolvimento americano na Venezuela como uma “operação militar em andamento”, mesmo que o governo tenha afirmado que a captura de Maduro foi uma ação policial. Ele disse à CNN que os EUA estão usando seu controle sobre a economia venezuelana como forma de pressionar o novo governo a fazer o que Trump quer. (CNN — Brasil)[2]
Diante deste episódio registrado na Venezuela, é preciso atenção para os riscos que esse precedente pode representar para outros países da América do Sul, Europa ou mesmo outras localidades antes tranquilas e desconectadas do movimento financeiro frenético mundial, como no caso recente da Groelândia[3].
Talvez esse movimento de erosão da soberania tenha começado silenciosamente, bem antes das últimas ações do governo americano, de forma “lúdica”, silenciosa e viciante. Quem sabe ela tenha começado nas suas mãos!
Caro leitor (a), a erosão da soberania não para nas fronteiras nacionais; ela atravessa as telas e invade a vida privada. O homem adulto moderno, que deveria ser o ápice da autonomia e da razão, capitulou. A invasão ocorreu sem tiros, mas com notificações.
A necessidade desesperada de aceitação transformou o indivíduo em um vassalo do algoritmo. A soberania individual — o espaço sagrado da privacidade e da escolha — foi trocada por uma “moeda de curtidas”. O pavor de ser “desligado” das redes sociais é a nova morte civil. Nesse regime, a autonomia é sacrificada no altar da aprovação imediata: moldamos pensamentos e estéticas para não sermos excluídos da tribo digital.
Essa necessidade de aceitação seguida de uma dependência das redes sociais para ficar “informado sem fronteiras”, foi objeto de estudo do estrategista de marketing norte-americano Dan Herman, e ganhou o nome de Fear of Missing Out (FoMo) ou “medo de estar perdendo algo”.
Para o pesquisador da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, João Flávio de Almeida, o FoMo é um sintoma do novo modelo de consciência instaurado na sociedade. A consciência humana, argumenta Almeida, é constituída pela linguagem e moldada pela comunicação. Assim, o professor diz que, com as invenções tecnológicas e o mundo digital, a mente humana deixou de ser dona de seu próprio modo de agir e virou uma espécie de “funcionária de sua própria invenção”. (Jornal da USP — Campus Ribeirão Preto – por Tainá Lourenço)[4]
Tomando como exemplo o país onde resido – Brasil – com base em dados coletados no ano de 2025 pela Agência Arriminum[5], “entre os vinte aplicativos mais usados pelos 72,4 milhões de brasileiros conectados através de smartphones, seis são de redes sociais ou de troca de mensagens, quatro são de bancos, três são de e-mail e dois são de mapas e localização”.
Em termos mundiais, o relatório ‘State of Social 2025’[6], elaborado pela Comscore[7] revelou que 72% da população digital global esteve exposta a plataformas sociais durante o último ano.
Onde termina a minha soberania e começa a sua?
Onde termina a soberania de um país e começa a do outro dentro de uma economia conectada?
O ato mais subversivo de todos
O paralelo entre o colapso das nações e a capitulação do indivíduo revela o poder financeiro como o grande condutor da modernidade. O algoritmo é o Banco Central das emoções. Assim como o Estado se torna um território desnacionalizado ao perder sua independência econômica, o homem torna-se um território despersonalizado ao entregar sua atenção ao capital tecnológico.
Se a soberania é o Poder Supremo, em 2026 ela é um artigo de luxo. Ser verdadeiramente soberano hoje exige o ato mais subversivo de todos: a capacidade de ser autossuficiente no silêncio e independente de um sistema que nos quer, a todo custo, conectados, endividados e visíveis.
Para finalizar, lanço mão de uma imagem, que desamparada, traduz o texto até aqui exposto:


Agentes do ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos, apreenderam um menino de cinco anos durante uma batida de imigração em Minneapolis e usaram-no como isca para tentar entrar em uma casa e prender mais imigrantes, disse nesta quinta-feira (22) uma escola da cidade. (Fonte: Jornal Folha de São Paulo — Atualizado: 23.jan.2026)
[1]Cerca de 31 toneladas de ouro, que integram as reservas internacionais do Banco Central da Venezuela (BCV), estão depositadas no Banco da Inglaterra e, há mais de cinco anos, são alvo de uma disputa judicial ainda não resolvida nos tribunais britânicos entre o governo Maduro e a oposição venezuelana. – Saiba mais em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cq6vyj0mg07o
[2] Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-pode-acontecer-a-seguir-na-venezuela-apos-a-captura-de-maduro/ – Acesso em 26/01/2026.
[3] Saiba mais em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eua-x-groenlandia-a-historia-por-tras-das-tentativas-de-aquisicao/ – Acesso em 27/01/2026.
[4] Disponível em: https://jornal.usp.br/?p=346619 – Acesso em 23/01/2026.
[5] https://blog.arriminum.com/
[6] Disponível em: https://coletiva.net/noticias/relatorio-state-of-social-2025-revela-que-72p-da-populacao-digital-global-esteve-exposta-a-plataformas-sociais,458017.jhtml – Acesso em 26/01/2025.



