“É preciso falar seriamente sobre o problema da morte” ou de quando chorar durante uma resenha é indicativo de resistência…

“É preciso falar seriamente sobre o problema da morte” ou de quando chorar durante uma resenha é indicativo de resistência…

No dia 11 de junho de 2021, aos oitenta anos de idade, falece o ator e diretor Júlio Calasso Jr. [1941-2021]. Dois dias depois, em Brasília, a Seleção Brasileira de Futebol vencia a Venezuela, por três a zero, no jogo inicial da Copa América. Vários países sul-americanos reusaram-se a sediar este último evento, em razão dos índices elevados de mortos e contaminados pela Covid-19. O bolsonarismo carecia de uma polêmica para escamotear seus desmandos e falcatruas. Nenhum telejornal noticiou o falecimento do cineasta supracitado…

Ainda que pareçam imediatamente disassociados, há pontos de intersecção possíveis entre o primeiro (e magistral) longa-metragem de Júlio Calasso Jr. e a situação desoladora em que encontra-se o Brasil atual: “Longo Caminho da Morte” (1971) revela-se um título profético – porque mui historicizado – para compreendermos a gestação diuturna do ódio político no contexto hodierno. O bolsonarismo advoga a morte; Júlio Calasso Jr. diagnosticou a origem longeva deste processo.

Protagonizado pelo extraordinário Othon Bastos, este filme apresenta uma série de fatos que desencadeia a extinção de uma família. Numa montagem francamente alinear, acompanhamos as desventuras de três homens com o sobrenome Orestes (avô, pai e filho), todos interpretados pelo mesmo ator, sem que sejam ostensivamente anunciados os períodos retratados. Sabemos que o roteiro abarca do final do século XIX até o início da década de 1970, quando o filme foi realizado. Poucos espectadores viram o resultado, entretanto: por muito tempo, esta obra foi sufocada pela censura!

Cada um dos membros da família Orestes lida com problemas ainda reiterados pelos interesses oportunistas dos defensores contemporâneos dos partidos de direita: a concessão de subsídios estatais aos interesses econômicos dos latifundiários; as medidas inflacionárias que relacionam-se diretamente com os excedentes produtivos; e a importância da fecundidade feminina para a continuidade familiar. Tudo isso às custas de hipocrisias machistas e de elogios escancarados às mazelas do capitalismo.

Numa seqüência, por exemplo, a esposa de um dos Orestes suplica-lhe que ele reforme a capela onde ela deseja fazer as suas orações. Ocupado com os prejuízos verificados em suas criações cuniculares, o marido esbraveja: “coelhos são muito mais importantes que capelas, pois eles dão crias, as capelas não”. Em breve, ele estará morto, e a capela permanecerá erguida. É justamente nela que será realizado o seu funeral…

Em seu ensaio mui elogioso sobre o filme, o crítico Jairo Ferreira [1945-2003] associa o diretor ao que define como “processo histórico. Sintonia existencial” do “Cinema de Invenção”. Afirma que o estilo do diretor é perpassado pela magia e pela transgressão, considerando de vital importância o diálogo em que a amante de um dos Orestes confessa “não sentir tristeza, mas um grande vazio”. Continua ele: “os espíritas e/ou espiritualistas costumam dizer que o morto demora a se convencer de seu falecimento. Sua estirpe, sua própria mortalha. Orestes está vivo em cada uma de suas fêmeas, em cada uma de suas vítimas e em cada um de seus carrascos. Sua morte é tão ambígua quanto sua moral”. Faz-nos pensar em alguma coisa?

Nem é preciso ter visto o filme para, na leitura desse trecho, identificarmos aspectos da conjuntura política atual: Orestes representa uma cultura latifundiária, de conquistas orgulhosas através da violência. Ainda que ele tenha incendiado-se enquanto personagem infértil, procriou enquanto modelo de mau caratismo, amplamente em voga no Brasil. (Re)ver este filme é um ato de resistência!

Numa percepção genial, o crítico compara o vestígio sobrenominal a outro personagem também interpretado por Othon Bastos, o protagonista de “São Bernardo” (1972, de Leon Hirszman), baseado em romance homônimo de Graciliano Ramos [1892-1953]. As semelhanças são evidentes, visto que os vícios de classe são recorrentes. O coronelismo é uma prática consuetudinária no Brasil. Jair Bolsonaro não foi eleito à toa, muito menos por acaso. E apressou-se em aplicar o caminho da morte em relação à nação que (des)governa…

Em 10 de julho de 2021, no Maracanã, o mais famoso estádio carioca, o Brasil perde de um a zero para a Seleção Argentina, que vence, por conseguinte, a Copa América. O país-sede foi derrotado, quando já listava mais de quinhentos e trinta e três mil mortos, em decorrência do CoronaVírus. As rixas políticas surgem nos rincões mais inauditos, até mesmo durante a celebração de missas católicas. O bolsonarismo foi exitoso em seu projeto assassino, antes mesmo do final do primeiro mandato.

Numa das seqüências mais impactantes do filme, Irene (Rosângela Pinheiro) faz uma promessa para Aemodeus (Ary Moreira) e a Pomba-Gira (Vivien Mahr), na esperança de laçar definitivamente o amado Orestes. Precisará de um chicote para selar o pacto lascivo. Mais tarde, à beira de uma confissão eclesiástica, ela lamentará: “minha garganta seca e minhas mãos tremem por causa dos pecados que eu cometi”. Será que esse tipo de consciência tardia também acometerá quem apoiou o bolsonarismo? Se assim ocorrer, adiantará de alguma coisa?

Jairo Ferreira esclarece que, “como o filme não se ressarciu, Júlio Calasso Jr. iria gerenciar uma lavanderia automática ou empresariar shows e peças”. Conforme pronunciado anteriormente, o filme foi pouquíssimo visto, a despeito de suas excelentes qualidades. Cabe a nós, espectadores, fazer com ele renasça criticamente. Enquanto ainda há tempo, enquanto ainda podemos!

Wesley Pereira de Castro.

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