A pedra chora João Cutileiro

A pedra chora João Cutileiro

Faleceu ontem, em Lisboa, o reconhecido escultor português João Cutileiro, veiculou a diretora regional de cultura do Alentejo à Agência Lusa (2021). O artista com 83 anos, destacou-se nas últimas seis décadas com uma vasta obra escultórica de arte pública, que veio transformar e contemporizar as paisagens urbanas e os espaços públicos, nomeadamente nas cidades.

De acordo com informação veiculada pela imprensa, o conceituado artista plástico estava internado desde há vários dias no Hospital Pulido Valente, em Lisboa, não tendo resistido a um enfisema pulmonar, que limitava a sua ação, desde há vários anos (Almeida, Sérgio in Jornal de Notícias, 6 de janeiro 2021). 

João Cutileiro destacou-se na escultura, contudo, foi também um grande mestre no desenho e na fotografia. Frequentou a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e a Slade School of Art, em Londres. Começou a expôr regularmente na década de 60 (Pereira, 2020; Presidência da República; Wikipédia, 2021;) tendo realizado inúmeras exposições individuais e coletivas. Nos anos 70 expõe na Unikat-Galerie, em Wuppertal, na Alemanha (1976); na Royal Academy of Arts, em Londres; no Museu de Lagos (1978), na XV Bienal Internacional de São Paulo, Brasil (1979), entre outras. Nos anos 80 em Dortmund, na Alemanha, em Washington e em Nova Iorque (E.U.A.), em Lisboa, Macau e Almansil. Em 1990 a Fundação Calouste Gulbenkian organiza uma exposição antológica (Pereira, 2020). Na década de 90 realiza exposições individuais em Bruxelas, Luxemburgo, Évora, Lisboa, Guimarães e Lagos. Recebeu vários prémios nacionais e internacionais.

Da sua vasta obra de arte pública, de destacar a escultura “Dom Sebastião de Lagos” (1973), esculpida em “vésperas” da revolução dos cravos, criou polémica junto da elite da época devido à linguagem adoptada em clara rutura com os cânones da estatuária do Estado Novo. No entanto, a ousadia foi aplaudida pela crítica, nomeadamente pelo historiador e crítico de arte José Augusto França. Das inúmeras intervenções escultóricas no espaço público urbano, destaca-se também o “Monumento ao 25 de Abril” instalado no Parque Eduardo VII, em Lisboa. João Cutileiro recebeu os doutoramentos Honoris Causa pelas Universidades de Évora e de Lisboa. Em 1983, foi agraciado com o grau de Oficial da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico. Recebeu a medalha de Mérito Cultural do governo Português, 2018, tendo doado neste ano o seu espólio pessoal e a casa-atelier ao Estado Português (Wikipédia, 2021).

Nascido no seio de uma família da média burguesia lisboeta, com raízes alentejanas  (Costa, 2021), antifascista, herda cedo a participação política, da família de seu pai – republicanos oposicionistas à ditadura. Desde jovem, define o seu pensamento ideológico, tendo ingressado na organização juvenil do Movimento de Unidade Democrática (MUD) e anos mais tarde, milita o Partido Comunista Português (PCP) (Almeida, Wikipédia, 6 de janeiro de 2021). Foi mandatário de várias candidaturas presidenciais, nomeadamente de Jorge Sampaio (2001) e Mário Soares (2006). Integrou a Comissão de Honra nacional da candidatura presidencial de Manuel Alegre (2011) e em 2016 declarou o apoio a Marisa Matias.

O Secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres expressou  ontem um “enorme pesar” pelo falecimento do escultor de João Cutileiro, considerando que Portugal perde “um expoente do mundo das artes” (Lusa, 5 de janeiro de 2021).

A Presidência da República (2021), lamenta a morte de João Cutileiro endereçando as “sentidas condolências à família” e destaca a proeminência deste artista, “marcado pelas revisitações do imaginário nacional e por um franco erotismo”. Destaca que, “o surrealismo interessou-o, a política tentou-o, as viagens ao estrangeiro abriram-lhe horizontes”.

A segunda figura do Estado Português, Eduardo Ferro Rodrigues, Presidente da Assembleia da República, refere que “Portugal perdeu hoje uma das suas grandes referências artísticas“, endereçando as “mais sinceras condolências à família”. Destaca ainda que, “João Cutileiro foi um dos nomes maiores da escultura portuguesa, sucedendo, na dimensão da sua obra, ao mestre Leopoldo de Almeida – de quem foi aluno, nos anos 50 do século passado, depois de ter colaborado com Jorge Barradas e António Duarte –, mas também na tarefa de formar novos artistas, uma geração que, com ele e através da escultura, ajudou a revisitar a identidade portuguesa” (Assembleia da República, 5 de janeiro de 2021). Alude ainda ao facto do parlamento português deter uma obra do autor – um busto da poetisa e deputada Natália Correia.

Também a Ministra da Cultura, Graça Fonseca, lamentou “profundamente” a morte do escultor, definindo-o como “um artista central da escultura contemporânea e uma referência maior da cultura portuguesa” (Lusa, 5 de janeiro de 2021). A Ministra da Cultura referiu que João Cutileiro foi, “indiscutivelmente, um dos mais singulares artistas portugueses do século XX e um escultor de renome internacional, projetando a arte contemporânea portuguesa. Com um estilo irreverente, festivo e profundo nas intenções, o seu trabalho marcou decisivamente a paisagem artística e cultural em Portugal a partir do final dos anos cinquenta” (Governo de Portugal, 5 de janeiro de 2021).

A Ponte Editora e A Pátria associam-se aos votos de pesar de toda a comunidade artística.

Fontes:

Almeida, S. (2021, janeiro 6). Morreu João Cutileiro, o escultor que transformou a paisagem. Jornal de Notícias, Lisboa. 

Assembleia da República (2021, janeiro 5). Presidente da Assembleia da República expressa pesar pelo falecimento de João Cutileiro. Disponível em:

https://www.parlamento.pt/sites/PARXIIIL/Paginas/2021/janeiro/PAR-lamenta-falecimento-Joao-Cutileiro.aspx

Costa, A. (2021, janeiro 6). Trabalhava a pedra como quem trabalha a vida. Jornal de Notícias, Lisboa. 

Governo de Portugal (2021, janeiro 5) Ministra da Cultura lamenta profundamente morte do escultor João Cutileiro.

Disponível em: https://www.portugal.gov.pt/pt/gc22/comunicacao/comunicado?i=ministra-da-cultura-lamenta-profundamente-morte-do-escultor-joao-cutileiro

Lusa (2021, janeiro 5). João Cutileiro: Portugal perde um expoente do mundo das artes – António Guterres. Disponível em: 

https://www.lusa.pt/article/tfv51hVQj9FNEjjukezYkzMSZM5iuSI1/%C3%B3bito-jo%C3%A3o-cutileiro-portugal-perde-um-expoente-do-mundo-das-artes-ant%C3%B3nio-guterres

Lusa (2021, janeiro 5). João Cutileiro: Ministra lamenta perda de “referência maior da cultura”. Disponível em: 

https://www.lusa.pt/article/tfv51hVQj9E6hEDENEwLdjMSZM5iuSI1/%C3%B3bito-jo%C3%A3o-cutileiro-ministra-lamenta-perda-de-refer%C3%AAncia-maior-da-cultura

Pereira, H. (2020, maio 31) João Cutileiro. Disponível em: https://cronicas05.wordpress.com/2020/05/31/joao-cutileiro/ Acesso em: 05 de janeiro de 2021. 

Presidência da República Portuguesa (2021, janeiro 5). Presidente da República lamenta a morte de João Cutileiro. Lisboa: Palácio de Belém. Disponível em: https://www.presidencia.pt/?idc=18&idi=181396

Wikipédia (2021) João Cutileiro. Disponível: em https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Cutileiro  Acesso em: 05 de janeiro de 2021.

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