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“A gente tem que ter um sonho, não é?”: a democracia enquanto fábula aplicável!

“A gente tem que ter um sonho, não é?”: a democracia enquanto fábula aplicável!

Aconteceu! Na noite do dia 30 de outubro de 2022, com a vantagem apertada de 50,90% dos votos válidos (correspondente a sessenta milhões, trezentos e quarenta e cinco mil, novecentos e noventa e nove eleitores), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi, mais uma vez, declarado presidente eleito do Brasil. A despeito de todas as agruras que enfrentou até a apuração deste resultado (incluindo uma prisão injusta, forjada por um apoiador bolsonarista), o então candidato declarava uma forte associação entre os seus anseios democráticos e o amor, tanto físico quanto existencial: em comícios e entrevistas, ele brincava que estava “com um tesão de vinte anos de idade” e que, em seu governo, “todo mundo vai namorar”. O tom é chistoso, mas estas afirmações demonstram uma aplicação orgânica do erotismo enquanto ferramenta também política.

Infelizmente, o efeito contrário também manifestou-se: insatisfeitos com os resultados dessa eleição, alguns fanáticos pelo atual governo interditaram avenidas importantes, em diversos Estados, impedindo o transporte de mercadorias, remédios, pessoas e causando graves prejuízos econômicos e sociais ao país. Incapazes de aceitar a derrota, por razões que podemos associar a frustrações sexuais inadmitidas, estes arruaceiros seguem causando feridas no afã democrático dos brasileiros, o que foi agravado pela demora do presidente derrotado em assumir publicamente a lisura do processo eleitoral.

Declarando hipocritamente que são patriotas, estes manifestantes de extrema-direita aproveitam qualquer oportunidade para cantar o Hino Nacional Brasileiro e/ou entoar orações em voz alta. Mas ignoram aspectos importantes da constituição cultural do país, visto que o ministério concernente a esta área foi extinto na gestão presidencial de Jair Messias Bolsonaro. O restabelecimento do Ministério da Cultura será uma das primeiras providências corretivas do novo mandato do presidente eleito. E, por conta disso, temos a obrigação de exaltar alguns valorosos filmes brasileiros que estão estreando em circuito comercial, como o ótimo “Paloma” (2022, de Marcelo Gomes).

Dirigido pelo mesmo realizador do aclamado “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), da obra-prima “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009, co-dirigido por Karim Aïnouz), do extraordinário “Joaquim” (2017) e do contundente “Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar” (2019 – resenhado aqui), “Paloma” é mencionado, no crédito inicial, como “inspirado em eventos reais”. Narra a história de uma moça transexual que se define como “agricultora que faz bicos como cabeleireira” e que nutre o desejo intenso de casar-se na igreja.

Magistralmente interpretada pela atriz alagoana Kika Sena, também transexual, Paloma vive numa cidade do interior pernambucano, chamada Saloá. Possui uma filha de seis anos, Jenifer (Anita de Souza Macedo) e vive harmonicamente com o pedreiro Zé (Ridson Reis). Depois de assistir à cerimônia de casamento de uma de suas clientes, encasqueta que o padre local olhou para ela quando explicou que “aquilo que Deus une, nenhum homem consegue separar” e, como tal, deseja levar a cabo o seu ensejo, ainda que tenha várias dívidas financeiras e que seu companheiro precise de uma nova motocicleta.

Graças ao apoio de suas amigas e à tolerância do referido padre (Buda Lira), que, entretanto, não pode efetuar a cerimônia, Paloma ousa ditar uma carta solicitando autorização para o Vaticano, quando temos o primeiro vislumbre que ela talvez não saiba escrever, o que é discretamente confirmado a posteriori. A fim de angariar maior confiança em seu objetivo religioso, Paloma é convencida a participar de uma romaria católica, onde percebe que o motorista que a conduz (Zé Maria) nutre afeição por ela. O que poderia dar errado, então?

A resposta a esta pergunta aprece no filme como intrusão realista no universo fabular então narrado: as violentas reações homofóbicas e transfóbicas, que, da mesma maneira que os comportamentos intransigentes dos bolsonaristas, perigam estragar a felicidade de Paloma, mas não a ponto de fazê-la desistir de seus sonhos. O roteiro (escrito pelo próprio diretor, junto a Armando Praça e Gustavo Campos) assume a defesa frontal da protagonista, reforçando a sua coragem e resiliência, além de enfatizar a beleza dos instantes benfazejos de diversão, como quando, numa piscina pública, ela brinca com Jenifer, depois que a menina é maltratada por algumas mulheres preconceituosas, ou quando, atolada nas areias da Ilha de Itamaracá, Paloma chupa um picolé de côco (preferia um de tapioca) e é apelida por seu amado de “sereia vulcânica”. São momentos como esse que fazem a vida valer a pena!

Na seqüência inicial, ouvimos os demorados gemidos de prazer de um casal que faz sexo, antes de flagrarmos a nudez integral de Paloma, enquanto ela se banha. Ao invés de apelar para o sensacionalismo caro a outros diretores que abordaram o tema, Marcelo Gomes faz com que o espectador torne-se cúmplice afetivo daquela mulher batalhadora e consciente de suas necessidades sexuais. O que se deve bastante à eficaz direção fotográfica de Pierre de Kerchove, que registra tanto a aridez do ambiente sertanejo quanto o calor humano proveniente daquelas pessoas. A câmera põe-se ao lado das mesmas, como na cena em que uma prostituta pede que a garotinha Jenifer feche os olhos, antes de ser devolvida ao pai, quando um prostíbulo passa a ser o único local encontrado por Paloma para deixar a menina, antes de ir parta o trabalho. Naquela cidade interiorana, as libações erotógenas atendem a uma normatização impositiva, o que explica (mas não justifica) a intolerância de outrem.

Durante os créditos finais, confirmando a habilidade ímpar do cineasta na escolha das canções executadas na trilha sonora (vide o modo como as baladas românticas da banda Aviões do Forró insurgem-se em momentos-chave), ouvimos a interpretação de Baby Consuelo para sua composição oitentista “Sem Pecado e Sem Juízo”, que contém um verso que merece interpretação extensiva: “Adão e Eva e o Paraíso”. A referida cantora hoje é pastora evangélica e bolsonarista, e, nesse sentido, não concordaria em realizar o desejo de Paloma. Fica aqui o gancho para reflexões de cunho pessoal, acerca de como podemos (ou devemos) interferir na felicidade do próximo…

 Wesley Pereira de Castro 

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