Deus Vult! As Cruzadas (Parte 1)

Deus Vult! As Cruzadas (Parte 1)

Antes de iniciar a leitura dos textos desta nova sequência convém advertir o leitor para o carácter generalista dos seus conteúdos, de modo a que as expectativas depositadas sobre a sua aprendizagem estejam controladas no tocante ao aprofundamento de conhecimentos. Pretende-se prestar um serviço de informação imparcial sobre o tema, baseado na bibliografia mencionada.

O óptimo climático e outros factores.

O presente texto procura entender as consequências directas e indirectas do óptimo climático e de outros factores de ordem política, económica e social no advento das Cruzadas.

O óptimo climático tratou-se de um momento (950 -1250) em que o clima aqueceu e afectou a região do Atlântico Norte. A situação surtiu efeitos muito positivos na economia desse período, dado que esta dependia das boas condições da atmosfera, do solo, bem como da abundância de recursos humanos para obter proventos. De qualquer forma, nem todas as regiões foram afectadas da mesma forma e a análise que se segue é feita em termos generalistas.

As boas condições climáticas proporcionaram uma maior produção de recursos alimentares e agrícolas, para a qual também contribuiu a expansão agrária, derivada da introdução de novas tecnologias como o arado. A disseminação dos moinhos de vento, tecnologia árabe, foi outro factor relacionado com o aumento da produção.

A abundância de alimentos e excedente levaram a um aumento demográfico, o que contribuiu para uma maior disponibilidade de mão de obra para trabalhar a terra, mas também para, mais tarde, ingressar as hostes das Cruzadas.

A profusão dos bens alimentares e a criação de excedentes levou a que os pagamentos em géneros perdessem alguma relevância. Deste modo dá-se uma aproximação da economia agrária e feudal à economia monetária, em emergência. Esta situação proporcionou uma maior circulação monetária, dado que as rendas passaram a ser cobradas em dinheiro em detrimento dos géneros, derivando no desenvolvimento do comércio e da vida urbana.

Apesar do reavivar das urbes ter sido uma consequência indirecta do óptimo climático, originada por uma maior circulação monetária, foi um acontecimento fundamental para os movimentos militares europeus, dado que as cidades, sobretudo as litorais, eram portas abertas ao exterior, através do uso das frotas marítimas. Por conseguinte, o desenvolvimento das cidades proporcionou o alargamento e a consolidação de relações e alianças, solidariedades comerciais, abertura e manutenção de rotas, bem como o desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte, essenciais para se circular em segurança e rapidamente.

Uma outra situação que contribuiu para a disponibilidade de recursos para as Cruzadas, pese embora a sua relação com o óptimo climático seja pouco evidente, foi a prática do morgadio. Este costume não permitia uma distribuição igualitária da herança patrimonial familiar pelos descendentes, nem a alienação ou indivisibilidade desses bens, o que motivou a adesão às Cruzadas dos menos favorecidos para conquistar os seus próprios territórios e estatuto social.

Apesar do óptimo climático ter permitido a formação das condições necessárias para sustentar um empreendimento caro e exigente em termos de recursos e manutenção, outros factores também contribuíram para a organização destas campanhas militares.

Em termos políticos, já havia reinos europeus com sistemas de governação melhorada e mais familiarizados com a diplomacia e a centralização, face a outros onde imperavam tendências bélicas e os conflitos de interesses entre linhagens e senhores feudais.

No tocante ao poder papal, a reestruturação do clero e a Reforma Gregoriana revestiram a cadeira de S. Pedro de uma autoridade moral sobre o poder temporal, ainda que não totalmente estável. A verdade é que foi o Papado a convocar os concílios que deram origem às Cruzadas, e os reinos europeus responderam.

Em termos económicos e comerciais, o desenvolvimento das cidades comerciais italianas e das suas frotas marítimas também começavam a disputar a supremacia muçulmana sobre o Mediterrâneo.

Por esta mesma altura a dinastia turca seljúcida começava a movimentar-se para sul e para a oeste, aproximando-se das fronteiras bizantinas e criando tensões territoriais.          

Por fim, as Cruzadas também resultam do forte impacto social da fé, da religião e da espiritualidade da época. A experiência do indivíduo e das populações era percepcionada como um domínio fora do controle do ser humano e da responsabilidade da divindade. Ninguém era indiferente aos dogmas da religião. Deste modo, quando a guerra era feita para proteger cristãos da ameaça de agressão ou conversão a outras crenças consideradas infiéis à sua, então o acto criminoso de guerrear passava a ser visto como desejado e autorizado pela divindade.   

Além disso, a peregrinação a locais sagrados para os cristãos também era uma prática comum durante estes séculos. Mais para o final do século XII, dos três locais mais visitados (Roma, Santiago de Compostela e Jerusalém), foi aquele mais a Este que se encontrava ameaçado pelas intenções dos turcos. Tornara-se um local inseguro, de onde já circulavam relatos alarmantes de peregrinos.

Outro factor de natureza religiosa foi o cisma de 1054, em que se deu uma acentuação das divergências entre as Igrejas cristãs ocidental e oriental, através da ocupação normanda do sul da Itália, ainda mais exacerbadas pelo ataque de Robert de Guiscard à Grécia. Todavia, após a morte de Robert em 1085, as condições de renovação dos laços pareciam estar no bom caminho, sobretudo, quando o imperador bizantino faz o apelo de auxílio, e 1095, para reprimir a ofensiva turca.

Em suma, as Cruzadas resultaram de um conjunto de factores em grande escala, onde ficou evidente a influência do clima na economia e a articulação das relações de poder, pois, sem recursos e alianças, talvez o movimento das Cruzadas não tivesse conhecido o mesmo desenvolvimento.

Bibliografia

NICHOLAS, D. (1999). Nobres e Cruzados. In A Evolução do Mundo Medieval. Sociedade, governo e pensamento na Europa: 312-1500. Lisboa, Publicações Europa-América.

Thomas F. Madden, Marshall W. Baldwin et al., «Crusades» in Encyclopaedia Britannica [em linha], Chicago, Encyclopaedia Britannica, Inc., 25 de Outubro de 2019, atual. 2020 [consult. a 15 de Julho de 2020]. Disponível online/ na Internet:< URL: https://www.britannica.com/event/Crusades>

Imagem: Medievalists.Net: https://www.medievalists.net/2015/01/islamophobia-first-crusade-expansion-christendom-islamic-world/

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