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Onze meses de “ele não!”: alienar-se é também um gesto de proteção e/ou resistência?

Onze meses de “ele não!”: alienar-se é também um gesto de proteção e/ou resistência?

Na abertura do 52º Festival de Cinema de Brasília, ocorrida numa sexta-feira, dia 22 de novembro de 2019, uma situação mui desagradável foi deflagrada: o ator Marcelo Pelúcio aproveitou a oportunidade de pronunciamento para ler um manifesto contra o desmonte das políticas culturais, desencadeado no (des)governo de Jair Bolsonaro, quando foi surpreendido pela entrada de um robusto segurança no palco, que tentou retirar-lhe o microfone. Mediante protestos da platéia, ele conseguiu continuar a sua fala, até ter o som interrompido pela organização do evento. Vaias e gritos contra a censura estatal irromperam no local. Este é o cenário que marca o final do ano de 2019 no Brasil…

Celebrado por seu caráter eminentemente político – visto que, não por acaso, é realizado na capital do país – este festival é também marcado pelas atitudes de protesto e por ações progressivas de auto-sustentação cultural, tal qual ocorreu na edição de 2014, quando o cineasta Adirley Queirós sugeriu que o prêmio recebido por ele fosse dividido entre todos os concorrentes a Melhor Filme daquele ano. Foi um necessário protótipo de resistência aos desmandos separatistas do capitalismo hodierno, que instaura uma malfazeja competição entre aqueles que estão do mesmo lado de uma peleja: uma lição primorosa à esquerda partidária dos tempos atuais, em contínuo esfacelamento contraproducente de interesses comuns…

A despeito da aberrante situação supramencionada, de intragável coerção censuradora, o evento mais noticiado nos meios de comunicação brasileiro, no dia seguinte à abertura do evento, foi a partida decisiva de futebol entre Flamengo e River Plate, na final da Copa Libertadores da América. Ou seja, o time com a maior torcida brasileira enfrentaria um forte rival argentino, podendo firmar-se bicampeão do referido torneio, após 38 anos de espera. E, ao final, foi o que realmente ocorreu: nos derradeiros minutos do segundo tempo de jogo, o artilheiro Gabriel Barbosa – cognominado Gabigol – inverteu a desvantagem inicialmente enfrentada pelo Flamengo, e venceu a partida por 2 x 1. Por ter tirado a camisa durante a comemoração, ele foi advertido. Depois de uma briga envolvendo outros jogadores, foi expulso. Instantes depois, estava erguendo e beijando a taça da vitória…

Em meio a um e outro evento, a Internet reagia com efusão ao desfecho da telenovela “A Dona do Pedaço”, no qual uma personagem criminosa recém-convertida em evangélica olha diretamente para a câmera e revela a sua faceta diabólica. Para alguns exegetas, esta foi uma maneira de a TV Globo, responsável pela produção e exibição da telenovela, demonstrar o seu desagrado institucional em relação aos maiores apoiadores de Jair Bolsonaro, que conclamaram publicamente um boicote à referida emissora. Entretanto, assistiram ao capítulo em pauta e à partida de futebol através da mesma. Contradição elementar ou constatação da hipocrisia inelutável dos bolsonaristas? Ambas as opções, em verdade.

Não obstante assumir-se como palmeirense, o presidente Jair Bolsonaro posou com a camisa do Flamengo em mais de uma oportunidade, no afã por angariar atenção quanto à sua perfídia continuamente transitiva – tal qual já o fez em relação a diversas correntes religiosas. E, ao fazê-lo, conseguiu obnubilar inúmeras pautas criminais em aberto, além de investigações envolvendo os seus correligionários. Está em vias de fundar um novo partido, depois de abandonar de maneira belicosa a sigla que o elegeu. O sobrenome deste líder insignificante de Estado atrela-se à traição, portanto. Em mais de uma situação, inclusive!

Para além de tudo isso, o Brasil encontrava-se em clima midiático de comoção nacional por conta do falecimento súbito de um conhecido apresentador de televisão, Augusto Liberato, que morreu em decorrência de um acidente doméstico: uma grave queda de uma altura de cerca de quatro metros, quando tentava consertar o aparelho de ar-condicionado em sua residência nos Estados Unidos. Sobre ele, o presidente Jair Bolsonaro manifestou-se em sua conta pessoal no Twitter: “O país perde um dos maiores nomes da comunicação televisiva, que por décadas levou informação e alegria aos lares brasileiros. Que Deus o receba de braços abertos e conforte os corações de todos”. Praticamente não manifestou-se acerca do falecimento do cantor e compositor João Gilberto (1931-2019), em julho deste mesmo ano, e ignorou as ações referentes ao Dia da Consciência Negra, celebrado no 20 de novembro. Há algo de lamentavelmente relevante em cada uma dessas posturas: não há mais Ministério da Cultura no Brasil!

Malgrado a abundância de más notícias diuturnamente divulgadas quanto às barbaridades decorrentes do bolsonarismo, estreou em circuitos nacional e mundial o filme “A Vida Invisível” (2019, de Karim Aïnouz), premiado na mostra ‘Un Certain Regard’ do Festival Internacional de Cinema de Cannes deste ano, e representante do Brasil na vindoura pré-candidatura ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro do ano vindouro. Sobre este filme – que tematiza as interdições do conservadorismo familiar – falar-se-á noutra oportunidade urgente. Por ora, pergunta-se: comemorar é alinear-se? Em meio ao extremo desamparo político, isso não seria também resistir, pelo viés da alegria tipicamente insubordinada das classes oprimidas? Voltaremos a cada um destes assuntos… Enquanto seguimos gritando: “ele não”!

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