O que ainda podemos fazer para tornar a nossa civilização menos desumana?

O que ainda podemos fazer para tornar a nossa civilização menos desumana?

A pergunta é retórica, mas não as atividades decorrentes, visando ao afeto na prática. Enquanto os comportamentos genocidas do presidente brasileiro seguem impulsionando o aumento do número de mortos em decorrência do Coronavírus, os cinéfilos desse mesmo país receberam uma notícia maravilhosa no dia 09 de abril de 2021: foi disponibilizada, virtualmente, uma cópia em ótimo estado de “Memórias de um Estrangulador de Loiras” (1971), longa-metragem dirigido por Júlio Bressane durante o seu exílio em Londres…

A despeito de ser inviável a comemoração num contexto em que mais de três mil pessoas morrem diariamente no Brasil, foi bastante jubilosa esta notícia: além de ser um dos mais insignes cineastas ainda em atividade, o carioca Júlio Bressane possui uma filmografia mui valorosa, sendo um dos mais renomados artífices do chamado Cinema Marginal e possuindo um estilo contemporâneo marcado pelas reflexões sobre a sublimidade filosófica e pela poesia.

Junto ao cineasta Rogério Sganzerla [1946-2004], Júlio Bressane fundou uma produtora, a Belair, que realizou seis filmes em metade de um ano, demonstrando um cabedal infindável de criatividade e economia de recursos, graças à colaboração e ao incentivo perene de um grupo de artistas – entre eles, a atriz e também realizadora Helena Ignez, que é viúva do segundo cineasta. É uma das experiências de produção mais impressionantes do cinema brasileiro, que é atravessado pelo inevitável subdesenvolvimentismo, diagnosticado pelo crítico Paulo Emílio Salles Gomes [1916-1977].

Após a promulgação do Ato Institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968, que restringiu a liberdade dos cidadãos brasileiros na fase mais cruel da ditadura militar que governou o país por vinte e um anos, os idealizadores da Belair são intimidados, de modo que precisam refugiar-se em países estrangeiros. E, sob essas condições atordoadas, foi realizado, entre outras obras, “Memórias de um Estrangulador de Loiras”, considerado inacessível por muito tempo – exceto pelos relances mostrados em “Beduíno” (2016) – em razão da exigüidade de cópias. (Re)ver este filme é um testemunho de fé, um ato político e uma declaração de amor à Sétima Arte, tudo de uma vez só!

Em seus setenta minutos de duração, ocorre no filme uma mesma situação, repetida inúmeras vezes: o personagem anônimo interpretado pelo mineiro Guará Rodrigues [1943-2006], ator recorrente nas produções da Belair, retira a vida de mulheres loiras que encontra pelas ruas londrinas. Às vezes, num mesmo plano, chega a matar três ou quatro, todas estranguladas. Não há diálogos, apenas a progressão de uma compulsão malévola, que, em seus estertores, denuncia a situação de violência e repressão que estava ocorrendo no Brasil…

Servindo-se de associações freudianas que parecem decorrentes de um filme de Alfred Hitchcock [1899-1980], compreendemos que o protagonista foi atormentado por uma situação traumática envolvendo uma mulher loura, ainda na primeira infância: vemos um bebê que sorri e uma jovem despida, que rebola as nádegas diante da câmera. Não se tem certeza se ela seria a mãe do bebê, mas anuímos que esta é a justificativa psicótica para que ele cometa tantos crimes encadeados: mais de duas dezenas de mulheres são assassinadas ao longo do filme!

No afã por transmitir o desassossego interior do personagem, ruídos animalescos são ouvidos, desde o barrido de elefantes até o coaxar preponderante de sapos. O estrangulador é flagrado ouvindo ‘blues’ enquanto cozinha ou lendo uma revista em quadrinhos no vaso sanitário, onde utiliza extravagantes meias vermelhas. Em suas caminhadas em busca de vítimas, suas aparições são antecipadas justamente por esta cor, visto que ele também usa uma calça rubra. E, em seqüências com a câmera estática, ele coça os bigodes antes de apertar os pescoços das jovens mulheres, antes que todas sucumbam diante de sua sanha destrutiva e incontida…

Imagens de filmes anteriores do realizador aparecem na tela – sobretudo, de “O Anjo Nasceu” (1969) e “A Família do Barulho” (1970) – o que evidencia a impressão de que Júlio Bressane está falando, metaforicamente, sobre a própria trajetória. Confirmando o tom memorialista do título, o protagonista aparece eventualmente escrevendo (em inglês) no seu diário, até que, no desfecho, é mostrado envelhecido, passeando por um jardim. Não há moral da estória ou discurso político ostensivo: toda a genialidade do cineasta é despejada nas entrelinhas, devendo ser decodificada a partir de critérios poéticos e metafóricos que o caracterizam até hoje. É um filme radicalmente simples, porém genial!

Enquadrado de maneira muito refinada, com ângulos frontais de câmera, rigorosamente selecionados, “Memórias de um Estrangulador de Loiras” merece a aura de ‘cult’ que recebeu, ao longo dos anos em que ansiava por ser visto pelos admiradores do diretor. Do lado de fora da sessão, os brasileiros continuam a lamentar os seus mortos e a torcer para que ao menos um ‘impeachment’ possa interromper o desgoverno de Jair Bolsonaro, que segue despejando impropérios em cada aparição pública. É o estrangulador quem redige um bilhete para si mesmo (ou para nós), mencionando de maneira afirmativa e cínica o que é convertido em interrogação esperançosa no título desta resenha. Mais uma vez, fica o anseio: pratiquemos o amor, pois é o que ainda nos salva enquanto civilização!

Wesley Pereira de Castro.

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