Em defesa do documentário: “quando a imprensa se curva perante as autoridades, estas tratam mal os cidadãos”!

Em defesa do documentário: “quando a imprensa se curva perante as autoridades, estas tratam mal os cidadãos”!

A comparação entre os títulos indicados à categoria “Melhor Documentário” nos principais certames cinematográficos da temporada de premiações 2021 demonstra o quão versátil, em termos estilísticos, tornou-se este gênero de filmes. Tal como ocorre entre a insuficiente oposição literária entre ficção X não-ficção, há muitas condições subtramáticas embutidas na opção por “filmar a realidade”. Afinal, quando liga-se uma câmera, a realidade passa a ser imediatamente abarcada por um discurso, mesmo que esse não esteja devidamente explicitado. O documentário é um gênero, não uma mera etiqueta distributiva!

Dentre os títulos elegíveis para indicações ao Oscar 2021, o filme romeno “Colectiv” (2019, de Alexander Nanau) desponta como um dos favoritos às categorias Melhor Documentário e Melhor Filme Internacional. Além de ter recebido um dos principais prêmios no 25° Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, em 2020, recebeu mais uma vintena de láureas em festivais cinematográficos ao redor do mundo, além de variegadas indicações. É, desde já, um dos exemplares mais importantes do gênero neste início de século XXI…

O ponto de partida sinóptico de “Colectiv” está no incêndio ocorrido numa boate homônima, em 2015, na cidade de Bucareste, quando vinte e sete pessoas morreram imediatamente e mais de cento e oitenta ficaram feridas. Ocorre que, nos meses seguintes, mais trinta e sete pessoas morreram, sendo que estas estavam internadas em setores específicos para queimados, o que engendrou as suspeitas de maus tratos hospitalares e de corrupção generalizada no Sistema de Saúde Romeno. Um acidente local desemboca na urgência por modificações políticas, em âmbito nacional: é isso o que o filme investiga, ao longo de uma hora e quarenta e nove minutos de duração.

O verbo ‘investigar’ é utilizado de maneira literal, visto que o documentário acompanha uma das facetas mais basilares do Jornalismo, encarnada na abnegação de alguns repórteres, em busca de fatos que esclareçam uma determinada notícia. E tudo começa com o artigo publicado por Catalin Tolontan, jornalista que é acompanhado pela equipe do filme numa das três abordagens complementares do documentário.

Não obstante a exortação da atividade jornalística abarcar toda a duração do filme – o que implica em breve inconstância rítmica, em razão do sobejo de informações – acompanhamos também as sessões de fotos de Tedy Ursuleanu, uma ex-arquiteta que, após ter mais de 45% de seu corpo deformado por causa de queimaduras, transforma-se numa eloqüente modelo artística. As exposições das fotografias que protagoniza chamam ainda mais atenção para os absurdos relacionados ao incêndio na boate Colectiv, de modo que ela é apesentada ao jovem Ministro da Saúde Vlad Voiculescu, que ocupou a função, num gabinete técnico, entre maio de 2016 e janeiro de 2017…

As tentativas do referido ministro em desmantelar a imensa rede de corrupção que envolve a Romênia correspondem ao terceiro vértice de acompanhamento do filme, desde que ele assume o cargo até a constatação da vitória dos Social-Democratas nas eleições parlamentares de dezembro de 2016. O político não apenas lamenta este resultado eleitoral como foi incapaz de encobrir (e resolver) fatos escandalosos, como as compras hiperfaturadas de desinfetantes que perdiam a sua eficácia sanitária ao serem excessivamente diluídos ou a descobertas de larvas de moscas nos pacientes de um determinado hospital. A principal denúncia do filme é política, portanto!

Como a Romênia é um país que esteve sob o jugo de uma ditadura comunista por várias décadas, ainda nota-se no país muita desconfiança quanto à representatividade eleitoral, o que fica evidente na divulgação radiofônica das parcelas quantitativas de habitantes que dispuseram-se a votar. O que não redunda em falta de disposição participativa, visto que, ainda na abertura do filme, sabemos que os protestos contra a falta de segurança na boate Colectiv atingiram uma repercussão tão grande que culminaram na renúncia dos membros do Partido Social-Democrata, que governava o País em 2015. O retorno do mesmo grupo ao poder, menos de dois anos depois, através de avassaladora parcela de votos, conduz-nos a uma pergunta genérica, que tem muitíssimo a ver com a trágica situação política do Brasil atual: por que isso acontece, sob o apoio massivo da população? Vlad Voiculescu constata, durante reunião apresentada no filme, que está tudo tão sistemicamente apodrecido que a única solução viável seria demitir a totalidade de funcionários do alto escalão e supervisionar minuciosamente as contratações vindouras. Mas como fazer isso?

Voltando para aquilo que mais destaca-se no filme, o dinamismo de uma impressionante investigação jornalística, convém elogiar a coragem exorbitante de Catalin Tolentan, que não hesitou em expor os aspectos mais assombrosos de má gestão hospitalar, o que metonimiza uma corrupção detectável em todas as áreas administrativas. Isso, obviamente, desencadeou represálias e ameaças pessoais, sobretudo depois que o proprietário de uma empresa química suicida-se ao ser acusado de falsificar os documentos sobre a efetividade de um desinfetante vendido em grande quantidade para os hospitais nacionais. Por mais que sintamo-nos tentados a comparar o que é mostrado no filme ao catastrófico incêndio na boate Kiss, ocorrido no Rio Grande do Sul em 27 de janeiro de 2013, as condições sustentaculares são bastante distintas: em “Colectiv”, as conseqüências políticas e os caracteres dos personagens reais são determinantes, o que é favorecido pelos ardis quase onipresentes da produção, que erigem uma “narrativa” objetiva e tensa. Não por acaso, o filme termina com a entonação coletiva de uma canção em inglês, em cuja letra ouvimos que “somos o modo como nos tratamos ao final do dia”. Isso diz muito!

Wesley Pereira de Castro.

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