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É preciso incorporar a voz dos jovens nas decisões de saúde

É preciso incorporar a voz dos jovens nas decisões de saúde

Cristina Vaz de Almeida (PhD)

“Muitas vezes acho que as pessoas mais velhas não ouvem as ideias da juventude só porque somos jovens e somos percebidos como inexperientes.” 

jovem 19 anos, MyVoice

“Jovens. Nosso futuro. Nossa construção”  (2013) é um livro que me deu imenso prazer a construir, fruto de um trabalho de investigação de campo junto de jovens. O tempo foi para ouvir de fato a sua voz e gravá-la de forma mais permanente.

O que se pretendeu com este projeto colaborativo e participado, foi também contribuir para uma maior diversidade, equidade e inclusão de jovens e famílias na pesquisa científica (NASEM, 2019; 2020).

Nesta investigação publicada em livro em histórias de jovens com idades compreendidas dos 15 aos 25 anos, foi seguida uma metodologia de entrevista coletiva e individual em profundidade para realmente “ouvir” o que os jovens de uma comunidade de Lisboa (Ameixoeira), com alguma carência socioeconómica, tinham para dizer da vida, dos amigos, dos telemóveis, dos seus sonhos e desafios. Foi um trabalho de campo, em 2013, que me deu muitíssimo prazer organizar e que está no acervo de livros da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. 

Mais tarde, em 2017, nasceu “Em Nome Próprio”, integrado num projeto de parceria com o Bip Zip, com a Junta de Freguesia de Alcântara e com a Escola (p.10), Escola Francisco Arruda e uma série de pessoas dinâmicas e participativas, cuja missão também foi  levar a “esperança” a estes jovens NEET (Neither In Employment Nor In Education Or Training). Com uma forte componente de responsabilidade social, foi o passo de um livro também efetuado em participação comunitária, com esta escola secundaria de Lisboa, que trouxeram para o livro “Em nome Próprio” a voz e experiências reais e contadas em nome próprio, de um grupo de jovens.

Na página 7 do livro Em Nome Próprio (2017), podemos ler o seguinte nas palavras de um jovem: “Apesar disso, muitas vezes o preconceito faz com que sejamos vistos como um grupo problemático de pessoas, o que cria barreiras para o desenvolvimento pleno de nosso potencial. É preciso entender o nosso universo”

Estes comentários sinceros, reveladores do sentimento de cada um que quer e pode manifestar-se “ajuda a perceber que ele é,” sendo também uma oportunidade para fazer políticas públicas, com estratégias inovadoras, capazes de ver os adolescentes como atores da sua própria história (2017, p. 7).

Outro jovem refere que se abriu mais uma porta do conhecimento, processo que assentou numa intervenção baseada em motivação comportamental, debate, apelo ao que estes jovens sentem verdadeiramente, e refere o seguinte: “O projecto fez-me pensar e ler textos sobre cidadania como este da UNICEF. Nunca pensei ser isto tudo…e para mim, é fantástico.” (2017, p. 7).

Um outro participante adolescente sublinha : “Aprendi com o projeto o que significa andar pela cidade. Aventurar-me no desconhecido. Perceber as relações neste espaço público. Reconhecer as diferenças e as desigualdades. Tudo isso significa experimentar a minha própria cidade. Quero também dar-lhe sentido através da ação”. (Em Nome Próprio, 2017, p. 9).

A coordenadora do Projeto, Ruth Calvão, refere sobre os NEET: “A proporção de jovens conhecidos pela sigla NEET (Neither In Employment Nor In Education Or Training) em Portugal — 17,5% — está ligeiramente acima da média europeia (17,3%) tendo subido de forma acentuada nos últimos 10 anos, já que em 2006 o registo era de 12,6%. (2017, p 11)

Ao lermos a publicação do IOM: Promoting Positive Adolescent Health Behaviors And Outcomes Thriving in the 21st Century, da Comissão Applying Lessons of Optimal Adolescent Health to Improve Behavioral Outcomes for Youth, de Graham & Kahn, da National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine podemos afirmar que continuam a ser válidas as nossas estratégias em Portugal e que vão ao encontro das orientações internacionais como o IOM; a WHO, a UNESCO e a OCDE.

Se estamos no caminho certo, a maior certeza é que devemos continuar. 

ALGUMA REFLEXÃO E LITERATURA

É necessário, por isso, envolver os jovens no processo de pesquisa de melhores resultados em saúde e bem-estar, porque as suas experiências e vivências atuais são diferentes das gerações anteriores e podem trazer uma lufada de ar fresco às intervenções mais eficazes em saúde.

Este é também o alinhamento do NASEM (2019; 2020) que destaca ser necessário encontrar maneiras de reconhecer e incluir jovens e familiares participantes quando se apresentam os resultados da pesquisa. É mesmo preciso garantir que eles permaneçam envolvidos e façam parte da conversa e da visibilidade de todo o projeto.

Este envolvimento e visibilidade dos jovens gera também compromisso, atenção, sentido de recompensa e fidelização. A incorporação significativa das perspetivas dos jovens torna a pesquisa mais eficaz, pois os resultados respondem às necessidades reais dos jovens. Isso, por sua vez, pode levar a políticas que também reflitam melhor suas reais necessidades (Graham & Kahn, 2020)

Segundo Graham & Kahn (2020), esta geração Z é mais racial e etnicamente diversa, bem como mais educada, e cresceram num mundo onde os smartphones e a internet são omnipresentes, tornando sua experiência de ser um adolescente diferente da juventude de 20 anos atrás.

Se observarmos as experiências de um segmento significativo da Geração Z, e de acordo com uma pesquisa do Pew Research Center de 2018 , 95% dos jovens de 13 a 17 anos têm acesso a um smartphone e 97% usa pelo menos uma das sete principais plataformas online. YouTube, Instagram e Snapchat estão entre os destinos online favoritos dos adolescentes. Cerca de 85% dizem que usam o YouTube, 72% usam o Instagram e 69% usam o Snapchat. O Facebook é menos popular entre os adolescentes – 51% dizem que usam este site de media social. Cerca de 45% dos adolescentes dizem que estão online “quase constantemente”, e outros 44% dizem que estão online várias vezes ao dia.

Entre as diferenças da geração Z e a geração Millennials das gerações mais velhas  tem a ver por exemplo com a sua opinião sobre as mudanças familiar e social. Cerca de metade da geração Z (48%) e Millennials (47%) dizem que os casais gays e lésbicas podem casar-se e esse fato é uma coisa boa para nossa sociedade. Em comparação, apenas um terço dos Gen X e cerca de um quarto dos Boomers (27%) referem ser uma coisa boa. 

Com dados do Pew Research, a geração Z é mais propensa a ter um dos progenitores com formação universitária do que as gerações anteriores. Em 2019, segundo esta pesquisa (Pew Research), 44% da geração Z com idades entre 7 e 17 anos moravam com pais que tinham diploma de bacharelato ou mais, em comparação com 33% dos Millennials quando tinham a mesma idade. 

Quando uma equipa do projeto de investigação do relatório do NASEM (2020)  convidou os jovens ativistas climáticos para participar numa reunião relacionada com o impacto das mudanças climáticas na saúde mental dos jovens, e estes jovens ativistas falaram sobre seu desejo de estudar ciências ambientais na faculdade, pensou-se inicialmente do seu interesse genuíno pela ciência do clima e um desejo de trabalhar num tema que eram apaixonados. 

No entanto, à medida que as conversas progrediam, ficou claro que a motivação vinha do medo e da ansiedade em relação às mudanças climáticas (Graham & Kahn, 2020). Foi sendo destacado pelas conversas sobre a importância de abordar a Eco ansiedade na juventude e isso cria-nos um maior sentimento de urgência para mais pesquisas sobre o tema.

Outro dos exemplos que são destacados no estudo do NASEM (2020) é sobre COVID-19, em que um jovem participante referiu que, para alguns alunos LGBTQ+, regressar à escola poderia significar um retorno ao bullying dos colegas. 

Segundo Powers e Tiffany (2002), envolver os jovens em investigação e avaliação participativa cria uma excelente oportunidade para um desenvolvimento positivo da juventude, para a criação de um contexto para parcerias inter-geracionais e gerar descobertas de investigação para informar futuras intervenções e melhorias organizacionais, incluindo a mobilização comunitária.

Num focus group com 6 adolescentes, numa comissão do o comitê que redigiu The Promise of Adolescence (2019) foram identificadas três áreas prioritárias específicas onde os adultos e os sistemas poderiam apoiar melhor os adolescentes: 1) fornecer apoio durante a transição para a vida adulta; 2)  fornecer recursos adequados para a saúde mental e 3) envolver os adolescentes de maneira respeitosa e autêntica nas decisões que os afetam. 

Para se conseguir esta participação dos jovens e eventualmente das suas famílias é preciso alinhar alguns passos para a pesquisa, apresentação de resultados e participação futura:

MINI ASSEMBLEIAS MUNICIPAIS ORGANIZADAS COM A CÂMARA MUNICIPAL DE OEIRAS

Neste sentido a Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde – SPLS – está a preparar para lançar em setembro 2022, em parceria, um conjunto de mini-assembleias municipais “Literacia faz bem à saúde”, que convidará e integrará jovens para falarem sobre saúde, sobre as suas necessidades, visão, passos futuros, e incrementar também o seu nível e literacia em saúde. 

Estas sessões estão marcadas no Concelho de Oeiras, e vão realizar-se durante o mês de setembro aos sábados na assembleia municipal. Faremos um Livro Branco dos Jovens para a promoção de comportamentos e resultados em saúde. Apelamos às comunidades escolares e às organizações para envolver e trazer jovens para este projeto de audição dos mais jovens. Juntem-se a esta voz e participação. Para integrar grupos de jovens nestas Mini- Assembleias Municipais, em Oeiras ou em outras partes dos País ou dos países de língua portuguesa. Para vos demonstrar a estratégia e a organização do evento, por favor envie email para splsportugal@gmail.com

Referências:

NASEM – National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. (2019). The Promise of Adolescence: Realizing Opportunity for All Youth. Washington, DC: The National Academies Press. doi: https://doi.org/10.17226/25388.

NASEM – National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. (2020). Promoting Positive Adolescent Health Behaviors and Outcomes: Thriving in the 21st Century. Washington, DC: The National Academies Press. https://doi.org/10.17226/25552.

Parker, K, &   Igielnik, R. (2020) On the Cusp of Adulthood and Facing an Uncertain Future: What We Know About Gen Z So Far [online] https://www.pewresearch.org/social-trends/2020/05/14/on-the-cusp-of-adulthood-and-facing-an-uncertain-future-what-we-know-about-gen-z-so-far-2/

Pew Research Center (2020). PEW RESEARCH CENTER  [ONLINE] https://www.pewresearch.org/politics/2020/01/22/by-a-narrow-margin-americans-say-senate-trial-should-result-in-trumps-removal/

Vaz de Almeida, C. (2013). Jovens: nosso futuro nossa construção: pontos de reflexão sobre os jovens e pelos jovens

https://biblioteca.scml.pt/Opac/Pages/Search/Results.aspx?Database=10081_MONO&SearchText=AUT=%22Almeida,%20Cristina%20Vaz%20de%22

Vaz de Almeida, C. (2017). Em nome próprio. Digiset.

http://id.bnportugal.gov.pt/bib/bibnacional/1985593 

https://bibliografia.bnportugal.gov.pt/bnp/bnp.exe/registo?1985593

https://bibliografia.bnportugal.gov.pt/bnp/bnp.exe/q?mfn=210626&qf_AU==ALMEIDA%2C%20CRISTINA%20VAZ%20DE

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