A interpretação da fé, das obras e do conceito de salvação (2ª Parte)

A interpretação da fé, das obras e do conceito de salvação (2ª Parte)

Nesta segunda parte, concluo a reflexão sobre o uso da fé como produto de mercado.

Indulgências modernas

Sem me alongar num estudo sobre as origens do Pentecostalismo, “Ele tem suas raízes no Movimento Holines, uma tendência que se alastrou pelas Igrejas dos EUA – principalmente as metodistas – na segunda metade do século XIX” (HILL, 2009, p.451/452) e se fundamenta na manifestação de um segundo Pentecostes[1] acontecido com seus fundadores. No Brasil, no final da década de 1970, transformações, adaptações e reconfigurações desse movimento implicaram no surgimento de uma nova nomenclatura, o Neopentecostalismo

No Brasil, o Pentecostalismo se dividiu em 3 períodos, também conhecido como ondas. A primeira onda compreende o período a partir de 1910, com a chegada da Congregação Cristã e, posteriormente, com a chegada da Assembleia de Deus, em 1911. A segunda onda começa na década de 50 e início da década de 60, com o surgimento da Igreja do Evangelho Quadrangular, em 1951, Brasil para Cristo, em 1955 e Deus é Amor, em 1962. A terceira onda surge a partir do final da década de 70, com a Igreja Universal do Reino de Deus e, com ela, surge aquilo que é denominado hoje movimento Neopentecostal brasileiro, com seus expoentes tais como a Universal do Reino de Deus, Mundial da Graça e Internacional da Graça de Deus. (VELIQ. https://domtotal.com/noticia/1258786/2018/05/movimento-pentecostal-e-neopentecostal-diferencas-e-semelhancas/)

A expansão do Neopentecostalismo no Brasil se deve, principalmente a uma estratégia que acabou sendo imitada pela Igreja Católica: a transmissão de pregação pela televisão[2]. Através de horários comprados e da obtenção de concessões de emissoras, as Igrejas Neopentecostais, especialmente as três mencionadas por último na citação acima, expandiram sua atuação estabelecendo um sistema semelhante às franquias para, cada vez mais, inaugurar novos templos e arrebanhar mais fiéis, que também eram telespectadores.

É razoável supor que a difusão do Pentecostalismo, especialmente no Brasil, se fortaleceu num ambiente pulverizado pelo capitalismo, pelas enormes diferenças sociais e pelo anseio de consumo como forma de realização e símbolo de vitória. Na versão do  Neopentecostalismo, pastores que enriquecem são vistos como abençoados por Deus e a salvação se torna um projeto individual de conquista material fundamentada em passagens do Antigo Testamento que apresentam um Deus que tanto abençoa como amaldiçoa e que distribui castigos e prêmios, frequentemente em forma de conquistas ou de perdas de bens materiais. Textos escritos em épocas diversas em que nem sempre se acreditava numa vida após a morte.

Nesse novo cenário, calcado em interpretações literais das traduções dos textos Bíblicos, principalmente do Antigo Testamento, Deus retribui aos filhos que se engajam em Sua obra[3] nesse mundo, dando-lhes, como benção, mais recursos para realizar mais obras. A salvação e as bênçãos divinas são assumidas num novo aspecto mais material e ligado ao sucesso na vida. As obras se tornam, novamente e paradoxalmente, o caminho para essa salvação cíclica através da contribuição “espontânea” para as várias Igrejas que vão surgindo e se afirmando, cada uma, como a única capaz de mediar essa transação.

Essa proposta se tornou especialmente atrativa para as classes mais pobres da sociedade brasileira, majoritariamente formada por pessoas negras.

Marco Davi de Oliveira, pastor Batista em São Paulo, em seu livro “A Religião mais negra do Brasil”, levanta as questões pelas quais a população negra brasileira faz, cada vez mais, a opção pelo Pentecostalismo. Segundo ele, “[…] o pentecostalismo não fez essa opção explícita pelos pobres ou pelos negros, mas podemos dizer que no Brasil, os negros fizeram opção pelo pentecostalismo”. (OLIVEIRA, 2015, p.48). Sem pretender uma conclusão definitiva para explicar a grande participação no povo negro nas Igrejas Pentecostais o autor enumera algumas razões como a acolhida e consequente aumento da autoestima, cultos mais espontâneos e alegres e até uma disciplina mais forte em relação às coisas do mundo, como instrumento de assepsia e purificação e sensação de pertença. Deus abençoa aos que seguem as regras[4] de Sua Igreja, e isso inclui o dízimo.

Voltando às origens e concluindo

A busca Neopentecostal pela realização e pelo sucesso nesse mundo assume, portanto, parte do que os protestantes do século XVI abominavam: a prática das obras como forma de agradar a Deus e de conseguir seus benefícios. No Neopentecostalismo não é evidente uma reflexão sobre o sentido da vida contraposto ao da morte, e a escatologia não aparenta ser uma preocupação e um assunto discutido nos cultos e nas pregações, como parte de uma meta. A salvação para uma outra vida é confirmada pelo sucesso na conquista de uma salvação nessa vida, num retorno ao pensamento Calvinista nas suas origens. Por outro lado, o fracasso material é apontado como falta de fé em Deus e na Igreja cuja consequência é a abertura para a entrada do mal, do joio entre a plantação de trigo, que traz o sofrimento.

Mas o movimento Pentecostal não influenciou apenas o Cristianismo Protestante. A Renovação Carismática Católica (RCC) também é consequência desse pensamento e muitas de suas práticas de culto são semelhantes às Neopentecostais. As principais diferenças são que a RCC é fiel a todos os dogmas e crenças da Igreja Católica, como a devoção a Maria e aos Santos, que são o cerne do embate com o Protestantismo. Além disso, sua crença na salvação está mais ligada aos aspectos escatológicos e à expectativa da ressureição, como consequência de uma vida de oração na busca da santificação. Em contrapartida, a Teologia da Libertação (TL), quase esquecida durante a maior parte do século XX, voltou a ter brilho com a eleição do Papa Francisco. Para a TL, as obras também voltam a ser parte do projeto de salvação, não como ferramentas para sua conquista, mas como partilha de bens e valores, de agradecimento e como prática de engajamento.

Na Idade Média as guerras e a peste fizeram a Europa cristã prever o fim do mundo eminente e temer o juízo final. Cinco séculos depois inda estamos aqui, mas o COVID- 19 se espalhou pelo mundo e, além de fazer a Europa relembrar os tempos sombrios, provocou um isolamento social mundial. No Brasil, embora houvesse reações contrárias de algumas Igrejas Neopentecostais, os templos foram fechados ao público. A Igreja Católica manteve as transmissões de Missas pela televisão, mas com as igrejas vazias.

Todavia, qualquer que seja a teologia aplicada, é certo que as Igrejas não vivem sem recursos financeiros. Todas têm que pagar a energia elétrica e a água que consomem e quase todas têm funcionários remunerados. Além disso é preciso sustentar os padres e pastores. A ausência do povo incide diretamente na arrecadação de recursos.

Sem padres, pastores e templos a fé não tem como viver.

Notas

[1] Vinda do Espírito Santo, descrita no livro Atos dos Apóstolos (At 2, 1-13)

[2] Transmitir pela televisão é caro, mas justifica e amplia a possibilidade de pedir dinheiro.

[3] O uso da expressão “obra de Deus” para designar o trabalho de divulgação da mensagem cristã é frequente nas pregações de pastores.

[4] Curiosamente, a migração de praticantes do Catolicismo para as Igrejas Evangélicas durante todo o século XX aconteceu, em grande parte, por causa da rigidez das regras da Igreja Católica.

Descarregar artigo em PDF:

Print Friendly, PDF & Email

Deixe o seu comentário

LOGIN

REGISTAR