Tu já viste algum filme da cineasta Esfir Shub? Se não, sabes o porquê?

Tu já viste algum filme da cineasta Esfir Shub? Se não, sabes o porquê?

Apesar de obnubilada nos principais dicionários sobre Cinema (os de Jean Tulard e Jean-Loup Passek, entre eles), Esfir Ilyinichna Shub [1894-1959] deve ser destacada como uma das mais importantes realizadoras soviéticas de todos os tempos. Pioneira da montagem, ela inaugurou um subgênero cinematográfico, a partir da compilação de imagens alheias: em 1927, ela lançou “A Queda da Dinastia Romanov”, apresentado num intertítulo inicial como “uma montagem de documentos fílmicos”

Mencionando-a como discípula de Dziga Vertov [1896-1954] – sendo flagrada, inclusive, em seu filme mais famoso, “Um Homem com uma Câmera” (1929) – e através da internacionalização prenominal Esther, Georges Sadoul [1904-1967] fala um pouco sobre ela no décimo oitavo capítulo [“A Explosão Soviética”] de sua canônica “História do Cinema Mundial – Das Origens a Nossos Dias”: “tirando das vastas cinematecas antigas atualidades czaristas ou revolucionárias, realizou os primeiros filmes de montagem”. E continua: “ela fez assim obras de Arte e de História com documentos autênticos, filmados quase ao acaso por cem operadores antigos”. E é só: essencial em seu pioneirismo, ela foi eclipsada por outros realizadores da época, todos homens.

No livro “Introdução ao Documentário”, de Bill Nichols, a diretora e montadora é entusiasticamente citada, como uma representante mui laudatória do que o autor chama de “documentário expositivo”, que seria aquele tipo de filme que “agrupa fragmentos do mundo histórico numa estrutura mais retórica ou argumentativa do que estética ou política”. É uma definição muito geral que, obviamente, permite distinções internas mui peculiares, visto que a reedição de imagens denota o engajamento ativo da cineasta em relação àquilo que pretende demonstrar. Não por acaso, houve quem rejeitasse o tipo de filme realizado por Esfir Shub, em razão de seu viés ostensivamente propagandístico.

Acerca do primeiro longa-metragem da diretora – o supracitado “A Queda da Dinastia Romanov” – Bill Nichols enfatiza uma espécie de inversão ocorrida na análise ressignificada das imagens que ela encontra. Ele destaca o plano em que um conde e sua esposa consentem em serem filmados tomando chá numa mesa ao ar livre. Quando o casal levanta-se, dois criados que estavam parados no fundo da imagem apressam-se em limpar e retirar os utensílios da mesa. Com isso, “o próprio ato de encenar os rituais de dominação e servidão – que talvez originalmente fosse pra passar despercebido – comprova a disposição de usar os outros para manter um privilégio que, segundo o argumento de Shub, derrubou os Romanovs”.

O plano descrito ocorre de maneira muito rápida, mas metoninimiza um tipo de relação obsessivamente estabelecido pela diretora, que contrasta a opulência dos monarcas com a pobreza dos camponeses, o que ficará ainda mais evidente após a eclosão da I Guerra Mundial, em 1914. A situação da Rússia ficou tão insustentável que, em fevereiro de 1917, houve um levante popular que destronou o czar Nicolau II [1868-1918] e que daria origem à revolução bolchevista reconstituída em “Outubro” (1927, de Sergei M. Eisenstein & Grigori Aleksandrov), filme que complementa o que é apresentado por Esfir Schub, de modo que ambas as produções foram lançadas em comemoração ao décimo aniversário do evento em pauta.

Não obstante a pletora de intertítulos, que oscilam entre a ironia e a mera descrição, “A Queda da Dinastia Romanov” estabelece a impressão de objetividade – hoje associada ao estilo jornalístico – com vistas à disseminação do ideário socialista. Seguindo a tradição realista da época, a nomeação individual dos personagens geralmente é conferida a quem precisa ser combatido pelo povo, sendo a grande exceção o líder Vladimir Ilyich Ulianov [1870-1924], celebrado via transcrição de discursos e nas imagens finais. É um documentário de celebração, o que fica evidente desde o título.

A diretora passou mais de dois meses em Leningrado, pesquisando as imagens que utilizaria em seu filme. A acurácia de sua seleção permite que seja verificado o extremo esnobismo da nobreza russa no início do século XX, em detrimento do pauperismo crescente da maioria da população. São documentadas as visitas do presidente francês e as atividades industriais de operários que construíam bombas e navios de guerra, ou seja, “instrumentos que facilitavam a morte de seus irmãos”. Nos intertítulos, a conivência sanguinolenta da produção de materiais bélicos era insistentemente denunciada, o que desencadeia as imagens chocantes de cadáveres apodrecendo na neve e as más condições de vida nas trincheiras, comumente abençoadas pelos padres ortodoxos. Os incêndios perpetrados nos campos, os desfiles de soldados amputados e os relatos escritos por Lênin sobre a falta de pão e liberdade na Rússia tornaram imperativas as ações revolucionárias que culminaram na destruição dos símbolos czaristas, no assassinato da família real e na promulgação de um regime de governo baseado em idéias socialistas…

Na prática, o que ocorre após aquilo que a diretora exibe em seu filme desemboca no stalinismo, que silenciou diversos artistas, inclusive os cineastas que desafiavam a rígida censura estatal. As menções insuficientes a Esfir Shub nas histórias sobre cinema têm origem noutra chaga, hoje difundida como “machismo estrutural”. É imperativo falar combativamente sobre este assunto e, mais ainda, conhecer esta pioneira da Sétima Arte, sobremaneira decidida em sua vocação documental. Lembrando que o filme resenhado nesta coluna é o primeiro de uma trilogia, pouquíssimo vista nos dias atuais. Corrijamos – na medida do possível, visto que boa parte dos filmes da diretora é considerada perdida – esta lacuna histórica: viva Esfir Schub!

Wesley Pereira de Castro.

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