Deus Vult! As cruzadas (Parte 8)

Deus Vult! As cruzadas (Parte 8)

O impacto das Cruzadas na Europa.

A oportunidade retém-nos agora pela quarta cruzada, apesar de terem sucedido outras campanhas até 1272. O presente texto procura ensaiar uma síntese acerca do impacto positivo que as cruzadas tiveram na Europa, em termos políticos, económicos, financeiros e culturais, ainda que a sua narrativa se revesta, sobretudo, de fracassos militares, responsáveis pela acentuação das animosidades religiosas entre muçulmanos e cristãos.

O estímulo da economia e do contacto entre culturas reavivou o comércio entre a Europa e a Ásia Menor, através dos itinerários terrestres, mas sobretudo pelo mediterrâneo, aumentando a quantidade de produtos e a sua novidade. O comércio entre o Leste (têxteis de luxo, especiarias) e o Oeste (escravos, produtos florestais e soldados) fazia-se, mas com alguns riscos, dado que se vivia num clima permanente de ressentimento relativo à desconfiança e ao repúdio promovido pela fé de cada uma das partes.

Assim, o fortalecimento da economia interna da Europa deu-se através do aumento de reservas monetárias de moeda muçulmana, quer na Palestina, nas Espanha ou na Sicília, caso que promoveu o financiamento do comércio urbano, a aquisição de produtos de luxo e desenvolvimento das manufacturas europeias. Foi o elevado número de moedas muçulmanas permitiu ainda criação de uma base comercial capitalista na Europa.

Implementaram-se e desenvolveram-se novas tecnologias de base oriental, tais como os moinhos de vento, ou os novos conhecimentos de construção naval.

Em termos políticos, as cruzadas fortaleceram e reafirmaram a autoridade moral dos Papas sobre o poder temporal e sobre as populações.

O estabelecimento de alianças entre os reinos cristãos sob os pretextos de uma fé em comum, (ainda que esses mesmos reinos estivessem sob conflito), também foi um factor de progresso em direcção à paz e à diplomacia, através de um sentimento de “unidade”, que promoveu melhores sistemas de governo, mais centralizados, rompendo progressivamente com os modelos feudais e de vassalagem.

Em termos sociais as cruzadas levaram à renovação de alguns laços familiares na aristocracia e ao reforço do ideal de cavalaria.

Em termos financeiros, o impacto de cada uma das cruzadas foi diferente. Os exércitos das duas primeiras cruzadas sustentaram-se com base no que retiravam da terra, mas na terceira cruzada o financiamento para as despesas com os exércitos de Frederico Barba Ruiva e Filipe Augusto adveio dos seus recursos pessoais e ajudas dos barões. Já o de Ricardo I teve origem na “taxa de Saladino”, estipulado pelo seu pai. A quarta cruzada, de Luis IX e de Frederico II foram muito caras. Luís morreu em dívida para com os próprios súbditos, os banqueiros genoveses e os cavaleiros templários.

Neste contexto, também ficou evidenciada a importância dos bancos italianos, quer para Papas quer para monarcas.

A filosofia e a literatura muçulmana conheceram focos de acolhimento na Europa que resultaram na divulgação da poesia e da prosa, assim como se envolveram e se difundiram vocábulos pelas línguas europeias.

Em termos de mentalidade, um aspecto positivo das cruzadas foi a promoção de entendimentos e tolerâncias culturais entre ocidente e oriente, que estimularam a receptividade e a compreensão dos europeus. Talvez o desenvolvimento destas competências também tenha auxiliado a Europa na preparação para a sua grande abertura ao mundo na época do Renascimento.

Bibliografia

NICHOLAS, D. (1999). Nobres e Cruzados. In A Evolução do Mundo Medieval. Sociedade, governo e pensamento na Europa: 312-1500. Lisboa, Publicações Europa-América.

Thomas F. Madden, Marshall W. Baldwin et al., «Crusades» in Encyclopaedia Britannica [em linha], Chicago, Encyclopaedia Britannica, Inc., 25 de Outubro de 2019, atual. 2020 [consult. a 15 de Julho de 2020]. Disponível online/ na Internet: < URL:       https://www.britannica.com/event/Crusades>

 

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