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A guerra mais suja

A guerra mais suja

Num livro publicado em 11 de setembro de 2020, o jornalista Woodward relata as entrevistas com Donald Trump, conduzidas no início da pandemia, e revela que o presidente dos EUA sabia da gravidade da situação, apesar de em público sempre ter desvalorizado o que se passava. Que Trump tem revelado uma aflitiva falta de estratégia para fazer face à crise de saúde, parece ser já ponto assente. Os EUA são à data o país no mundo mais afetado pela pandemia, e o ritmo de infeções e mortos parece não dar sinais de abrandamento.

No final de setembro o New York Times revelava que Trump não havia pago impostos em 10 dos 15 anos que precederam 2020, sugerindo assim potenciais infrações fiscais por parte do presidente. No mesmo dia Trump veio acusar o jornal de o perseguir e tentar destruir a sua imagem, apenas dois dias depois de ter nomeado a juíza conservadora Amy Coney Barrett para o Supremo dos EUA, na sequência do falecimento da liberal Ruth Bader Ginsburg, ocorrido dias antes.

Mas a presente análise não é sobre as atitudes do inquilino da Casa Branca, e sim sobre o timing destas ações. O livro, publicado num dia de negra memória para o país, tem o título sugestivo Fear: Trump in the White House. Se foi em março que Woodward entrevistou e gravou a conversa com o presidente, porque é que não revelou mais cedo as inconsistências entre os seus discursos em privado e em público? A resposta parece ser clara: a publicação do livro o mais em cima possível das eleições, associando a atuação presidencial ao fatídico 11 de setembro de 2001, de modo a causar dano à reeleição de Trump.

Não se trata aqui de defender uma posição, e sim de compreender este rol de atuações. É que se é motivo de questionamento o timing de Woodward, também o é a proposta de Tybring-Gjedde, um político norueguês de extrema-direita, em setembro, em que propõe a nomeação de Trump para o Prémio Nobel da Paz. Ou a garantia dada pelo próprio Trump, em agosto, de que uma vacina eficaz contra o coronavírus seria distribuída por todos os Estados do país alguns dias antes de 3 de novembro, data para as eleições. Entre agosto e outubro vieram a lume muitos outros exemplos que mostram uma guerra pouco limpa, entre as duas forças políticas no país do Tio Sam, num aparente tudo-vale-para-conquistar-o-eleitor.

Mas estes exemplos não se confinam ao caso americano. De facto, inúmeros outros exemplos poderiam ser evocados a demonstrar situações análogas noutros países ou noutras arenas do combate corporativo. É grande o contraste com o discurso de algumas instituições universitárias e não universitárias, quando estas avançam com ideias como responsabilidade social, sustentabilidade, e solidariedade. Outros termos, como honra, virtude, honestidade, e dignidade, tampouco parecem aplicar-se a algumas destas guerras entre fações rivais na política e no mundo empresarial.

Na interpretação deste fenómeno podem evocar-se algumas perspetivas. A primeira é conhecida como crise de valores, e sugere um decréscimo dos valores da decência e moral na sociedade. Defende-se, implicitamente, a superioridade moral de tempos passados, quando as “pessoas eram mais decentes e se respeitavam uns aos outros”. Ora, a história da Humanidade é rica em governos e organizações cujos padrões de atuação se baseiam no poder de um pequeno número de grupos, exercido com maior ou menor autoridade sobre os demais grupos. As democracias são alegadamente os sistemas que melhor controlo exercem sobre situações abusivas, mas é também sabido que existem muitas variantes de “democracia”, e que dentro de uma grande democracia, amiúde prosperam organizações ou indivíduos muito pouco democráticos.

Uma segunda interpretação advém das diferenças culturais entre povos, e sobretudo de alguns traços culturais, como a dimensão masculinidade-feminilidade, proposta por Hofstede nos anos 80. Culturas masculinas enfatizam o desempenho, a competição, e os ganhos individuais, enquanto culturas femininas destacam os relacionamentos, a sensibilidade e a preocupação pelo bem-estar coletivo. Ao observar-se o índice dos EUA nesta dimensão (em https://www.hofstede-insights.com/product/compare-countries), pode sucumbir-se à tentação de concluir que a sua cultura masculina justifica integralmente muitos dos exemplos apresentados no início deste texto. E tal ideia sai reforçada ao perceber-se a cultura feminina de alguns dos países mais avançados no planeta: Dinamarca, Suécia, Finlândia e Noruega. Mas é necessária cautela nestas leituras. Por exemplo, o Japão é uma cultura ainda mais masculina do que os EUA, e todavia muito respeitadora do coletivo. E dos EUA vêm alguns dos mais fortes exemplos de solidariedade e defesa das liberdades nacionais, como atesta a sua presença em grandes guerras no século passado.

Uma terceira perspetiva remete para a moral individual. O psicólogo americano Kohlberg propõe seis estádios de desenvolvimento moral, desde o castigo e obediência, típico de uma criança, ao dos princípios éticos universais. Para Kohlberg, este sexto estádio corresponde a uma orientação por princípios superiores, como a igualdade, a dignidade e o respeito. Estes princípios reguladores do comportamento individual são tão poderosos, segundo o autor, que em teoria tornam dispensáveis quaisquer sistemas de controlo coletivo, incluindo as leis. O modelo é algo romântico, pois apela ao sonho de um dia toda a gente poder ascender ao sexto estádio. Mas é também uma perspetiva tendenciosa de um modelo de sociedade, particularmente o ocidental.

E a última explicação para entender a guerra suja travada nos meses antes das eleições americanas é a de um clássico: Nicolau Maquiavel (em foto a apoiar este texto). Em O Príncipe, Maquiavel instrui como chegar e permanecer no poder. O Príncipe é uma obra intemporal, cuja leitura independe de reflexões morais, éticas, ou culturais, se bem que este guia para o poder emerge numa Itália dividida do primeiro quartel do século XVI. O filósofo florentino escreve sobre virtú (virtude), isto é: as qualidades necessárias para se tornar um líder poderoso. Uma das conclusões de Maquiavel é que os meios justificam os fins; assim, caso seja necessário, um príncipe pode ter que ser agradável, bondoso, e apoiante dos seus súbitos. Porém, face à natureza maldosa e preguiçosa das pessoas, é melhor ser temido do que amado. Afiançando que as pessoas pendem mais para o mal do que para o bem, Maquiavel sugere que um príncipe deve estar preparado para conservar a sua posição, nem que seja através da mentira, do engano, do assassínio de um membro da corte, ou do rompimento de um tratado.

Qualquer das quatro interpretações antes aventadas tem pontos fortes e fragilidades. Fica com o leitor o desafio de decidir qual ou quais lhe parecem ser mais ajustadas ao que se vai desenrolando nestes dias que faltam para as eleições americanas.

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