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PODEM TANTO AS PALAVRAS: 12/3/1572 – 12/3/ 2022

PODEM TANTO AS PALAVRAS: 12/3/1572 – 12/3/ 2022

Quatro séculos e meio d’Os Lusíadas! Editado no doze de março há 450 anos, esta impressionante história de uma epopéia comum, a que hoje, mais certamente, intitularíamos ‘Os portugueses’, essa gente que protagoniza o mais de milhar e cento de estrofes que vão contando sua história, a História de Portugal como nação. A algum outro povo ocorreu contar sua história desse modo? O livro que foi escrito por várias terras por meio mundo, em condições adversas para o autor, sendo que a que mais me emociona é a da gruta de Macau, entre os dois penedos onde se abrigava o gigante escritor (1), não é incrível que um homem em tão difíceis condições, pulse seu gênio em profunda erudição do saber de seu tempo, com o conhecimento perfeito da historia de seu povo, numa rigidez estrutural rigorosíssima, em oitavas decassilábicas sempre no mesmo esquema difícil de rimar (as seis primeiras cruzadas e as duas últimas emparelhadas) ao longo dessas 1102 estrofes? Sr. Luís Vaz, que ousadia? Que coragem!

Para que lado olha o pelicano?

Conto-Vos já o porque desse reparo ao pelicano que encima a capa, mas antes falemos do que significa o pelicano, o que se vê bem ao meio da referida capa das primeiras edições d’Os Lusíadas. Quanto a história que conduz a obra, é a de Vasco da Gama, escolhida pelo poeta das gentes portuguesas, seu povo, ao qual admira e glorifica, que, ao escolher esse fio condutor, convidando-nos à viagem, o fez porque essa era a inigualável obra dos homens de seu tempo, desde o grumete desconhecido ao rei que, à época da publicação, este outro não era se não o menino Sebastião, que em seu sonho de grandeza, se pudera haver maior que a já realizada (2), e em quem termina a dinastia do Pelicano, apesar dos dois seguintes sucessores desta linhagem, era já o fim, e o glorioso Portugal iria acabar por ser espanhol durante seis décadas. Avis, a do primeiro João de Boa Memória, que por bastardia do cruel primeiro Pedro, criara essa nova dinastia, uma vez que o formoso fora infeliz, tendo rasgado o documento de Alcoutim apaixonado por uma trasmontana venenosa que roubara ao marido, anulando seu casamento. Com a morte do rei D.Fernando a oportunista Leonor é regente, e com seu amante indignou toda gente, pondo fim ao período afonsino, eis que então viria Avis, com Dom João, o primeiro, que, casando-se com a princesa inglesa, mãe da “ínclita geração”, a Lancastre da rosa vermelha e do pelicano, inaugura a nova dinastia. O pelicano em sua piedade, como o chamam, pois que bica o próprio peito para com o sangue alimentar aos filhotes, torna-se o símbolo ingente desta família. Essa a tradição que começara com Elizabeth I de Inglaterra, como se pode ver em seu retrato de circa de 1575, atribuído a Nicholas Hiliard, hoje na Walker Galery. Elizabeth que foi a última Tudor, ou seja York e Lancaster ao mesmo tempo. Esse é pois o pelicano em sua piedade na capa da primeira edição d’Os Lusíadas.

A edição de António Gonçalves de Lisboa em 1571, que é a primeira, na época em que Elizabeth reinava em Inglaterra, e um descendente de D. Felipa de Lancaster em Portugal, portanto nada mais apropriado que lembrar o pelicano, posto que era com esse sangue que começara a nova dinastia, a do João, o irmão bastardo d’O Formoso, em quem terminara a primeira dinastia portuguesa. Esta edição teve sucessivas reimpressões, e o pelicano que na primeira aparece voltado à esquerda, nas seguintes olha à direita, mas são todas igualmente raras, posto que só se conhecem 34 exemplares sobreviventes.

A épica camoniana.

Batalhas e feitos heróicas sobejavam para serem cantados, e os iam sendo esparsamente, loas diversas narrando momentos gloriosos nunca faltaram (3), concertá-los numa narrativa única e sequenciada onde o herói multiforme e multifário (4) emergisse com uma identidade una e absoluta a partir de uma propositura universal, que, sincrética, apresentasse seu caminho traçado e trilhado como via solitária na qual sua decisiva intenção fosse o forjar-se, e o amalgamar sua existência na própria senda de existir (5). Onde o pequeno se torna grande, e o trivial, inusitado. Este o feito alcançado nestes versos, que de seu tempo, eternizaram-se.

‘PACTUM’.

“Os Lusíadas” trazem consigo uma convenção implícita, a da portugalidade, não patriótica somente, mas universal, por cometer a transgressão da especificidade lusitana, no congraçamento (pactum em latim) que extrapola os liames do tecido com o qual fabrica sua conjuração, que é mais que trama ou narrativa, indo compor este elemento de unidade, que segue bravamente sua senda a caminho do meio milênio de existência, em seu continuado trabalho cívico, sina de maravilha.

Podem tanto as palavras!

(1) Os penedos no outeiro de Patane, conforme a tradição indicam dois poemas da Lírica: “Sustenta meu viver uã esperança” e “Onde acharei lugar tão apartado”.

(2) Como está na estrofe 45 do segundo Canto.

(3) Como se pode ver alguns exemplos desta poesia épica recolhida no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516).

(4) Hoje, diriam, mais credivelmente, multipolar, termo agora em uso nos meios diplomáticos internacionais.

(5) Como fica claro nas estrofes 2 do Canto I, 44 do Canto II, 3 do Canto VII, que destaco entre outras.

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