“Instruir para o futuro, hoje.”

“Instruir para o futuro, hoje.”

Nos dias de hoje, olhando para realidade que nos rodeia, coexiste uma certa desordem na definição e entendimento dos termos educar e instruir. Apesar de os termos educar e instruir serem distintos ambos são e serão complementares. Brissos Lino num trabalho intitulado “Instrução, Educação e Formação” escreve de forma eximia sobre este tema. Na sua conclusão refere que qualquer um antes de ser médico, advogado, motorista, operário é uma pessoa que estabelece relações inserida num determinado contexto humano e psicossocial. É essencial conhecer-se e conhecer os outros, “…é fundamental [num contexto escolar] ajudar os alunos a saber pensar, para desenvolverem o hábito de aprender, de modo a perceberem-se a si mesmos, perceber os outros e o mundo, de forma que lhes faça um sentido. Só assim se poderão vir a integrar pacificamente na sociedade e a conviver harmoniosamente com os outros, prestando-lhes o contributo que se deseja e espera.”

Não se pode olhar para o futuro sem reconhecer o passado. A atual sociedade é a soma das várias experiências, tradições, costumes e aprendizagens vividas e transmitidos entre gerações. Podemos inclusive recuar até ao início do período do Homo Sapiense verificar que muitas práticas atuais assentam na sobreposição do conhecimento e princípios adquiridos nessa época. Lamark e posteriormente Darwin, sem aprofundar as perspetivas de cada um, salientaram que as espécies evoluem não só pelas condições externas bem como as suas características são transmitidas aos seus descendentes. Todos nós, pela nossa natureza, nos adaptamos e evoluímos. É na renovação que há inovação, disrupção.

Um dos resultados desta evolução, tanto a nível da espécie como também do conhecimento, é o desenvolvimento tecnológico. Em pleno século XXI deparamo-nos com uma evolução tecnologia não antes vista assistindo-se agora à disseminação em várias vertentes da inteligência artificial.

O ser humano predomina nos vários elementos, distinguindo-se das demais espécies pelas suas características singulares de viver em sociedade. A sociedade encontra-se organizada de forma a que exista coordenação e articulação entre as demais estruturas das diferentes áreas de atuação.

Em paralelo com a evolução, surgem novas questões relacionadas com a dualidade da inteligência humana e inteligência artificial. Quando uma complementa a outra, quando uma sobrepõe a outra? Será que no limite, teremos humanos a procurar pensar e agir como instrumentos mecanizados e por outro lado as máquinas procuraram ter emoções e racionalizar as disposições do meio em que se insere numa perspetiva humana? Deixamos este exercício de reflexão convosco.

Neste paradigma atual que se vive e evolui diariamente, a verdadeira questão que se coloca é como e quando preparar as gerações vindouras.

A Comissão Europeia (2018) tem vindo a ponderar sobre esta temática ao longo dos últimos anos. Neste sentido têm sido desenvolvidas diversas iniciativas tais como repensar a educação (investir em competências chave), recomendações, criação de emprego digital e planos de ação para o empreendedorismo.

Sobre a perspetiva educacional e reflexão pessoal, se o ato de docência acarreta uma enorme responsabilidade social, a responsabilidade social de uma instituição de ensino superior será mais acrescida. A educação e formação são essenciais e contribuem de forma positiva para cargos melhores e com mais responsabilidade. O ingresso no ensino superior permite o acesso a competências em determinada área de atuação. Estas competências são adquiridas e assimiladas de forma única pelos estudantes.

Outrora valorizou-se exclusivamente as competências técnico-científicas dos profissionais, denominadas competências verticais. Presentemente estamos perante uma realidade que estas valências apesar de essências devem estar associadas a outros saberes complementares para uma formação transversal. É notória a preocupação das várias instituições de ensino superior em criar mecanismos de apoio e desenvolvimento desta temática. Estes visam contribuir para uma melhor adaptação e sucesso pessoal, académico e profissional. Nunca esquecendo de onde viemos e com foco para onde vamos, evidencia-se que os as progénies de conhecimento são complementares e não sobreponíveis ou de caracter exclusivo. As melhores práticas não são mais que um acumular de saberes aprendidos, experienciados e transmitidos.

São inúmeras as definições para competências transversais e alguns autores salientam mais umas que outras, no entanto deve-se unificar a ideia de que competências transversais são uma componente fundamental da formação. Estas competências estão associadas a capacidades sócio-emocionais e atitudes tais como pró-atividade/iniciativa, paciência e sabedoria, flexibilidade, assertividade, planeamento, aptidão para gerir e liderar, inteligência emocional, autoconhecimento e controlo entre outros.

As competências transversais (softskills) ajudam a pessoa a adaptar-se às atuais trajetórias laborais, são competências que complementares â formação científica necessárias para o exercício de uma atividade laboral profissional. Estas competências permitem uma visão mais global sobre as circunstâncias.

Num estudo de Ana André (2013), denominado “As competências transversais e as práticas de gestão por competências: Um estudo exploratório de diferentes realidades organizacionais” foram entrevistados 10 gestores de recursos humanos e administradores de empresas. Através deste estudo foi possível verificar que “…as competências transversais estão presentes na contratação, na retenção e nos planos de desenvolvimento…”, sendo as mais valorizadas a “…flexibilidade, relacionamento interpessoal, adaptação à mudança e trabalho em equipa.”. Percebemos assim a importância deste tipo de competências no atual mercado de trabalho. Estamos perante uma realidade que para além de saber fazer é necessário ser dotado de uma capacidade de adaptação às envolventes, atuando como parte integrante de uma equipa funcional.

Denise Moura e Luis Zotes (2015), procuraram estabelecer uma correlação entre a teoria a prática. No seu estudo intitulado “Competências transversais e desempenho empresarial: Uma análise conceptual comparativa” indagaram sobre correlação entre competências transversais e desempenho empresarial. Se na prática, seria uma mais valia a existência destas competências nos seus colaboradores. Após entrevistar 59 profissionais, concluíram que dar prioridade às competências transversais pode ser uma ótima estratégia para melhorar o resultado financeiro de uma organização.

Demos apenas dois exemplos da panóplia de estudos de investigação sobre este tema, que na sua grande maioria confluem numa sintropia de ideias.

Se dedicarmos algum tempo a observar e refletir sobre a realidade que nos rodeia verificamos profissionais qualificados para determinada área, mas a desempenhar funções noutra. Não olhando para os motivos, pois são vários, com destaque para os mais óbvios, saturação de mercado e descontentamento pessoal, devemos olhar para a componente de competências transversais. A ausência destas poderá não permitir a progressão na própria carreia ou mesmo a sua presença poderá permitir a progressão ou aceitação noutra área que não a sua desempenhando funções igualmente importantes e estimulantes. Até porque muitos dos empregos atuais não existiam há dez anos e muitas novas formas de emprego serão criadas no futuro.

Extrapolando estes princípios para a realidade da instituição da qual se faz parte, no Instituto Superior de Administração e Línguas | ISAL, é possível observar este cuidado e preocupação não só nas componentes que completam cada licenciatura, mas também nos seminários administrados em tempos extracurriculares. Nestes é possível debater diversos assuntos atuais de diferentes temas enriquecendo o intelecto dos seus alunos.

Assiste-se a sessões com foco no empreendedorismo estimulando a criatividade e iniciativa, sessões que debatem a ética profissional, sessões que visam estimular a vertente de trabalho em equipa sugerindo aos alunos a apresentação dos seus trabalhos a públicos diversificados, entre outros. Procura-se desenvolver o intelecto pessoal com sessões de introdução ao coaching, mediação de conflitos, igualdade de géneros. Trabalha-se o espírito crítico através de sessões de esclarecimento sobre mercado laboral europeu e suas contingências.

Através desta estimulação procura-se desenvolver junto dos alunos atitudes e comportamentos induzem a melhores relações com os outros e melhoram desempenho ao nível profissional. São experiências enriquecedoras que decerto contribuem para o desenvolvimento pessoal e prestação no mercado de trabalho. Queremos o saber-fazer, mas também que se coloque a questão porque o fazemos.

Todas estas aptidões podem-se afunilar na atual expressão inteligência emocional. Daniel Goleman, PhD Inteligência Emocional, apresentou um livro que explora as habilidades que sustentam este conceito. Neste mesmo livro refere que as habilidades interpessoais (reconhecimento de emoções de outras pessoas e habilidades em relacionamentos intrapessoais) são importantes para organização de grupos, negociações de soluções, empatia e sensibilidade social. Será a articulação conjunta e única de cada um de nós, a nossa singularidade, que permitirá abordar e desconstruir um contexto complexo, encontrando uma possível resolução.

Verificou-se nesta pequena reflexão a importância e contributo das Instituições de Ensino Superior na formação complementar dos seus alunos. Deve-se ressalvar neste ponto, que apesar da postura camaleónica das instituições de ensino superior perante o tema, não se deve de todo, demarcar a responsabilidade social, nomeadamente das famílias no apoio e desenvolvimento da capacidade intelectual. Qualquer desenvolvimento cognitivo de um aluno traduz-se numa realidade multidimensional que se consubstancia no desenvolvimento da capacidade intelectual própria.

Estamos a entrar numa nova época disruptiva, começar um novo capítulo da história do ser humano. O investimento estratégico em novos mercados como o das energias renováveis, o desenvolvimento do intelecto artificial, a otimização dos processos, a globalização e exploração extraplanetária são os elementos necessários para começar uma nova era. Como se referiu no início, não podemos olhar para o futuro sem reconhecer o passado. Estamos em constante aprendizagem e evolução. Resta-nos estar preparados para tal. Devemos instruir para o futuro, hoje.

Artigo em co-autoria com o Dr. Luís Sardinha.

 

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