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“Não podia aceitar aquele destino como futuro”​: africanos querem mudança

“Não podia aceitar aquele destino como futuro”​: africanos querem mudança

O menino que descobriu o vento [The Boy Who Harnessed The Wind] (Longa-metragem. 113 minutos. Reino Unido / Maláui, 2019). Direção: Chiwetel Ejiofor.

O longa-metragem O menino que descobriu o vento foi lançado pela Netflix, em 2019, e marca a estreia do ator Chiwetel Ejiofor, britânico de origem nigeriana, como diretor de cinema. O filme é baseado em livro homônimo de William Kamkwamba e Bryan Mealer (São Paulo: Objetiva, 2011) que, por sua vez, apresenta a história real do jovem Kamkwamba que, em 2001, aos 13 anos, enfrentou uma grande seca com sua família no interior do Maláui, no sul da África.

Nascido no interior do Maláui, um país pobre do sul da África que faz fronteira com Moçambique e com a Zâmbia, William Kamkwamba buscou uma saída para a situação de seca e escassez que enfrentou juntamente com sua família. Não aceitou o destino trágico. Ele que só falava a língua xixeua, descobriu nos livros escritos em inglês o funcionamento dos moinhos de vento e construiu um moinho com sucata e com uma bicicleta cortada ao meio, algo que possibilitou a geração de energia elétrica e o funcionamento de um simples sistema de irrigação para o plantio durante a seca. Kamkwamba afirmou:

“Mesmo sem poder frequentar a escola, ia com regularidade a uma biblioteca e, ainda que tivesse dificuldade para ler em inglês, conseguia compreender os livros por meio de imagens e diagramas. Dessa maneira, pude construir um circuito elétrico que seria o primeiro passo para o moinho”.

Trata-se de uma história muito inspiradora que mostra a força de um adolescente africano. O filme já vale pela história inspiradora, mas o ponto alto está na abordagem de diversos aspectos daquele contexto do sul da África e que até certo ponto desafia diversas visões e ideias sobre o continente africano.

O filme mostra que grandes e lucrativos empreendimentos de agricultura, no caso a produção de tabaco, não representam necessariamente melhoria das condições de vida das populações rurais do sul da África. As populações rurais sofrem grande pressão de grupos externos que se interessam pelos recursos naturais. Os pequenos agricultores africanos muitas vezes não têm nenhum tipo de apoio, seja em termos de saneamento básico, de informações precisas sobre as condições climáticas, de capacitação para uma maior produtividade, de créditos para compra de insumos e de equipamentos, de seguros para perdas decorrentes de más condições climáticas, etc. Os programas assistenciais dos governos africanos são insuficientes para enfrentar momentos de escassez e muitas vezes falta transparência na execução destes programas e na distribuição dos recursos, algo decorrente também da corrupção difundida. Os processos eleitorais são marcados pelo constrangimento das populações e pela utilização indevida das redes familiares e das crenças locais para a perpetuação dos mesmos grupos políticos no poder. Muitas famílias não podem pagar para manter suas crianças nas escolas, porque até mesmo escolas públicas exigem que sejam pagas diversas taxas.

Esses aspectos abordados de alguma forma já são previstos em diversos contextos africanos. Mas além deles, o filme mostra que os africanos não estão simplesmente dominados cegamente por autoridades e crenças “tradicionais”, não. Pelo contrário, muitas vezes os africanos do sul da África sabem conviver pacificamente com crenças e práticas religiosas “tradicionais” juntamente com práticas cristãs, com práticas islâmicas, e também com o conhecimento científico. Estes africanos querem mais espaço para participação política, querem mais democracia e mais transparência. Eles querem estudar, buscam melhores condições de vida e melhores oportunidades.

A história de William Kamkwamba nos mostra novamente que se os africanos estão presos a alguma “tradição”, deve ser algum tipo de “tradição” que supõe mudança e busca por melhores condições de vida e melhores oportunidades.

[Texto publicado originalmente, em 10 de março de 2019, em rede social do autor.]

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