Causas da expansão ultramarina europeia no século XV

Causas da expansão ultramarina europeia no século XV

Quais foram as principais causas expansão europeia e, particularmente, como se explica o pioneirismo português e espanhol? Destas questões se ocupará o ensaio que se apresenta à vossa leitura.

No contexto das descobertas e expansões, os europeus foram pioneiros a percorrer um mapa-mundo ainda desconhecido. Sabe-se que no século XIII se formou uma rota comercial terrestre para o Oriente, possibilitada pelo alargamento do Império Mongol, que engloba a China, e por uma época de «acalmia» denominada «pax mongol». Sabe-se que durante esse mesmo século Marco Polo esteve na China, e que através da sua obra, Livro das Maravilhas, se constata um despertar da curiosidade das viagens para Oriente, para o desconhecido e o potencial que este encerra. Contudo, esta via é bloqueada pela ofensiva dos turcos seljúcidas no médio oriente, nos séculos XIV e XV.

Foi então necessário encontrar alternativas, também porque a restante conjuntura europeia do século XIV assim o forçará.

As primeiras etapas da expansão ultramarina europeia encontram-se, seguramente, relacionadas com o pioneirismo de Portugal e Espanha. Mas conjuntura que proporcionou o início da etapa dos descobrimentos deve ser analisada e explanada.

Nos finais do século XIV, o século assolado por fomes, pestes e guerras, tudo estava em défice. Face a essa conjuntura de problemas económicos, políticos e sociais, a agricultura, que era a base da economia, não podia dar resposta às profundas necessidades que a Europa passava. Parecia que o comércio também não. O mercador, responsável pelo comércio das urbes debateu-se com um mundo inconstante: as mercadorias corriam o risco de não chegar, ou então quando chegasse, os cursos legais podiam ter caído, a moeda mudado de valor, os compradores podiam ter abandonado uma cidade assolada pela peste ou alvoraçada pela contenda de mesteirais. No meio desta instabilidade generalizada, havia ainda a questão das mutações monetárias, isto é, cada território com sua moeda. 

Porém, em princípios do século XV, define-se uma série de estratégias de recuperação da economia e da sociedade, que já tivemos oportunidade de abordar na Parte 3 do texto “Fome, Peste e Guerra no século XIV”, entre as quais se destaca o maior investimento no comércio.

O caso português enquadra-se na conjuntura de circunstâncias que motivaram o movimento expansionista. A esse enquadramento pode acrescentar-se a já existente tradição de pesca e do comércio marítimo.

Aliás, portugueses e espanhóis, encontram-se desde o início do século XIV em todos os portos, comercializando as riquezas do seu país (lã, vinhos, frutos). Dispõem de excelentes navios e pensam ir procurar as especiarias e o ouro do Sudão para o Sul. Se é um Genovês que descobre as Canárias (1312), certo é que Portugueses, Catalães e Castelhanos frequentam estas paragens a partir dos anos de 1340. A Madeira era provavelmente conhecida desde o final do século XIII e parece que os Portugueses descobrem os Açores em 1341. Os Ibéricos interessam-se igualmente pelo Magreb, através do qual lhes chegam ouro, escravos negros e especiarias. Outra circunstância específica e motivadora do pioneirismo português era o apoio directo dos monarcas nas actividades marítimas e de construção naval (Bolsa de Mercadores, 1293; Companhia das Naus, 1377). Tinham também um contacto privilegiado com técnicas e instrumentos de navegação desenvolvidos e avançados, provenientes dos judeus e muçulmanos.

Quanto a Portugal havia ainda a necessidade de afirmar a dinastia de Avis, caso que sucederá com o empreendimento a Ceuta, em 1415, acontecimento que marca em simultâneo a continuação da Reconquista e o início de uma empresa nova, a Conquista, que começa pelo reconhecimento da África, patrocinado pelo príncipe Henrique «o Navegador». Pouco a pouco, os Portugueses vão reconhecendo a costa e vêem abrir-se-lhes o Oceano Índico.            

Quanto a Espanha, que segue o encalço expansionista de Portugal no final do século XV, depois de conseguir expulsar definitivamente os muçulmanos do território com a conquista de Granada em 1492, e de unificar os diversos reinos espanhóis sob a recém-criada monarquia dos Reis Católicos, encontrou as suas motivações na necessidade de alcançar os mercados lucrativos de comercialização de especiarias, dado que se encontrava carente de riqueza e também com défices, porém através de uma rota alternativa à dos portugueses. 

Nesta fase inicial dos descobrimentos é necessário demarcar um pouco a natureza e intenção comercial da militar, pois, se por um lado, o movimento expansionista teve uma natureza militar, liderada pela nobreza, interessada em adquirir mais territórios para obtenção de rendimentos, já o comércio era altamente fomentado pelo estrato social burguês (mercadores, artesãos e alguns eruditos), em que os objectivos pacíficos e diplomáticos para criação de redes comerciais, não se coadunavam com os objectivos e interesses da nobreza.

Foi preciso algum tempo e a alteração de algumas circunstâncias até que ambas as realidades encontrassem um ponto de equilíbrio.        
Queria-se também apostar na expansão da fé cristã, que nesta época também se encontrava enfraquecida pelo Cisma e pela diminuição das fileiras do clero dizimadas pela peste.

Tudo isto levou ao início da era dos descobrimentos.

Delumeau, J. (1994) – A Ásia, A América e a Conjuntura Europeia. In A civilização do Renascimento I (P.49-72). Lisboa, Editorial Estampa.   

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