Alexandre Herculano na Historiografia romântica

Alexandre Herculano na Historiografia romântica

O presente ensaio tem por objectivo definir os parâmetros que justificam a integração do vulto de Alexandre Herculano, figura política, literária e intelectual portuguesa, na historiografia romântica e liberal. Para os devidos efeitos evocam-se os critérios estipulados por Guy Bordé e Hervé Martin na definição da corrente, patentes na obra As Escolas Históricas (1983), onde é possível constatar as evidências e características do movimento, paralelas às circunstâncias nacionais da época. Destarte, o trabalho prossegue comparando e concomitando de forma breve, objectiva e pragmática, a corrente e o autor, nos pontos concorrentes para uma afinidade global.
A corrente é fruto do contexto dos movimentos liberais, das revoluções burguesas, dos movimentos independentistas e das tendências anticlericais, circunstâncias não alheias a Portugal, que conduziram Herculano, um jovem intelectual, a tornar-se partidário do liberalismo, tendo, inclusivamente, integrado momentos significativos como o cerco do Porto em 1831. Na qualidade de romântico, o liberalismo veio a ser a ideologia subjacente a toda a sua produção intelectual e historiográfica, e a estética da sua expressão escrita uma sentida e inflamada comunicação.
A proveniência social dos historiadores assinalava-se por estratos elevados, implicados em circuitos eruditos e literários, com acesso a cargos de magistratura. O espaço físico onde se reuniam os românticos e liberais portugueses encontra correspondência no cenário internacional, onde efervesciam academias, escolas, sociedades e antiquários. Nesta acepção é inegável a relevância social do autor, apesar das dificuldades financeiras durante sua ascensão que, não obstante, lhe conferiram outras qualidades e experiências indispensáveis ao exercício de um historiador romântico, nomeadamente competências arquivísticas e literárias, obtidas durante o seu contacto com a Torre do Tombo, por exemplo. Mais tarde, entre outros cargos, Herculano tornou-se coadjutor do Director da Biblioteca Pública do Porto (1833), redator do Diário do Governo (1837), director da Real Biblioteca da Ajuda e das Necessidades (1839), e, posteriormente, foi membro da Academia Real das Ciências e seu dirigente (1844).

Em termos temáticos e programáticos a corrente caracterizou-se por enfatizar o indivíduo e a liberdade, as sociedades e o municipalismo, sendo eminentemente regionalista, com grande simpatia pela Idade Média, considerada a época do advento das nacionalidades.
Qualifica-se como uma corrente subjetiva, ausente de tradições científicas e de pouco espírito crítico, olvidada de objectividade e imparcialidade, contudo, pontos amplamente compensados pela riqueza e originalidade literária observada na época, na qual Herculano também foi pioneiro nacional do género literário do romance histórico, tornando-se autor análogo à qualidade de Walter Scott e Victor Hugo.
Todavia, tratou-se de uma literatura marcada pela fantasia, pela idealização das figuras históricas e por uma forte ficção dos seus comportamentos e sentimentos, derivando em excessos de estilo, idiossincrasias também encontradas nas obras de Herculano: Eurico, o Presbítero, o Bobo, O monge de Cister (dois volumes), etc.
Retomando o assunto, a historiografia romântica é marcada por uma período de grande exaltação das nacionalidades e também do europeísmo, com especial fascínio pelas origens. Neste sentido, em Portugal, Herculano foi autor pioneiro de uma volumosa obra, História de Portugal (1846), que se tornou referência historiográfica nacional.
Do ponto de vista metodológico e ideológico a corrente procurou a autenticidade documental recorrendo aos métodos da crítica erudita e relevando momentos chave como significativos da construção da História nacional, assim como a apologia do municipalismo, valorizando o papel do indivíduo e do Povo. A respeito disto, a obra de Herculano tanto preza pelo forte contributo e discernimento documental proveniente da forte experiência arquivística do autor, como pela lealdade ideológica ao liberalismo e ao anticlericalismo, mas que não renega o cristianismo, de que foi exemplo a controvérsia de Ourique (primeiro volume da História de Portugal), tema sobre o qual Herculano não se debruçou particularmente, demonstrando uma clara tomada de posição face à historiografia da providência (milagre de Ourique).
É ainda uma corrente inserida num contexto de grande azáfama dos periodicistas. No plano internacional destacou-se a Revista Histórica, e no plano nacional podemos destacar O Panorama. Neste contexto, Herculano teve uma participação activa na estruturação do pensamento da época, através do seu espírito polémico e reivindicativo, sendo um crítico e um filósofo da história, com os seus antagonistas correspondentes, nomeadamente Magessi Tavares. Em suma, os parâmetros que justificam a integração de Herculano na corrente foram de ordem política, social, cultural, ideológica e metodológica, em afinação com o movimento internacional do romantismo e do liberalismo.

Referências bibliográficas (NP405)
Ana Isabel Buescu – “Alexandre Herculano e a polémica de Ourique. Anticlericalismo e iconoclastia”. In Livro do Colóquio realizado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 19 de Novembro de 2010. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2013, pp. 37-57.
Biblioteca Nacional de Portugal; Centro de História da Universidade de Lisboa – Dicionário dos Historiadores Portugueses. Da Academia Real das Ciências ao Final do Estado Novo. [em linha]. Portugal: UL; CH, 2021. [Consult. 26 Março 2021]. Alexandre Herculano. Disponível em WWW: http://dichp.bnportugal.pt/historiadores/historiadores_alexandre_herculano.htm >.
Guy Bordé e Hervé Martin – Michelet e a Apreensão “Total” do Passado. In As Escolas Históricas. Mem Martins: Europa-América, 1983. ISBN 972-1-03026-0. Cap. V, p.82-93.

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